É POSSÍVEL PERDER A FÉ?

1 — Parece que a fé cristã não pode ser perdida ou abandonada, pois fé é conhecer, e se conhecemos aquilo que nos é revelado, já não nos será possível novamente ocultá-lo.

2 — No mais, todo conhecimento provém do aprendizado, como a fé que provém do ouvir a Palavra de Deus. (Rm 10. 17) E se a compreendemos, e somos capacitados a reconhecer como verdade tudo que nos fora ensinado1, estima-se que já não nos será possível negar aquilo que aprendemos.

3 — Além disso, mesmo que a fé adentre num processo subjetivo de debilidade e enfraquecimento, tal não implica que a perderemos,2 pois o que nos salva é a fé, e não a qualidade, o fervor, a devoção ou intensidade dela, como interpretam alguns das Escrituras: “Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno. (Efésios 6. 16)

4 ­— Por fim, se presume que uma vez formada em nós a fé, ela nos confere a segurança definitiva3 de que andaremos sempre no âmbito da vontade Divina, do que poderemos afirmar a certeza de que nossa esperança de salvação será concretizada, ainda que a fé venha se definhe com o passar dos anos, pois: “[…] seguramos a esperança qual âncora de nossa alma, firme e sólida, e que penetra até além do véu, no santuário” (Hebreus 6. 19)

MAS EM CONTRÁRIO, está escrito: “CONSERVEMOS FIRME A NOSSA FÉ. (Hebreus 4. 14); “VENHO EM BREVE. CONSERVAS O QUE TENS.” (Apocalipse 3. 11); e, “POR ELE SEREIS SALVO, SE O CONSERVADRDES COMO VÔ-LO PREGUEI.” De outra forma, EM VÃO TEREIS ABRAÇADO A FÉ.” (I Coríntios 15. 2) Ora, só necessitamos conservar aquilo que corremos o risco de perder.

SOLUÇÃO: Muitos afirmam em relação a fé que uma vez adquirida jamais poderá ser perdida. Mas isso não procede, pois se para abraçar e corresponder ao amor que Deus oferece, se requer do indivíduo vontade livre, assim como, para que possamos permanecer nesse amor: “PERMANECEI EM MIM, E EU PERMANECEREI EM VÓS.” (São João 15. 4) Deus não obriga ninguém a segui-lo, nem a permanecer nele, e com ele, como disse Cristo: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele. ENTÃO JESUS PERGUNTOU AO DOZE: QUEREIS VÓS TAMBÉM RETIRAR-VOS? Respondeu-lhe Simão Pedro: — Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. Nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus!” Como ensinou Santo Agostinho, […] OS PRECEITOS DIVINOS NÃO FAVORECERIAM AO INDIVÍDUO, SE NÃO TIVESSE VONTADE LIVRE EM CUMPRI-LOS PARA MERECER A RECOMPENSA ETERNA.4  Por isso advertiu o Apóstolo, após afirmar que ele próprio ainda não havia atingido a perfeição que Deus desejava dele, no máximo possível ao pecador vivente, que embora não tenhamos alcançado essa perfeição, importa que nos conservemos no ponto no qual chegamos, para que na consciência de que vivemos para Deus e não para nós mesmos, não nos desviemos do seu reto caminho, e nem dos seus justos juízos: “NÃO PRETENDO DIZER QUE JÁ ALCANCEI ESTA META E QUE CHEGUEI À PERFEIÇÃO. NÃO. MAS EU ME EMPENHO EM CONQUISTÁ-LAS, UMA  VEZ QUE TAMBÉM EU FUI CONQUISTADO POR JESUS. CONSCIENTE DE NÃO TÊ-LA AINDA CONQUISTADO, SÓ PROCURO ISTO: PRESCINDINDO DO PASSADO E ATIRANDO-ME AO QUE RESTA PARA A FRENTE, PERSIGO O ALVO, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisso o nosso afeto. Contudo, SEJA QUAL FOR O GRAU A QUE CHEGAMOS, O IMPORTANTE É PROSSEGUIR DECIDIDAMENTE (Filipenses 3. 16), no que se responde as questões acima.”

1 — É fato que podemos negar na prática aquilo que aprendemos pelo intelecto, e nesse sentido, o conhecimento adquirido pode ser perdido ou abandonado, pois como disse o Filósofo5, “é na prática que todo conhecimento se nutre, cresce, e é levado à perfeição”. Por isso, crer não se limita ao conhecimento intelectual de DEUS, mas em colocar na dinâmica das nossas ações habituais, o conhecimento que dele alcançamos para que vivamos em obediência a sua vontade, a qual, para nós, se tornou conhecida pela fé da Igreja6, pois não é exigido do justo somente crer, mas viver conforme ao que se crê. “[…] o justo VIVERÁ PELA FÉ.7 Apenas nossos hábitos, atos e ações nos fazem persistir com firmeza no Bem: “E SE BEM FIZERES não é certo que serás aceito? MAS SE NÃO FIZERES BEM, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, e  SOBRE ELE DEVES DOMINAR.” (Gênesis 4.7) É por essa razão, que: “Enquanto subsiste a PROMESSA de entrar no seu descanso, tenhamos cuidado em que ninguém de nós CORRA O RISCO DE SER EXCLUÍDO. (Hebreus 4, 1)

