JESUS USA DA CARIDADE PARA NOS SALVAR?

1 – Poderíamos pensar que a caridade não faz parte do plano de Deus para salvação da humanidade, vez que toda caridade é meritória, ao passo que a salvação é totalmente gratuita,[1] razão porque, não poderia a obra da remissão dos pecados conter mérito humano ou Divino.

2 – No mais, ainda que o sacrifício de Cristo fosse obra da caridade Divina, o ser humano apenas o receberia passivamente enquanto beneficiário, o que por si só, já seria suficiente para salvá-lo, dispensando tornar um agente ativo dessa caridade.[2]

Mas em contrário, a caridade é o Amor Benfeitor que consiste em colocar nossas vidas à disposição daqueles a quem queremos Bem, cuja maior e mais sublime expressão é dar a própria vida para que aqueles a quem amamos vivam, não sofram, e nem pereçam, como fez por nós Cristo.

SOLUÇÃO: Só é possível amar se somos capazes de partilhar e renunciar em favor daqueles a quem amamos, razão porque se ensina que a humanidade fora criada, e salva, por obra da caridade Divina. Deus nos criou para partilhar conosco toda beleza, felicidade, bondade, eternidade e perfeição que antes só haviam nele, e nos salvou para nos devolver a perfeição, vida eterna e felicidade que havíamos perdido voluntariamente pela vilania do pecado, fazendo-se servo mesmo sendo Senhor, renunciando a sua própria vida, ainda que temporariamente, para que pudéssemos ter a esperança de viver eternamente.[3] Dentre os graus da caridade, a renúncia supera a partilha, pois aquele que partilha ainda se mantém nos bens que partilhou. Todavia, o que renuncia se esvazia totalmente, para que aquele que não possui possa ser contemplado e preenchido do Bem que anteriormente não dispunha, do que se conclui que Deus mais nos amou no ato da salvação, que no ato da criação,[4] e que a caridade está para sempre ligada à salvação, posto que, do sacrifício de Jesus se pôde dizer o mais perfeito e grandioso ato de caridade já realizado, no que se responde as questões acima.

1 – Só Jesus tem mérito próprio para morrer e ressuscitar conosco,[5] razão pela qual, a salvação que para nós chegou gratuitamente, precedeu a Cristo meritoriamente, sendo que a participação nos seus santos méritos nos é oferecida sem cobrança de preço pessoal,[6] e por isso, se diz que é meritória da parte de Cristo, mas gratuita da parte do ser humano, conforme leciona a Santa Igreja: “Pelos seus méritos, Cristo reconquistou o nosso direito a glória, para nos santificarmos, e merecermos o céu. Jesus é a causa meritória da nossa salvação.[7]

2 – As almas que aspiram a perfeição e a bondade não se contentam apenas em crer, confiar para receber sem partilhar. A caridade é sempre o dom de distribuir o Bem que se recebeu, com aqueles que dele também necessitam. Jesus, por seu sacrifício, recebeu por direito e mérito a vida eterna em sua humanidade para compartilhá-la com a nossa humanidade, naqueles que com ele, permanecem em comunhão. Por isso, só a caridade nos faz verdadeiramente imitadores de Cristo, e ser imitador de Deus é apenas uma nova forma de dizer do preceito do amor, pelo qual devemos amar a Deus e ao próximo.[8] Se gratuitamente recebemos, gratuitamente devemos partilhar, pois reter e guardar o Bem apenas em nós, e para nós, incorreremos no pecado do egoísmo, o qual torna o que assim age indigno de possuir o Bem que recebera. Caridade é o amor generoso de Deus agindo em nós, e esse amor é grande demais para se limitar apenas num indivíduo. Só a caridade santifica o afeto, sendo amor maior, o qual deverá prevalecer sobre todos os outros amores,[9] e quem não amou santamente, não pôde crer firmemente, porque não pôde conhecer a Deus.[10] Se Deus nos amou pela caridade, também assim devemos amar uns aos outros.[11]


 

[1] “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. ” (Efésios 2.8) Mas não a fé sozinha: “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por esse meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à cor­rupção que a concupiscência gerou no mundo. Por esses motivos, esforçai-vos quanto possível por UNIR À VOSSA FÉ a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno A CARIDADE.” (I São Pedro 1. 9) Porque como ensinou São Paulo: “A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da Lei. (Romanos 13, 10)” 

[2] Alguns tomam erroneamente o que disse o Apóstolo, crendo que basta confessar verbalmente a fé: “se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10. 9). Todavia, o apóstolo quando não reproduz, senão, aquilo que já havia sido dito pelo profeta: “Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim ” (Isaías 29. 13

[3] “E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2, 8)”

[4] “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho Unigênito para que todo aqueles que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna. (São João 3.16) “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou. (São João 13, 1)”

[5] “Seu zelo lhe foi imputado como mérito, de geração em geração, para sempre. (Salmos 105, 31)” 

[6] “Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate. (Salmos 48, 8)” “Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá (Salmos 48, 9)”
“[…] por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Colossenses 1, 20)”

[7] (Compêndio de Teologia Mística e Ascética, TANQUEREY. Adolpho, Cap. II – Da parte de Deus na vida cristã. p. 61 e 81)

[8] “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. (Efésios 5, 1)”

[9]  “Do Amor de Deus. SALES. São Francisco. Livro X. par. VI, p. 10.

[10] “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. (I São João 4, 8)

[11]  I S João 4, 11.

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