COMO CRER SEM NUNCA TER VISTO?

1 – Se não podemos julgar verdadeiro ou falso, senão, aquilo que enxergamos pessoalmente, deveria a fé ser a certeza das coisas que vemos, sendo certo que nossa conversão seria mais fácil se as verdades divinas fossem plenamente visíveis, pois como confiar naquilo que não pode ser visto, e como pode ser válido o testemunho de quem nunca viu?

2 – No mais, Cristo é a imagem do Deus invisível1, do que podemos concluir que ele tomou um corpo humano visível por conta da dificuldade que a razão natural possui de acreditar naquilo que não pode ser visto, tocado, ouvido ou percebido pelos sentidos exteriores.

3 – Por fim, sem a percepção dos sentidos e da lógica da razão natural, o ser humano não pode ser convencido da existência de Deus, da vontade divina, e também de uma realidade que não pode ver, ouvir, tocar e com ela interagir fisicamente.

MAS EM CONTRÁRIO, restou dito ao santo Apóstolo Tomé, que se negava acreditar na ressurreição de Cristo, senão apenas quando o visse em carne e ossos, o seguinte:  – ” […] vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé. Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto! ” (São João 20. 27 e 29)

SOLUÇÃO: Não podemos ver o amor em sua matéria e em sua substância invisível. Todavia, não podemos negar que o amor existe. Quem vê o filho que cuida do pai enfermo; o pai que dá a vida pelo filho; a esposa que zela por seu esposo; o caridoso que partilha da sua comida, e o sacerdote que entrega sua vida à fé e seus pertences aos pobres, não vê esse amor, senão apenas em seus efeitos práticos. Não podemos tocar no amor, mas por meio do amor podemos tocar outras vidas. Assim também é a fé cristã, invisível em sua origem, causa e substância, mas visível em seus efeitos concretos, no que se responde as questões.

1 – O ser humano foi criado para realizar a vontade de seu Criador. Mas como ele também foi criado livre, havia necessidade dele confiar, acreditar na bondade desse Criador para assim, fazer sua vontade. Ora, Adão e Eva viam Deus, e com ele interagiam face a face. Todavia, não confiaram nele quando os orientou para que não tocassem no fruto da árvore que dava conhecimento sobre o Bem e o mal, e por isso, todos nós perdemos a visão beatífica que nos permitiria ver e interagir sensivelmente com Deus. Por isso agora, o mérito da fé é confiar ainda que não se veja, pois aquele que só confia naquilo que vê e experimenta, confia apenas em si mesmo (como Adão e Eva), e não em Deus, do que é dito que “[…] andamos pela fé, não pela vista (Hebreus 3. 6); e “Felizes aqueles que creem sem ter visto! ” (São João 20. 27 e 29)

2 – Se o mérito da fé é restaurar a confiança do ser humano em Deus, a confiança dos filhos no Pai, ainda que o Pai não possa ser visto, é certo que esse Pai também não é insensível, apático e impiedoso as limitações e fraquezas da condição humana debilitada pelo pecado, que acredita e confia mais facilmente naquilo que ela pode tocar e ver, razão porque, certos sinais ou manifestações sensíveis da Divindade, como os milagres, os sacramentos, a cruz e a própria criação2 também auxiliam nossa fé a progredir na confiança em Deus. Isto também inclui a humanidade de Cristo, que embora tivesse o papel principal de servir de sacrifício, para morrer, matando o pecado em nossa humanidade, secundariamente serviu para que pudéssemos ver, tocar e interagir com Deus por meio de sua natureza humana, já que não podemos até o momento vê-lo em sua Divindade, no que ensina a Igreja que […] a fé é a certeza que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver.3 (Hebreus 11. 1), sendo o mérito dessa fé, o fato de ter que crer para ver, e não ver para crer.

3 – No estado de inimizade com Deus no qual nos encontramos, a inteligência natural do indivíduo tem grande dificuldade em compreender aquilo que o intelecto não reconhece sem o auxílio dos sentidos exteriores. A razão natural não compreende, senão, a realidade natural, pois para compreender uma realidade extraordinária há de se ter uma luz extraordinária, no que ensina a Igreja há milênios, que a fé são os olhos da alma pelos quais enxergamos a verdade que está além do mundo físico. “Por isso, o ser humano tem necessidade de ser iluminado pela revelação de Deus, não somente sobre o que ultrapassa seu entendimento, mas também sobre as verdades religiosas e morais que não inacessíveis à razão simples, a fim de que estas, no estado atual do gênero humano, possam ser reconhecidas por todos com certeza firme, e sem mistura de erros.4


1 “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda a criação.” (Colossenses 1, 15)

2  Os céus revelam a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos. (Salmo 19. 1) Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu poder e Divindade, se tornaram visíveis à inteligência, por suas obras, (Romanos 1, 20)

3 CATECISMO. F.4.39.2 Acesso ao mistério da Igreja §770 A Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende. É unicamente “com os olhos da fé” que se pode enxergar em sua realidade visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida divina.

4  CATECISMO. R2.2 n.38.

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