A SABEDORIA DO MENINO DEUS.

1 — Parece que Cristo, a Pessoa Divina do Filho, ao tornar-se homem e vir ao mundo pelo ventre da virgem, não trazia em si o atributo da sabedoria universal sobre todas as coisas, pois precisou aprender1 do Pai.

2 — No mais, crescia em graça e sabedoria2 aos olhos de Deus e dos homens. Ora, quem cresce em sabedoria não é completamente sábio, mas alguém em processo de aprendizado, progredindo no conhecimento e na ciência.

3 — Além disso, a humanidade assumida, embora sem pecado3, é semelhante a nossa, e por isso está presa às limitações da natureza humana, razão porque, não comportava receber em si a plenitude da sabedoria universal e celestial.4

4 — Soma-se, que sendo o anjo superior ao ser humano em inteligência, a Divindade ao se humanizar tornou-se inferior ao anjo em conhecimento, sendo que nem nos anjos, superiores a nós em intelecto, há onisciência.

5 — Por fim, Cristo se declara inferior ao Pai,5 do que se conclui ser ele inferior em sabedoria, posto que ignora até mesmo o dia do juízo final.6

Mas em contrário, se diz que no Verbo, Deus se tornou homem sem deixar de ser Deus,7 conservando toda sua Divindade na humanidade assumida, não podendo haver Divindade sem onisciência, nem onisciência que não esteja na Divindade, pois ser Deus é ser sábio,8 já que Deus é a plena sabedoria sobre todas as coisas.

SOLUÇÃO> Cristo, desde a concepção, é Filho de Deus pelo Espírito Santo, e Filho do homem pela humanidade tomada da virgem9: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Atos 13.33) Sendo Filho de Deus, é também Deus pleno pela natureza Divina herdada do Pai, tanto que após nascer, os anjos o adoraram, como o adoraram os reis do oriente que o visitaram logo após nascido. Ora, ser adorado é próprio de quem é plenamente Deus: “E novamente, ao introduzir o seu Primogênito na terra, diz: Todos os anjos de Deus o adorem (Sl 96,7).” (Hebreus 1, 6) “Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. (Colossenses 2, 9)” “Entrando na casa, viram o menino, com Maria sua mãe.10 Prostrando-se, o adoraram.” (São Mateus 2. 11 e 12) Ser plenamente Deus, significa que dos atributos exclusivos da Divindade, tais como perfeição, força, imortalidade, santidade, onipotência, graça e justiça dentre outros, nenhum deles lhe faltou desde o ventre da virgem, sendo forçoso reconhecer que não lhe faltou a onisciência ou sabedoria suprema sobre todas as coisas. Cristo fora concebido no Espírito da Sabedoria, como disse o profeta: Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. (Isaías 11. 1 e 2)” “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. (São Mateus 1, 20)” Sabedoria ou Verbo é seu Nome, pois Ele é a sabedoria tornada Pessoa, como ensinou o apóstolo: “[…] Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu, pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. (I Coríntios 2, 8)” E sendo Deus em igualdade com o Pai, nada lhe faltou do Pai enquanto Filho.11 Se só há onisciência na Divindade, em Cristo a onisciência não é algo diverso do seu ser, pois o Filho é Deus igual ao Pai, 12 de onde vem as respostas aqueles argumentos:

1 – O Pai ensinou ao Filho de modo diferente que um sábio ensina a um ignorante. Cristo não precisou ser ensinado porque, como os imperfeitos, nascera desprovido de sabedoria ou com sabedoria incompleta, mas porque sua onisciência fora deliberadamente ocultada do mundo13 para ser revelada apenas no momento oportuno, segundo o propósito do Pai. Deus então, o incita, o suscita, o provoca para que a onisciência nele pudesse reagir e se manifestar, conforme a conveniência do momento. Um mestre pode ensinar ao ignorante para que ele adquira sabedoria, tanto quanto ensinar ao sábio o momento adequado para utilizar a sabedoria que já se encontra nele. Por isso, Deus não ensinou Jesus nem pelas Escrituras, nem pelas letras da lei ou por meio da Tradição auricular,14 mas lhe ensinou sobre o momento em que convinha despertar o conhecimento que o Filho já trazia dentro de si por meio do Espírito de Sabedoria que o Pai lhe infundiu desde sua geração. Conhecimento este não acrescentado, mas despertado, porque nele já existia, restando oculto para se revelar em momento oportuno: “[…] sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” (Colossenses 2, 3)

2 – As letras das Escrituras só podem ser interpretadas tendo a perfeição humana e a Divindade de Cristo como chaves para compreensão correta de seus significados. Jesus “crescia aos olhos dos homens e de Deus” significa que a medida que Deus despertava a onisciência já existente no Filho, conforme atingia a idade da razão e do juízo, sua sabedoria se tornava mais visível e testemunhável, tanto aos que o viam na terra, quanto a Deus que o via do céu.  Em nenhum momento se afirmou que a sabedoria crescia na essência de sua pessoa, e tal interpretação leva a errônea ideia que Cristo não era Deus perfeito, porque lhe faltava a sabedoria sobre todas as coisas. Acrescenta-se, que se houve um tempo na vida de Cristo que Ele era ignorante, não sabendo distinguir o Bem do mal, equivale dizer que poderia neste estado tornar-se pecador, pois o pecado é fruto da ignorância, assim como a ignorância é fruto do pecado (Efésios 4, 18), e em Cristo nunca houve pecado, do que se conclui nunca ter havido ignorância.

