PUNIR CONVÉM A DEUS QUE É AMOR?

No final, Deus salvará a todos, indistintamente, porque Deus é Amor!

Essa frase poderia ilustrar a síntese da “teologia universalista”, nascida do liberalismo protestante do século XX,[1] pela qual Deus, em seu grandioso Amor salvará toda humanidade, indistintamente. Assim, Ele salvará o fiel e o infiel; a vítima e o seu algoz impenitente; o ladrão e o lesado; o pagão e o cristão, e dará o Paraíso tanto aos malvados, quanto aos beatos.

Dizem ainda que todos somos rigorosamente iguais, elevando o princípio da igualdade, que é relativo, ao absoluto extremo.

Todavia, esse não é verdadeiro Evangelho.

É verdade que Deus é AMOR.

Mas o Amor enquanto virtude perfeita, não implica no desamor ou oposição à reta Justiça.

A abolição das ações punitivas sobre os atos humanos, defendida pelo pensamento universalista liberal, dispõe a prática do mal sem consequências. Acontece que pela Justiça Divina, a humanidade é submetida a Deus que lhe retribuirá a cada um, conforme suas obras boas ou más: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12)”

É certo que Deus não faz distinção de pessoas: “Porque, dian­te de Deus, não há distinção de pessoas.”  (Romanos 2. 11)

Todavia, essa igualdade é relativa, nunca absoluta, porque apesar disto, ele distingue os justos dos malévolos, e os fiéis dos desobedientes, conforme notamos no texto da mesma carta de São Paulo: “Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: VIDA ETERNA AOS QUE, PERSEVERANDO EM FAZER O BEM,  buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas IRA E INDIGNAÇÃO AOS aos contumazes, rebeldes à verdade e SEGUIDORES DO MAL. Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego; mas glória, honra e paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego. (Romanos 2. 5-10)”

Quem cometer injustiça pagará pelo que fez injustamente; e não haverá distinção de pessoas. (Colossenses 3, 25)”

Todo mal há de ser punido, assim como todo Bem recompensado.

Essa é uma lei eterna irrevogável, sobre a qual está assentado o Juízo de Deus em relação a toda criação:

“Debaixo do sol, observei ainda o seguinte:” a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniquidade toma o lugar da justiça. (Eclesiastes 3, 16) “[…] aqueles, porém, que praticam a injustiça e o pecado são os seus próprios inimigos. (Tobias 12,10)
O conceito de Justiça é dar a cada um o que lhe é por direito, na proporção, e conforme seu trabalho.[2]

Aquele que renunciou, por amor a Cristo, tem por direito à restituição pois do contrário, tal situação lhe imputaria dano. Já aquele cujo amor não foi capaz para em nada renunciar, nada merece, pois se ganhasse algo estaria obtendo lucro indevido e injusto, por estar recebendo além do que lhe é meritório, louvável e de direito.[3]

A Justiça Divina, sendo perfeitíssima, não implica dano, e nem em excesso:

[…] tudo o que ultrapassa a medida, em matéria de justiça, é chamado, por extensão, LUCRO, como tudo o que não a atinge chama-se DANO. (Suma Teológica Q 58. Art. 10, Livro IIIa. Santo Tomás de Aquino)”

Se não houvesse consequência para os atos maus, também não poderia haver para os atos bons. Logo, o Bem e o mal já não se distinguiriam, sendo apenas circunstâncias acidentais que poderíamos escolher livremente quando bem nos conviesse. Não punir o ato mal, ou não recompensar o ato bom é um mal em si mesmo chamado INJUSTIÇA, que é o dano não ressarcido e o ganho não meritório: “Não cometereis injustiça nos juízos, nem na vara, nem no peso, nem na medida. (Levítico 19, 35)”

Porque o indivíduo há de compreender que pode vir à ser vítima do próprio mal que comete, é que o poder punitivo e o rigor da disciplina celestial estão inseridos não apenas em Deus, mas em toda sua obra da criação, para conduzir o ser humano, sua imagem e semelhança, à formação de sua boa consciência e caráter:

O Bem não recompensado é desestimulado, e o mal não punido incentivado.

Julgar é reconhecer aquilo que convém por direito a cada um.

Aplicar a justiça implica distribuir um Bem de modo equilibrado e proporcional.

É colher aquilo que se plantou.

Premiar o Bem, e punir o mal, faz parte do perfeito equilíbrio.

