O MAL É EVITÁVEL?

1 – Muitos defendem[1] que não temos escolha, a não ser, praticar o mal, e que estamos sujeitos ao castigo apesar de não nos estar disponível a opção pela bondade.

2 – Dizem que o ser humano peca não apenas por vontade, mas também por necessidade.[2]

3 – E se os anjos do céu, só podendo fazer o bem, o fazem desejando, assim também é o indivíduo que embora só possa fazer o mal, o faz sempre querendo.[3]

4 – Por fim, defendem que a culpa pelo mal que realizamos obrigados e sem escolha, decorre da liberdade em que Adão se corrompeu, razão porque, somos condenados por causa da escolha livre, mas não nossa.[4]

 

MAS EM CONTRÁRIO:

Disse Jesus à pecadora:

[…] VAI, E NÃO TORNES MAIS A PECAR.” (Jo 8,.11)

 

SOLUÇÃO:

Deus sempre nos dará a possibilidade de escolha eficaz entre o bem e o mal:

“HOJE INVOCO OS CÉUS E A TERRA COMO TESTEMUNHAS CONTRA  VOCÊS, DE QUE COLOQUEI DIANTE DE VOCÊS A VIDA E A MORTE; A BENÇÃO E A MALDIÇÃO. ESCOLHAM A VIDA, PARA QUE VOCÊS E SEUS FILHOS VIVAM, E PARA QUE AMEM AO SENHOR, O SEU DEUS, OUÇAM A SUA VOZ E SE APEGUEM FIRMEMENTE A ELE.” (Deuteronômio 30. 19-20)

O juízo de Deus se realiza sob a baliza de nossas escolhas, as quais justamente por serem livres, nos tornam responsáveis pelo que escolhemos:

“FOI PARA A LIBERDADE QUE CRISTO NOS LIBERTOU. PORTANTO, PERMANEÇAM FIRMES E NÃO SE DEIXEM SUBMETER NOVAMENTE A UM JUGO DE ESCRAVIDÃO.” (Gálatas 5:1)

“IRMÃOS, VOCÊS FORAM CHAMADOS PARA A LIBERDADE. MAS NÃO USEM A LIBERDADE PRA DAR OCASIÃO À VONTADE DA CARNE; AO CONTRÁRIO, SIRVAM UNS AOS OUTROS MEDIANTE O AMOR.” (Gálatas 5:13)

A ninguém é dado receber justa punição por um mal que absolutamente não pôde evitar; nem obter ganho por um bem que absolutamente não desejou e ao qual renunciou, de onde se responde as questões:

 

1 – As escolhas não se limitam entre fazer o bem ou o mal, mas também, não fazer o mal.

O bem, quando não nos estiver disponível na ação ativa, estará sempre na opção de não praticarmos o mal.

“[…] AFASTAR-SE DO MAL E PRATIQUE O BEM, (I São Pedro 3. 11)

TUDO ME É PERMITIDO, MAS EU NÃO DEIXAREI QUE NADA ME DOMINE. (I Coríntios 6:12) “

“SE, PORÉM, NÃO AGRADA A VOCÊS SERVIR AO SENHOR, ESCOLHAM HOJE A QUEM IRÃO SERVIR, SE AOS DEUSES QUE OS SEUS ANTEPASSADOS SERVIRAM ALÉM DO EUFRATES, OU AOS DEUSES DOS AMORREUS, EM CUJA TERRA VOCES ESTÃO VIVENDO. MAS EU E A MINHA FAMÍLIA SERVIREMOS AO SENHOR.” (Josué 24.15) 

Ainda que só se tenha duas escolhas más, ao indivíduo é dada liberdade para não escolher nenhuma delas; ou dentre elas, o mal menor, que na verdade é um bem imperfeito:

“O MAL MENOR, em relação a um mal maior, está situado na categoria de bem. Pois um mal menor é preferível a um mal maior. E aquilo que é preferível sempre é um bem, e quanto o mais preferível este seja maior bem é” (Aristóteles. Ética a Nicômaco V.3)

“Consciência perplexa é a de quem, diante de dois preceitos estabelecidos, acredita que pecará se escolher um ou outro, … caso possa suspender a ação, é obrigado a adiá-la enquanto consulta pessoas competentes. Se não puder suspendê-la, é obrigado a escolher o mal menor, evitando transgredir o direito natural mais do que o direito humano. Se não é capaz de discernir qual seja o mal menor, faça o que fizer, não peca, porque nesse caso falta a liberdade necessária para que exista pecado formal.” “Santo Afonso Maria de Lingório, em Tratado Teologia Moral.” (1.755)

Conclui-se que o mal é sempre uma escolha evitável, seja na prática do bem, na recusa do mal ou escolha do mal menor.

