CORPO DE CRISTO OU PÃO E VINHO?

1 – Parece que na Ceia, permanecem sobre o altar o pão e o vinho, pois como ensinou o Apóstolo: “[…] aquele que comer o pão e beber o cálice indignamente será culpado do corpo e do sangue do Senhor.” (I Coríntios 11, 25) pelo que alguns supõem1 serem quatro os elementos desse sacramento2: o pão, que se une a carne, e o vinho, que se une ao sangue de Cristo.

2 – No mais, temos que confiar e dar crédito aquilo que nossos olhos testemunham, e eles testemunham pão e vinho sobre o altar.

3 – Além disso, podemos entender que nos é permitido fazer o ofertório a Deus por meio de comida, já que na Ceia não haveria adoração3, e não havendo adoração, não adoraríamos pão e vinho, no que a permanência desses elementos em nada contaminaria o ato espiritual.

4 – Por fim, se comungamos no pão unido a carne, e no vinho unido ao sangue, presume-se que comungamos também com comida, não apenas com o sangue e a carne de Cristo.

MAS EM CONTRÁRIO, “[…] O REINO DE DEUS NÃO É DE COMIDA, NEM DE BEBIDA.” (Romanos 14. 17)

SOLUÇÃO: A finalidade do sacramento do Altar, Santa Ceia ou Eucaristia como é chamado, é unir em comunhão a nossa humanidade pecadora, mortal e corrompida, com a humanidade imortal, incorrupta e santíssima do Cristo, para que unidos na humanidade do Verbo Encarnado, possamos morrer nele, para ressuscitar com ele, pois o Cordeiro de Deus morreu e ressuscitou em sua humanidade para nos salvar”4, porquanto “[…] assim, EMBORA MUITOS, FORMAMOS UM SÓ CORPO EM CRISTO.(Romanos 12. 5). Por isso ainda disse Jesus: “QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE TEM A VIDA ETERNA; E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA.” (São João 6. 54) Cristo, tomando o pão em suas mãos e o bendizendo para repartir com os Apóstolos disse: “ISTO É MEU CORPO.” E levantando o cálice de vinho disse: “ISTO É MEU SANGUE”. Ora, ele não disse: “ESSE PÃO SIMBOLIZA O MEU CORPO, e ESSE VINHO REPRESENTA MEU SANGUE.” Tampouco disse: “MINHA CARNE UNIDA AO PÃO, E MEU SANGUE UNIDO AO VINHO.” Ele disse exatamente: “ QUEM COME A MINHA CARNE, QUEM BEBE O MEU SANGUE. ” (São João 6. 54). Se pela Providência Divina, o que comemos é carne, então já não comemos pão; e se o que bebemos é o sangue, então já não bebemos vinho, como profetizaram as Escrituras: “Ajuntai-vos em toda parte para o MEU SACRIFÍCIO, QUE EU OFERECI por vós, um sacrifício grande NOS MONTES DE ISRAEL. COMEI CARNE E BEBEI SANGUE. ” (Ezequiel 39,17), no que se responde as questões acima.

