O PÃO NOSSO DE CADA MESA.

 

1 – Parece que para a fé, de nada vale o pão que sacia a fome do corpo, pois o importante é o Pão que sacie a fome de vida eterna da alma, razão porque, não devemos nos preocupar com a partilha do alimento comum, mas somente com a partilha do alimento espiritual.

2 – No mais, supõe-se que não devemos nos preocupar com o mundo atual, posto que todo cristão deve buscar a justiça, a paz e a felicidade apenas no mundo vindouro.

3 – Por fim, Cristo poderia nos dar a comunhão do seu sangue e sua carne em quaisquer outros elementos, não necessariamente no pão e vinho, razão porque, nenhum significado existe nas espécies do pão e do vinho por ele escolhidas.

MAS EM CONTRÁRIO, Jesus, que sempre andava junto aos pobres, multiplicou o pão e os peixes para alimentar a multidão faminta que lhe acompanhava.1

SOLUÇÃO: Partilhar o pão das nossas mesas nos ensina a superar o egoísmo e amar verdadeiramente, sem distinção de cor, sexo, raça, partido político, religião, nacionalidade ou quaisquer outras diferenças. Nos ensina amar o santo e amar o pecador. Amamos os santos de Deus porque somos pecadores; e amamos o pecador para que nos tornemos santos, e para que aquele possa ver Cristo em nós, e ser santificado no nosso amor. O que divide sua comida se torna pai daquele com quem dividiu, e a confiança dos filhos no pai é o que lhes faz suplicar: “Dai-nos hoje, o pão nosso de cada dia.” Quem nega o pão da terra ao irmão, não se faz digno do Pão do céu que é dado gratuitamente pelo Pai, no que se responde as questões acima.

1 – O Pão da Vida eterna não exclui a caridade para com o pão do estômago, na partilha daquilo que nos excede, e daquilo que não nos excede, mas que renunciamos parcialmente para que cada um tenha um pouco. Ensinou São Francisco de Assis2, que se negarmos a oferta do pão do estômago ao irmão, mais longe ficaremos do Pão do céu. As obras de misericórdia nas quais socorremos nosso próximo não se restringem as necessidades espirituais, pois também incluem as necessidades corporais,3 como ensinou São Tiago: “Ide em paz, aqueceu-vos e saciai-vos, mas se não lhes der o necessário para manutenção, que proveito haverá nisso?” (Tg 2. 15 e 16) Até a Cristo foi negada a comida e a bebida. Ele teve sede, e lhe foi negado o direito a água, embora ele não nos tenha negado a Água da Vida Celestial que verteu do lado de sua costela ao ser ferido pela lança do soldado, quando então instituiu o Batismo.4 Fome e sede foram alguns dos instrumentos com os quais os algozes de Jesus o torturaram para aumentar a sua dor e o seu sofrimento. Ele disse: Tenho sede! E eles lhes deram vinagre. O amor de Deus é indivisível, e, portanto, ele não divide a alma do corpo, razão porque, a caridade é para o corpo e para a alma, como ensinou São Clemente, o romano, em sua Epístola aos Coríntios, no ano 81 (Cap. 44. p. 39).

2 – A fé cristã que nega a caridade ao próximo não passa de mero discurso ideológico, vazio e inútil. Jesus deu comida a quem tinha fome; bebida a quem tinha sede; vestiu a quem sucumbia no frio, e disse: “[…] se fizerdes isso aos mais humildes, é a mim que o fazes.5” Quando fazemos aos pobres, fazemos a Cristo. E a recíproca é verdadeira, pois se nada fizermos para os pobres, nada faremos por Cristo. E se Cristo está em cada faminto, é certo que ele está morrendo novamente em cada pessoa que perece na fome e na sede. É a Cristo que se tem negado direito ao pão. É Cristo que tem morrido. É a Cristo que se tem matado, e é a Cristo que se tem negado o direito à saúde e a todos os bens necessários à vivência digna. Se pelo Pão do céu se dá a comunhão com Cristo, pela qual somos a carne e o sangue de Cristo, e por meio dele participamos inseparavelmente de uma única humanidade, é certo que o desespero e a dor da humanidade que tem fome, deveria ser o desespero e a dor da humanidade que come. Se de um lado vemos pessoas famintas reduzidas quase a esqueletos, de outro vemos a especulação financeira jogar no lixo toneladas de comidas apenas para encarecer o preço de um produto no mercado.6 Como ensina o Papa Francisco, a fome mundial é o vergonhoso testemunho da ganância humana, e por isso, a justiça, paz, felicidade e a vida eterna são sementes que plantamos na terra para que possamos colher dos seus frutos no céu.

3 – Cristo poderia ter deixado o sinal sobrenatural de seu Corpo em qualquer coisa, mas escolheu o pão e o vinho. Isso tem um significado sociológico, conforme a Doutrina Social da Igreja. Ora, é pelo ajuntamento dos grãos do trigo que se faz o pão, e do ajuntamento dos frutos da videira que se faz o vinho.7 Por uma só uva não se tem o vinho, assim também como por um só grão de trigo não se tem o pão, do que se conclui que a ninguém é dado dizer-se detentor de mérito pelo alimento que come, pois esse alimento é estabelecido numa comunhão através das mãos que plantam, das que colhem, das mãos que nos dão o empregado até as mãos que levam o alimento a nossa mesa diariamente. Por isso, […] não negue esmola aos pobres, nem deles desvie os olhos. Não desprezes o que tem fome, não irrites o pobre em sua indigência. Não aflijas o coração do infeliz, não recuses tua esmola àquele que está na miséria; não rejeites o pedido do aflito, não desvies o rosto do pobre. Que tua mão não seja aberta para receber, e fechada para dar.” (Eclesiástico 4.1, 2, 3, 4 e 36)

 


1 O milagre da multiplicação de pães e peixes. (Mt 15.32-39)

2 São Francisco de Assis, Regra não bulada dos Frades Menores, 16, 3.6: Fonti francescane, 42-43.

3 Catecismo § 2447.

4 Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo.” (I Jo 5. 6); “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” (Rm 6. 3)

5 Mt 25.25.

6 Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Santo Padre Papa Francisco, sobre a Fraternidade e a Amizade universal.

7 O trigo e a uva se destroem, morrem para se tornar alimento, para se tornar vida, além do que são constituídos mediante união de vários grãos de trigo, e vários frutos da vinha, prefigurando a Comunhão no Corpo de Cristo; A cepa da videira plantada e o trigo caindo na terra, decompondo-se ressurgem-se multiplicados pelo Espírito de Deus; recebendo a palavra se tornam eucaristia, isto é o corpo e sangue de Cristo[…]; como o apóstolo diz: ‘nós somos membros de seu Corpo, de sua carne e de seus ossos’ (5,30) (Adversus Haereses, Liv. V, item 523, anos 130 à 220 DC)

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial