NUM ÚNICO ATO HUMANO PODE HAVER SIMULTANEAMENTE O BEM E O MAL?

1 – O Bem e o mal são elementos opostos entre si, e os opostos não convivem harmonicamente sem que um anule o outro, pois não pode haver dois senhores para um só servo1, razão porque, parece que não pode haver um ato humano que seja bom e mau ao mesmo tempo, como disse São Tiago, que “[…] de uma mesma fonte não pode jogar água doce e salgada. (Tg 3. 12)

2 – O ser humano pode até oscilar entre a bondade e a malícia, num ou outro momento, dependendo se naquele momento estará mais próximo da luz ou das trevas. Porém, nele, e nos seus atos, não podem coexistir simultaneamente o Bem e o mal.

3 – Por fim, fosse possível um ato ser bom e mau ao mesmo tempo, esse ato não poderia ser recompensado porque nele existiria o mal, nem castigado porque nele existiria o Bem, o que não se admite, vez que inexiste neutralidade nas ações humanas.2

MAS EM CONTRÁRIO, é possível apedrejar alguém por mera brincadeira, tanto quanto para lesionar ou matar, razão porque, não podemos medir, pesar e julgar essas três ações como se estivessem o mesmo nível de maldade, pois quem apedreja por brincadeira traz nele o bem de não querer machucar, nem matar; assim como quem atira a pedra para lesionar traz nele o bem de não querer matar, do que se concebe que em certos atos maus pode haver alguns elementos da bondade.

SOLUÇÃO: A prática da maldade é um delito contra Deus, sendo também um ato contra a natureza humana, posto que todo ser humano fora criado a imagem e semelhança de Deus3, e, portanto, puro, santo e bom para o fim de realizar as coisas que são puras, santas e boas. O prazer em agir mal é algo que acrescentamos depois do pecado, quando nos separamos da justiça, e perdemos a perfeição originária na qual fomos criados. Quem age mal, age contra a sua natureza, e um ser não pode, não consegue a todo tempo contrariar sua própria natureza, porque “[…] há no homem a efusão de luz eterna, num espelho sem mancha da imagem de Deus nele, porque o homem é o espelho do seu Criador.” (Sabedoria 7. 26), no que se responde as questões acima.

1 – A luta entre o Bem e o mal acontece dentro de cada um de nós, no âmago da alma, num processo que dura até o fim da nossa existência, quando então, o Bem ou a malícia haverá de prevalecer, sendo que num desses dois será selado o destino final do indivíduo, após constatar se em vida, foi ele imitador de Cristo ou seu inimigo, já que essa dualidade entre iniquidade e virtude não permanece para sempre, como disseram os santos Apóstolos: “Assim, pois, de um lado, pelo meu espírito, sou submisso à Lei de Deus; de outro lado, por minha carne, sou escravo da lei do pecado. (Romanos 7, 26)” “Sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para morte, quer da obediência para a justiça. (Romanos 5. 6) “[…] pois o homem é feito escravo daquele que o venceu. (II São Pedro 2, 19)” O mal nunca vence o Bem, senão quando nos iludidos e acreditamos que na maldade, poderemos encontrar a felicidade que tanto buscamos e desejamos. São Tiago, todavia, também ensina que “[…] de uma mesma boca pode sair benção e maldição, mas não convém que assim seja (Tg 3. 10), no que ensina a Igreja, que ele não está dizendo ser impossível um ato humano ser bom e mau, ao mesmo tempo, mas que não podemos viver nessa ambiguidade para sempre, pois as coisas criadas por Deus são sempre bem definidas, como uma água que é doce, e outra que é salobra. 

2 – Como dito, o ser humano traz em si a santidade e o pecado, e o que prevalecer ao final, determinará o juízo de Deus sobre ele. O que prevalece, remove o outro. Prevalecendo o Bem, lhe será retirada a maldade, santificando-o eternamente e de modo absoluto. Prevalecendo a maldade, será retirada a bondade, confirmando-o no mal eterno. A proximidade e afinidade com o mal ou com o Bem é que vai determinar qual desses predominará, pois quanto mais próximos da luz, mais iluminados, e quanto mais longe, mais próximo das trevas.4 Se o Bem absoluto não nos é possível no estado em que nos encontramos,5 também o mal absoluto não pode existir porque ele destruiria o ser no qual habita6, pois o mal absoluto implica ausência de qualquer Bem, e a vida nos seres é um Bem. Assim, enquanto vivemos a vida terrena, oscilamos entre o mal e o Bem sem que nenhum dos dois prevaleça de modo absoluto e com exclusividade, senão, apenas em porcentagens, sendo o santo, aquele no qual reside a bondade, em grau mais elevado e melhor, ao passo que profano é o que se deixa dominar pela maldade.7