“[…] MAS O TOLO DETESTA AFASTAR-SE DO MAL.” (Provérbios 19.13)

 

2 – Nem sempre a vontade está ligada a necessidade.

Ninguém se submete a cirurgia de alto risco porque deseja, mas porque precisa.

Não existe pecado necessário, porque o ser humano não tem necessidade de delinquir e se autodestruir, mas de ser feliz, sendo que o mal e a transgressão surgem da busca por esse felicidade por meios corrompidos.

Todo ser só necessita daquilo que é preciso para se conservar.

Como alimento que é indispensável a vida natural e temporal, o progresso espiritual na bondade é indispensável a vida eterna.

Assim, a essência do ato pecaminoso, a qual legitima a justiça sobre eles, é a vontade livre na qual fora gerado e se realizou:

“CATECISMO §1853:  A raiz do pecado está no coração do homem, em sua livre vontade, segundo o ensinamento do Senhor: “Com efeito, é do coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas as coisas que tomam o homem impuro” (Mt 15,19-20). No coração reside também a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado fere.”

 

3 – Os anjos em comunhão com Deus, embora só possam fazer o bem, de fato o fazem querendo.

Mas isso acontece porque os anjos bons já escolheram ficar com Deus e não seguir o diabo, e, portanto, já foram julgados e confirmados na beatitude eterna, como os demônios, infiéis a Deus já estão confirmados em suas penas.[5] Ora, isso não se aplica ao ser humano terreno, que ainda não fora julgado, não tendo suas escolhas confirmadas de maneira eternas e definitivas, nem na santidade, nem no pecado.

O arbítrio entre o bem e o mal está disponível ao ser humano até o fim de sua vida:

“CATECISMO §311 Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial. Podem, no entanto, desviar-se. E, de fato, pecaram. Foi assim que o mal moral entrou no mundo, incomensuravelmente mais grave do que o mal físico. Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal moral. Todavia, permite-o, respeitando a liberdade de sua criatura;”

4 – Somos condenados pelo que praticamos ao tempo da razão, por nossos atos individuais.

Da transgressão de Adão, herdamos apenas a culpa universal, ou seja, a condição de nascidos desprovidos da justiça e da perfeição, que resulta no pecado original.

Entretanto, o pecado original é uma condição, não um ato.

Mas o pecado individual que nos condena, exige a prática de um ato contra o amor de Deus.

Logo, ninguém pode ser responsabilizado por ato alheio, nem receber os efeitos de uma ação livre de outrem:

“EIS QUE VENHO EM BREVE, E A MINHA RECOMPENSA ESTÁ COMINGO, PARA DAR A CADA UM CONFORME AS SUAS OBRAS.” (Apocalipse 22, 12)

“O INDIVÍDUO QUE PECAR, ESTE MORRERÁ! O FILHO NÃO LEVARÁ A CULPA DO PAI, E TAMPOUCO O PAI SERÁ CULPADO PELO PECADO DO FILHO.” (Jeremias 18. 20)

Logo, sendo a liberdade uma virtude pessoal, os filhos não pagam pelos pecados dos pais, nem qualquer pessoa poderá ser responsabilizada pelo ato livre de terceiro, com o qual não contribuiu.

 

EXISTE LIVRE ARBÍTRIO?

 


 

[1] “Os homens, convertidos em escravos do pecado, nada poderem querer senão o mal, não provém da criação, mas da corrupção da natureza. (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. VII p. 80ss)”

[2] “E isto expliquei claramente que aquele que peca por necessidade, peca não menos por vontade; assim como, por outro lado, nos anjos eleitos, embora a vontade lhes seja indeclinável do bem, entretanto não deixa de ser vontade, (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. V p. 80ss – DA NECESSIDADE E INEVITABILIDADE DO MAL.

[3] “[…] a necessidade é voluntária, (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. V p. 81)

[4]Adão se entregou à tirania do Diabo? Daqui, pois, a corrupção de cujos laços somos mantidos atados, ou, seja, que o primeiro homem desertou de seu Criador. Se desta deserção são merecidamente tidos todos os homens por réus, não se julguem escusados pela própria necessidade, em que têm a mais translúcida causa de sua condenação. (CALVINO. Institutas. Livro II. Cap. VII p. 80ss

[5]Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles.” (Apocalipse 12. 7, 8)

                                                                                              

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