3 — A sabedoria que manifestou Cristo não é ato exterior, de fora para dentro, mas de dentro para fora, imanente ao próprio sujeito Divino. Nenhum ser humano poderia ter a onisciência sobre todas as coisas, se a sabedoria Divina já não estivesse nele. Por esta razão, nenhum ser humano é onisciente, pois a sabedoria infinita e perfeita não habita num ser imperfeito e finito. Não fosse onisciente desde a concepção, quando recebeu o Espírito de Sabedoria (Is. 11. 1 e 2), jamais poderia alcançá-la porque sua capacidade de compreender seria imperfeita, e Ele seria Deus incompleto e homem imperfeito, colocando-se na condição de um de nós15 em termos de conhecimento deficiente, e sequer poderia saber que era Deus imortal, muito menos que ressuscitaria.

4 – Cristo foi inferior aos anjos, senão apenas temporariamente16 porque era necessário para o sacrifício na cruz que ele suportasse as dores e a morte como homem para ressuscitar como Deus. Dos que andaram sobre a terra só ele é digno de ser adorado e reconhecido como Deus em qualquer tempo, pois só a Ele, Deus deu o seu Nome e sua natureza Divina.

5 – Entre o Filho e o Pai há igualdade.17 Ocorre que era necessário que o Filho viesse a terra como servo, e não como senhor, e tal como servo, convinha se colocar em situação de servidão e obediência ao Pai.18 Mas isso temporariamente, até o sacrifício da cruz, pois ao ascender ao céu, sentou-se à direita do Pai em igualdade de condições porque Cristo é a imagem perfeita do Pai, e imagem perfeita nada lhe falta, sendo o Filho, a personificação da Lei e da Justiça, revestido de toda glória e poder igual ao Pai,  ciente do dia e hora que voltará para julgar a terra, ciência que já estava nele, mas só fora revelada após sua ascensão, onde toda sua sabedoria inata deixou de estar oculta.19


*Resumo das deliberações dos Concílios Cristológicos de Nicéia (ano 325); Éfeso (ano 431); Calcedônia ( ano 451);

1“Jesus então lhes disse: “Quando tiverdes levantado o Fi­lho do Homem, então conhecereis quem sou e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou.” (São João 8, 28)”

2“E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens. (São Lucas 2, 52)

3 Romanos 8,3.

4“Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos!”(ROMANOS 11, 33)

7“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” (São João 1. 1 e 14)

8“Em Deus residem a sabedoria e o poder. Ele possui o conselho e a inteligência. (Jó 12, 13)”

9Jesus Cristo, Nosso senhor, descendente de davi quanto a carne (romanos 1, 3) Ouve ò casa de Davi: “Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus?” “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel (Deus Conos­co).”

10Cristo é adorado logo após o seu nascimento, o que deixa claro que Maria deu a luz aquele que fora adorado, e ser adorado é próprio de quem é DEUS, confirmando à Virgem, o título de Teótokos (Mãe de Deus)

11“Quem envolveu as águas em seu manto? Quem determinou as extremidades da terra? Qual é o seu nome, qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes?” “O Verbo de Deus nos céus é fonte de sabedoria, seus caminhos são os mandamentos eternos. (Eclesiástico 1, 5)”

12 “Os judeus tentavam ainda matá-lo. Ele não apenas estava violando o sábado, mas também estava chamando Deus de seu próprio Pai, tornando-se igual a Deus. (São João 10.33). “Não te apedrejamos por uma boa obra, mas por blasfêmias, porque você, que é homem, se declara Deus. (São João 14. 28)”

13“Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. (I Coríntios 2, 7)

14“Os judeus se admiravam e diziam: “Este homem não fez estudos. Donde lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?”. (São João 7, 15)”

15 “ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai. (São Mateus 11. 27)”

16“Por pouco tempo o colocaste inferior aos anjos; de glória e de honra o coroaste, (Hebreus 2, 7)”

17“Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa dessas obras.” (São João 14. 7 e 11) “Eu e o pai somos um. (São João 10. 30)

18“Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes,” (Felipenses 2. 6 -9)

19“Esplendor da glória (de Deus) e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder da sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus, (Hebreus 1, 3)” “Esse Jesus Cristo, tendo subido ao céu, está assentado à direita de Deus, depois de ter recebido a submissão dos anjos, dos principados e das potestades. (I São Pedro 3, 22)”

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