2 — Perseverar no conhecimento de Deus é realizar a vontade Divina continuamente, buscando a constância desse dom em Cristo, como ensinou Agostinho: “[…] o ímpio que se justifica, a graça deve acompanhá-lo para que nela se apoie para não cair. (AGOSTINHO. Santo. O Dom da Perseverança. Cap. II, p. 17) Por isso, aos meros ouvintes coube essa exortação: “AQUELES QUE A RECEBEM EM SOLO PEDREGOSO SÃO OS OUVINTES DA PALAVRA DE DEUS, QUE A ACOLHEM COM ALEGRIA; MAS NÃO TEM RAIZ, PORQUE CREEM ATÉ CERTO TEMPO, E NA HONRA DA PROVAÇÃO A ABANDONAM.” (São Lucas 8, 13); “SEDE CUMPRIDORES DA PALAVRA, E NÃO APENAS OUVINTES; isto equivaleria a vos enganardes a vós mesmos […], pois aquele que procura meditar com atenção a lei perfeita da liberdade E NELA PERSEVERA, NÃO COMO OUVINTE QUE FACILMENTE SE ESQUECE, MAS COMO CUMPRIDOR FIEL DO PRECEITO, este será feliz no seu proceder.8 (São Tiago 1, 22 e 25)”

3 — O que pode progredir ao máximo também pode regredir até a extinção, como o que renasce pela fé, pode novamente se degenerar, e morrer pelo pecado, razão porque, para que a fé não se combalide, e se aniquile, há de ser cuidada e nutrida com virtudes sem as quais pereceria. A fé que salva deve ser íntegra, completa, dotada das virtudes que a fortalecem, e lhe conduzem ao progresso, e do progresso à perfeição: CONSERVANDO A FÉ E A BOA CONSCIÊNCIA, A QUAL ALGUNS, REJEITANDO, FIZERAM NAUFRÁGIO DA FÉ.” (I Timóteo 1, 19) Por isso, “[…] ESFORÇAI-VOS QUANTO POSSÍVEL POR UNIR À VOSSA FÉ A VIRTUDE, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, À PIEDADE O AMOR FRATERNO E AO AMOR FRATERNO A CARIDADE. SE ESSAS VIRTUDES SE ACHAREM EM VÓS ABUNDANTEMENTE, ELAS NÃO NOS DEIXARÃO INATIVOS, NEM INFRUTUOSOS NO CONHECIMENTO DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. PORQUE QUEM NÃO TIVER ESSAS COISAS É MÍOPE, CEGO: esqueceu-se da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. PROCEDENDO DESSE MODO NÃO TROPEÇARÁS JAMAIS. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (I São Pedro 1. 1-5) Só um escudo hígido e forte poderá proteger o soldado, razão porque a fé, como nosso escudo, há de ser vigorosa, robusta e resistente.

4 — Depende da vontade aquilo que está sob o alcance da vontade, e de Deus aquilo que nossa vontade sozinha não consegue alcançar. Só Deus nos capacita crer numa realidade que está além dos sentidos e da razão natural, a qual transcende ao tempo finito. Nessa situação, o ser humano depende exclusivamente de Deus para crer. Todavia, a fé gerada nos nascidos a imagem e semelhança da Divindade é potencial, em formação, e como ensinou Agostinho, é pelo conhecimento da única verdade que a fé que nos foi gerada gratuitamente nutre-se, defende-se e ser fortifica. (AGOSTINHO. Santo. Cap. XVIII p. 39. A graça e a liberdade) Ora, formar-se na fé, buscando e adquirindo a compreensão exata da doutrina sagrada não incumbe a Deus, mas ao ser humano auxiliado por Deus, pelo desejo livre de mover-se ao encontro da verdade redentora. Assim, a fé que nos é infusa enquanto capacidade de crer, tornar-se efetivamente no ato de crer, quando somos expostos aquilo que realmente devemos crer, e assentimos a todas as regras dessa fé, aplicando-as em nossas vidas. Contudo, aquele que por desídia ou recusa voluntária não se nutrir das virtudes necessárias a permanecer na fé, esta não crescerá, e, portanto, não se fortificará, e tudo que não é nutrido se enfraquece até morrer, e quando isso ocorre, perdemos o escudo, a muralha que nos cerca no reto caminho, e não nos deixa desviar para atalhos nos quais nos percamos, caindo em perdição até mesmo aqueles que, um dia, conheceram e professaram a verdadeira fé.


1 Ensinada por quem possui autoridade de conservar, ensinar e transmitir a Doutrina verdadeira de Cristo, no caso, a Igreja que ele edificou sobre os Santos Apóstolos (Efésios 2. 19-22); cujas portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 26-22-28); que é coluna e sustentáculo da Verdade (I Tm 3, 15), e que foi levada para testemunhar a fé em Roma (Atos 23. 11), e de Roma para todo mundo (Rm 1,1-8)

2 Teoria defendida pelos antigos Anabatistas (Confissão de Fé Batista, de 1689, Cap. 27 Da Perseverança)

3 Teoria defendida pelos antigos Anabatistas (Confissão de Fé Batista, de 1689, Cap. 28. Sobre a Segurança da Salvação)

4 AGOSTINHO. Santo. O Dom da Perseverança. Cap. II, p. 17.

5 Aristóteles defende que só a prática, fixa na memória a experiência do conhecimento adquirido pelo intelecto, tornando-o concreto e efetivamente realizável em seus efeitos. (DE ANIMA  I,14)

6 Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. (São Mateus 18, 17)”

7 ANDANDO NOS MEUS ESTATUTOS, e GUARDANDO OS MEUS JUÍZO, e PROCEDENDO segundo a verdade, O JUSTO CERTAMENTE VIVERÁ, diz o Senhor DEUS. (Ezequiel 18. 9)”

8 Para viver, crescer e perseverar até o fim na fé, devemos alimentá-la com a Palavra de Deus; devemos implorar ao Senhor que a aumente; ela deve “agir pela caridade” (Gl 5,6), ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja. (Catecismo. P.44.2 Perseverança na fé)

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