O MAL É INEVITÁVEL E NECESSÁRIO?

Resposta ao Livro de Calvino. AS INSTITUTAS. Cap. V Livro II p.80ss – DA NECESSIDADE E INEVITABILIDADE DO MAL.

 

1 – Alegam os calvinistas,[1] que embora o homem não possa escolher o Bem, ele pode ser responsabilizado e condenado pelo mal que pratica mesmo sem escolha.

2 – Ensinam ainda que todo aquele que peca por necessidade, peca também por vontade.

3 – No mais, dizem que se os anjos do céu, embora só possam fazer o bem, o fazem desejando, também o homem pecador que só pode pecar, também peca desejando.[2]

4 – Por fim, narram que Adão livremente se entregou a servidão do diabo e abandonou Deus, do que se deduz que toda condenação que herdamos de sua descendência, nos vem por causa da escolha livre do nosso primeiro pai.[3]

Mas em contrário, diz a Escritura, que mesmo após o pecado, Deus dá ao pecador a escolha eficaz entre o Bem e o mal:[4]Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora ESCOLHAM a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele dará a vocês muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó”. (Deuteronômio 30. 19-20)

SOLUÇÃO: Como ensinou a Igreja, o juízo de Deus é realizado sob a baliza das nossas escolhas, que por serem livres, nos tornam responsáveis pelo que escolhemos. Ninguém é dado receber justa punição por um mal que absolutamente não pôde evitar; nem obter ganho por um bem que absolutamente não desejou, de onde vem a correção das questões acima. 

1 – As escolhas não se limitam entre fazer o bem ou o mal, mas também não fazer o mal. O Bem, quando não estiver disponível ao homem na ação ativa de realiza-lo, estará sempre na opção de não fazer o mal.[5] Ainda que só se tenha duas escolhas más, o homem é livre para não escolher nenhuma delas ou escolher dentre elas, o mal menor, que na verdade é um bem imperfeito, do que se conclui que o mal é sempre uma escolha evitável, seja na prática do bem, na recusa do mal ou na escolha do mal menor. Logo, o mal a ser punido, também surge quando deliberadamente nos negamos a fazer o Bem.[6]

2 – Nem sempre a vontade está ligada a necessidade. Ninguém se submete a cirurgia de alto risco porque deseja, mas porque precisa. Não existe pecado necessário, porque o homem não tem necessidade de pecar, mas de ser feliz,[7] sendo que o pecado surge da busca dessa felicidade da forma desordenada, o que Deus proíbe. Todo ser só necessita daquilo que é preciso para se conservar. Como alimento que é indispensável a vida temporal, é a santidade (não o pecado), indispensável a vida eterna.[8]

3 – São Bernardo, de fato, ensinou que os anjos embora só possam fazer o bem, o fazem querendo.[9] O que não explicou Calvino é que o pensamento do santo é feito dentro da realidade de que os anjos bons já escolheram ficar com Deus e não seguir o diabo, e, portanto, já foram julgados, e confirmados na beatitude eterna, como os demônios infiéis que já estão confirmados em sua pena eterna.[10] Ora, isso não se aplica ao ser humano terreno, que ainda não fora julgado, não sendo confirmado de maneira eterna e definitiva nem na santidade, nem no pecado.

4 – Somos condenados pelos pecados que praticamos ao tempo da razão, por nossos atos individuais.[11] Logo, os filhos não pagam pelo pecado pessoal dos pais.[12] 


 

[1] “E isto expliquei claramente supra, e um exemplo propus no próprio Diabo, de que se fizesse patente que aquele que peca por necessidade, peca não menos por vontade; assim como, por outro lado, nos anjos eleitos, embora a vontade lhes seja indeclinável do bem, entretanto não deixa de ser vontade, (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. V p. 80ss)

[2] “[…] o que Bernardo também magistralmente ensina: mais miseráveis somos nós por isto: que a necessidade é voluntária, (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. V p. 81)

[3] ‘Os homens, convertidos em escravos do pecado, nada poderem querer senão o mal, não provém da criação, mas da corrupção da natureza. Donde, pois, essa incapacidade que os ímpios de bom grado invocariam como pretexto, senão que, por sua livre vontade, Adão se entregou à tirania do Diabo? Daqui, pois, a corrupção de cujos laços somos mantidos atados, ou, seja, que o primeiro homem desertou de seu Criador. Se desta deserção são merecidamente tidos todos os homens por réus, não se julguem escusados pela própria necessidade, em que têm a mais translúcida causa de sua condenação. (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. VII p. 80ss)

[4] “Se, porém, não agrada a vocês servir ao Senhor, ESCOLHAM HOJE a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e a minha família servi­remos ao Senhor”. (Josué 24:15) “Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo me é permitido”, mas EU NÃO DEIXAREI QUE NADA ME DOMINE. (I Coríntios 6:12)  “Eles ESCOLHERAM SEUS CAMINHOS, e suas almas têm prazer em suas práticas detestáveis. Por isso também escolherei um duro tratamento para eles e trarei sobre eles o que eles temem. Pois eu chamei, e ninguém respondeu; falei, e ninguém deu ouvidos. Fizeram o mal diante de mim e ESCOLHERAM o que me desagrada”. (Isaías 66:2-4) “ESCOLHI o caminho da fidelidade; decidi seguir as tuas ordenanças. (Salmos 119:30-31)

[5] “Mas se essa nação, contra a qual me pronunciei, SE AFASTAR DO MAL que cometeu, arrependo-me da punição com que resolvera castigá-la. (Jeremias 18, 8)” […] Mas tolo detesta afastar-se do mal. Provérbios 19.13) “[…] AFASTAR-SE DO MAL E PRATIQUE O BEM, (I São Pedro 3. 11)

[6] Mesmo não desejando o matrimônio fiel, o divórcio é um mal menor que o adultério. Logo, a escolha do mal menor, que é um bem imperfeito, é uma realidade. “O MAL MENOR, em relação a um mal maior, está situado na categoria de bem. Pois um mal menor é preferível a um mal maior. E aquilo que é preferível sempre é um bem, e quanto o mais preferível este seja maior bem é” (Aristóteles. Ética a Nicômaco V.3). “Santo Afonso Maria de Lingório, em Tratado Teologia Moral (1.755) ensina: “Consciência perplexa é a de quem, diante de dois preceitos estabelecidos, acredita que pecará se escolher um ou outro, … caso possa suspender a ação, é obrigado a adiá-la enquanto consulta pessoas competentes. Se não puder suspendê-la, é obrigado a escolher o mal menor, evitando transgredir o direito natural mais do que o direito humano. Se não é capaz de discernir qual seja o mal menor, faça o que fizer, não peca, porque nesse caso falta a liberdade necessária para que exista pecado formal.

[7] “Esperava a felicidade e veio a desgraça, esperava a luz e vieram as trevas. (Jó 30, 26)” “Se escutarem e obedecerem, terminarão seus dias na felicidade e seus anos em delícias. (Jó 36, 11)”

[8]  “Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor. (Hebreus 12, 14)”

[9]   Sermos sobre Cantares. Homilia n. 105.

[10]  “Por onde, não lhe é imperfeição, se o anjo não tem a vontade determinada às coisas que lhe são inferiores; mas ser-lhe-ia, se não fosse inclinada às que lhe são superiores. (SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Tratado dos Anjos. Q 59 Da Vontade nos Anjos. Art. 3. Se no anjo há livre arbítrio)

[11] “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12) “

[12] O indivíduo que pecar, este morrerá! O filho não levará a culpa do pai, tampouco o pai será culpado pelo pecado do filho. (Jeremias 18. 20)

 

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