3 – O fato de que nem todo bem merece recompensa da parte de Deus, senão apenas o Bem perfeito, levou muitos a crer e ensinar que as ações humanas, ou são totalmente boas ou totalmente más, o que os fez cair no paganismo maniqueísta8. O bem moral não é recompensado porque no fundo é apenas um mal menor, e por esta razão, o que apedreja querendo só machucar, e não matar, merece punição na proporção da lesão que o seu ato causou, embora não tivesse causado o dano maior na morte da vítima. O Bem perfeito é aquele que ofusca o mal, seja prevenindo o mal futuro ou confessando e reparando um mal já praticado, e nisso reside a santidade humana. Mereceria recompensa o Bem perfeito que dá ao indivíduo a consciência de que se não há lucro em matar, como também não há em machucar. Ora, o bem relativo ou moral tem somente esse papel, de levar o ser humano a consciência e prática do Bem perfeito, que no exemplo acima, é paz e a não violência, que deve frutificar para que consigamos realmente amar a Deus e ao próximo. O ato mal, por pior que seja, trará sempre o bem de não ser um mal maior, pois a maldade pode ser sempre pior que aquela que praticamos. Dar esmola pode ser bom e mal, simultaneamente, quando quem o faz, o faz por mera vanglória ou vaidade. Assim, o mesmo ato que abençoa o faminto, condena diante de Deus quem ofertou a comida. O ato mal com elementos de bondade, não é neutro, pois neutralidade entende-se o que não seja bom, nem mau, o que é impossível, como ensina a Escritura, […] “como és morno, nem frio, nem quente, vou vomitar-te. (Apocalipse 3, 16)” É, todavia, um ato composto de coisas más e boas.9


1  Mt 6. 24.

2 “Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. (Apocalipse 3, 16)”

3 “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. ” (Gênesis 1.26); “criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher.* (Gênesis 1, 27)” “Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza.* (Sabedoria 2, 23)”

4 “Quanto mais uma coisa se aproxima do princípio, num determinado gênero, tanto mais participa do efeito desse princípio; por isto diz Dionísio, que os anjos, mais próximos de Deus, mais, participam da bondade divina, que os homens. (Santo Tomás de AQUINO. Suma Teológica. Livro IIIa. Q 27 – DA VIDA DE CRISTO, art. 5)

5 TANQUERREY. Adolph. Teologia Mistica e Ascética, Cap. II Natureza da Vida Cristã.

6 SANTO AGOSTINHO. Confissões. Coleção “Os Pensadores”. Livro VII, cap. XII, 1983.

7“Ó fonte santa de toda santidade, conservai, pois, sempre livre de toda profanação esta casa que há pouco foi purificada”. (II Macabeus 14, 36) “Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a vida eterna. (Romanos 6, 22)”

8 Maniqueísmo é uma heresia do século II da Era Cristã, que defendia que no universo existem duas forças ou princípios que lutam entre si, dois Governos iguais em Poder que brigam pelo governo do universo: O MAL E O BEM. Para eles, o mal produz exclusivamente coisas más, e o Bem coisas exclusivamente boas. Mas o certo é que o mal não tem existência em si mesmo, mas é causado pela liberdade humana desordenada, que procura a felicidade fora da justiça e da vontade Divina. O mal é um bem imperfeito, incompleto. Dar esmola é um bem, mas pode produzir o mal quando se faz não por amor ao próximo, mas por vaidade própria, e embora seja um Bem para o que recebeu, tornou-se um mal para quem deu. Essa heresia foi condenada pela Igreja, desde quando surgiu, conforme lemos em Santo Agostinho, e proclamada condenação no III Concílio de Latrão, em 1.179.

9 Diz-se que Deus é um ser absolutamente simples, porque nele não há partes, quantidades, e nem misturas, e nada pode ser tirado, nem acrescentado. Portanto, os atos de Deus são simples, no sentido de que são atos que não podem ser afetados por nada. Já o homem é ser composto por partes, quantidades e misturas, sendo ainda influenciado pelo ambiente, pelos exemplos, podendo ser e não ser em certos momentos da vida, podendo regredir ou progredir nas virtudes e nos vícios, na perfeição ou nas imperfeições, o que notadamente afeta todos os seus atos. Vide (SÃO TOMAS DE AQUINO. SUMA TEOLÓGICA. Livro Ia. Q III. Art. 7)

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