A SALVAÇÃO É UM ATO DA CARIDADE DIVINA?

1 – Poderíamos pensar que a caridade não faz parte do plano de Deus para salvação da humanidade, vez que toda caridade é meritória, ao passo que a salvação é totalmente gratuita1 razão porque, não poderia a obra da remissão dos pecados conter mérito humano ou Divino.

2 – No mais, mesmo o sacrifício de Cristo sendo obra da caridade Divina, o ser humano apenas o receberia passivamente, enquanto beneficiário, o que por si só, já seria suficiente para salvá-lo, dispensando tornar-se um agente ativo dessa caridade. 2

MAS EM CONTRÁRIO, a caridade é o Amor Benfeitor que consiste em colocar nossas vidas à disposição daqueles a quem amamos e queremos Bem, cuja maior e mais sublime expressão é dar a própria vida para que aqueles a quem amamos vivam, não sofram, e nem pereçam, como Jesus fez por nós.

SOLUÇÃO: Só é possível amar se somos capazes de partilhar e renunciar em favor daqueles a quem amamos, razão porque se ensina que a humanidade fora criada e salva por uma obra de caridade Divina. Deus nos criou para partilhar conosco toda beleza, felicidade, bondade, eternidade e perfeição que antes só haviam nele, e depois nos salvou para nos devolver a perfeição, vida eterna e felicidades que havíamos perdido voluntariamente, pela vilania da nossa transgressão. Para isso, ele se fez servo, mesmo sendo Senhor, renunciando a sua própria vida ainda que temporariamente, para que pudéssemos ter esperança de viver eternamente.3 Dentre os graus da caridade, a renúncia supera a partilha, pois aquele que partilha ainda se mantém nos bens que partilhou. Todavia, aquele que renúncia se esvazia totalmente, para que aquele que não possui, possa ser contemplado e preenchido do Bem que anteriormente não dispunha, do que se conclui que o amor de Deus se mostrou mais no ato da salvação que no da criação4 Por isso, a caridade estará sempre ligada a salvação, posto que, do sacrifício de Jesus pode dizer o mais perfeito e grandioso gesto de caridade já realizado, no que se responde as questões.

1 – Só Jesus tem mérito próprio para morrer e ressuscitar por nós, e conosco5 razão pela qual, para chegar a todos nós, gratuitamente, a salvação precedeu aos méritos de Cristo, sendo que a participação nos seus santos méritos nos é ofertada sem cobrança de preço, 6 e por isso, se diz que a salvação é meritória, da parte de Cristo, mas gratuita, da parte do ser humano, conforme leciona o Santo Magistério: “PELOS SEUS MÉRITOS, CRISTO RECONQUISTOU O NOSSO DIREITO À GLÓRIA, PARA NOS SANTIFICARMOS, E MERECERMOS O CÉU. JESUS CRISTO É A ÚNICA CAUSA MERITÓRIA DA NOSSA SALVAÇÃO.7

2 – As almas que aspiram a perfeição e a bondade não se contentam apenas em crer e confiar para receber sem partilhar. A caridade é sempre o dom de distribuir o Bem que se recebeu com aqueles que dele não dispõem, mas que também dele necessitam. Jesus, por seu sacrifício, recebeu por direito e mérito a vida eterna em sua humanidade, para compartilhá-la conosco que permanecemos com ele em comunhão. Por isso, só a caridade nos faz verdadeiramente imitadores de Cristo, e ser imitador de Deus é apenas uma nova forma de realizar o preceito do amor, pelo qual devemos amar a Deus e ao próximo.8  Se gratuitamente recebemos, gratuitamente devemos partilhar, pois reter e guardar o Bem apenas em nós, e para nós, incorreremos no pecado do egoísmo, o qual torna o que assim age, indigno de possuir o Bem que recebera. A Caridade é o Amor generoso de Deus agindo em nós, e esse Amor é grande demais para se limitar apenas num indivíduo. Só a caridade santifica o afeto, sendo o Amor maior, o qual deverá prevalecer sobre todos os outros amores,9 e quem não amou santamente, não pôde crer firmemente porque não pôde conhecer a Deus.10 Se Deus nos amou pela caridade, também assim devemos amar uns aos outros.11


1 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. ” (Efésios 2.8) Mas não a fé sozinha: “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por esse meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à cor­rupção que a concupiscência gerou no mundo. Por esses motivos, esforçai-vos quanto possível por UNIR À VOSSA FÉ a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno A CARIDADE.” (I São Pedro 1. 9) Porque como ensinou São Paulo: “A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da Lei. (Romanos 13, 10)” 

2 Alguns tomam erroneamente o que disse o Apóstolo, crendo que basta confessar verbalmente a fé: “se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10. 9). Todavia, o apóstolo quando não reproduz, senão, aquilo que já havia sido dito pelo profeta: “Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim ” (Isaías 29. 13

3 “E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8)”

4 Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho Unigênito para que todo aqueles que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna. (São João 3.16) “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou. (São João 13, 1)”

5 Seu zelo lhe foi imputado como mérito, de geração em geração, para sempre. (Salmos 105, 31)” 

6 “Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate. (Salmos 48, 8)” “Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá (Salmos 48, 9)”[…] por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Colossenses 1, 20)”

7 Compêndio de Teologia Mística e Ascética, TANQUEREY. Adolpho, Cap. II – Da parte de Deus na vida cristã. p. 61 e 81)

8 “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. (Efésios 5, 1)”

9 Do Amor de Deus. SALES. São Francisco. Livro X. par. VI, p. 10.

10 “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. (I São João 4, 8)

11 I S João 4, 11.

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