A recompensa dos fiéis é a amizade eterna com Deus, enquanto os infiéis será o esquecimento, ao serem deixados à margem de sua própria sorte que os conduzirá a ruína:

 

“Que diremos, pois? Haverá injustiça em Deus? De modo algum! (Romanos 9, 14) (Onde, então, está a injustiça) em ter Deus, para mostrar a sua ira e manifestar o seu poder, suportado com muita paciência os objetos de ira preparados para a perdição, (Romanos 9, 22)”
Por isso, é que os castiguei pelos profetas, e os matei pelas palavras de minha boca, e meu juízo resplandece como o relâmpago, […] (Oséias 6, 5) “Por isso, te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!”. (São Mateus 11, 24)”

É próprio do justo a amizade com a Justiça, assim como é próprio do injusto a inimizade.

As revoluções têm como matriz a subversão da ordem criada em favor da ideia utópica de uma fictícia igualdade, e um mundo “igualitário” cujo defeito reside no fato do verdadeiro já não se distinguir do falso; nem o certo do errado.

O sagrado não diferencia do profano e, por fim, o Bem e o mal serão equiparados, e se equivalerão.

A Justiça punitiva não conflita com o Amor, pelo contrário, com o Amor faz um par harmônico.

Igualar o fiel com o infiel é menosprezar a obediência.

Nivelar o santificado com o pervertido implicaria em desprezo à santidade.

Equiparar o devasso e o recatado e pudico implica zombar da castidade.

Equiparar o egoísta com o caridoso é ridicularizar a caridade, assim como honrar o covarde como se honraria o mártir significaria sacrifício valioso. Desprezo e menosprezo, mais que injustiças, são manifestações de desamor ao Bem que é incompatível com a perfeição Divina: “Ora, sabemos que o juízo de Deus contra aqueles que fazem tais coisas cor­res­ponde à verdade. (Romanos 2, 2)”

Assim é que o igualitarismo paritário revolucionário solidifica o mal na história humana, pois o infiel jamais buscará a caridade, o rico ganancioso jamais buscará a caridade, o pervertido jamais buscará a castidade e o profano e sujo jamais buscará a santidade, porque o caminho da maldade é sempre mais prazeroso e fácil que o caminho da Bondade.

O Bem mais precioso terá sempre o custo mais elevado.

Tão equivocado quanto os universalistas são os gnósticos modernos que defendem que na Justiça Divina não existe punição por parte de Deus, e que temos aquilo que é o resultado do que plantamos.

Isso é uma meia verdade, mas as grandes heresias são constituídas a partir de meias verdades.

A punição de Deus aos maus está em sua permição que eles experimentes o resultado maléfico do mal que eles produzem por seus atos próprios e voluntários, porque Deus, sendo o Sumo Bem, castiga os maus pela maldades que eles mesmos deram causa.

O mal não é juiz de si mesmo.

Só Deus é Juiz de todas as coisas, e afirmar que Deus não punirá a maldade, posto que a punição aos maus é uma regra do acaso, implica dizer que Deus é um juiz tolerante eé condescendente com os perversos. 

Todo juiz que tolera a perversidade por incapacidade ou fraqueza sentimental em punir os perversos, é um juiz inapto, o que é incompatível com o caráter e a onipotência Divina: “Vós sois justo, Senhor! Vossos juízos são cheios de equidade e vossa conduta é toda misericórdia, verdade e justiça. (Tobias 3, 2) Convertei-vos, pecadores, e praticai a justiça diante de Deus, na confiança que vos fará misericórdia. (Tobias 13, 8)”
“O Senhor é o juiz dos povos. Fazei-me justiça, Senhor, segundo o meu justo direito, conforme minha integridade. (Salmos 7, 9) Ponde fim à malícia dos ímpios e sustentai o direito, ó Deus de justiça, que sondais os corações e os rins.* (Salmos 7, 10)”

Por isso restou dito:

“CONSIDERA POIS, A BONDADE E A SEVERIDADE DE DEUS: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade. ” (Romanos 11, 22)

“[…] mas uma coisa faço, e é que, ESQUECENDO-ME DAS COISAS QUE ATRÁS FICARAM, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. (Felipenses 3. 13 e 14)


[1] O universalismo defendido a princípio, pelo pastor, filósofo e teólogo protestante RUDOLF BULLTMAN (1.884-1.976), ensina a salvação abrangerá todas as pessoas, sem exceção”  vez que o amor de Deus não deixará que ninguém se pera. (PECOTA in HORTON, p. 358) Também KARL BARTH (1.886-1.968), outro teólogo protestante, defendeu esse ponto de vista, embora não de maneira explícita.

[2]  Conforme o jurista romano ULPIANO (ano 228). Fazer justiça é dar a cada um aquilo que lhe é por direito, conforme também o princípio geral contido na antiguíssima Lei das XII Tábuas. (cuun suique tribuere)

[3] Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.  (São Mateus) 16. 25

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