1 – Se comer o pão e beber o cálice indignamente nos fará culpado da carne (não do pão) e do sangue (não do vinho) é porque tratamos mal o corpo e o sangue de Cristo. Isso prova que o pão e o vinho já não estão no altar, senão apenas em aparência. Aquele que está em pecado grave e comunga não profana pão e vinho, mas a carne e o sangue do sacrificado disposto sobre o altar. Por isso, é dito que aquele que come e bebe sem discernir5 que ali está o Corpo de Cristo, come e bebe a própria condenação. (I Coríntios 11, 27-29) Quando Cristo disse “EU SOU O PÃO VIVO QUE DESCEU DO CÉU”, ele estava se referindo apenas e tão somente a sua carne, e não a sua carne unida ao pão. E ele continua ao dizer que “O PÃO QUE HEI DE DAR É A MINHA CARNE. ” (São João 6. 51). Se o pão é sua carne, então já não é pão. Cristo ainda disse que por obra do Espírito Divino (São João 6. 63) o que comemos é verdadeiramente sua carne; e o que bebemos é verdadeiramente seu sangue: “[…] POIS MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE COMIDA, E MEU SANGUE VERDADEIRAMENTE BEBIDA. (São João 6.66) “EM VERDADE VOS DIGO SE NÃO COMERDES A CARNE DO FILHO DO HOMEM, E NÃO BEBERDES O SEU SANGUE, NÃO TEREIS VIDA EM VÓS. ” (São João 6. 51-513). Assim, após a bendição sacerdotal, só haverá carne e sangue no altar, e não pão e vinho, pois em relação a comida comum, para efeito da nossa salvação, “[…] comendo nada ganhamos e não comendo nada perdemos. ” (I Coríntios 8. 8) Por conta disso, “comer o pão e beber o vinho” não deve ser interpretado de outra maneira, senão, como Cristo ensinou sua Igreja, ou seja, comer da sua carne e beber do seu sangue verdadeiramente e exclusivamente. Logo, não são quatro os elementos do altar (pão, vinho, carne e sangue), mas como ensina o Santo Ofício da Igreja, apenas dois, quais sejam, a DIVINDADE e a HUMANIDADE de Cristo, humanidade esta, que se encontra na carne unida ao sangue.

2 – Quando a fé se torna refém dos sentidos não se consegue crer, senão naquilo que se vê e que se toca. Isso também confunde a razão, pois os sentidos só captam os acidentes que são visíveis, e não as substâncias das coisas que são invisíveis. Quando olhamos o céu espacial, vemos a cor azul enquanto um acidente visual, porque o espaço não tem cor. Mas a substância do espaço que é o vácuo não vemos, porque é invisível. Mas ela está lá, sob a aparência de um azul. Igualmente o mar, pois quando olhamos o verde de suas águas, não vemos senão um acidente visual, pois o verde-azul do mar não está na substância da água que é incolor, e, portanto, transparente.6 Assim, através das espécies visíveis do pão e vinho que vemos e recebemos, honramos as realidades invisíveis da carne e do sangue, pois se a natureza é capaz de causar acidentes visuais, dirá Deus. E se ele pode alterar nossa visão, pode também alterar nosso paladar. Percebemos pelos sentidos apenas aquilo que é próprio dos sentidos. Mas convém que as coisas da fé se mostrem invisíveis para mérito da própria fé. Os judeus viram Cristo à sua frente, e não puderam crer ser ele Deus porque não viam outra coisa, a não ser carne humana: “SE ÉS FILHO DE DEUS, DESCE DA CRUZ.” (São Mateus 27. 40). Cristo lhes disse textualmente para comerem de sua carne e tomarem do sangue. Isso foi difícil e duro demais para que os fariseus pudessem acreditar: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: “COMO PODE ESTE HOMEM NOS DAR DE COMER A SUA CARNE? (São João 6, 52)” Como os fariseus tinham dificuldade em crer na Divindade de Cristo porque viam apenas humanidade, muitos hoje, tem dificuldade em crer na carne e sangue de Cristo porque veem apenas pão e vinho. Todavia, “FELIZ AQUELE QUE NÃO VIU, E CREU, disse Cristo a Tomé. (São João 20. 14). E por isso ainda, […] PARECIA-VOS QUE EU COMIA E BEBIA CONVOSCO, MAS O MEU ALIMENTO É UM MANJAR INVISÍVEIS, E MINHA BEBIDA NÃO PODE SER VISTA PELOS HOMENS. (Tobias 12. 19), e nisso temos então, a verdade revelada da TRANSUBSTANCIAÇÃO.

3 – Toda oferta de vida que se realiza à Divindade para remissão dos pecados é ato de adoração ou “latria.” Na antiga adoração mosaica, o sacrifício de vida se fazia no derramamento do sangue do cordeiro animal, figura simbólica de Jesus Cristo, como fez Abel, que “[…] ofereceu dos PRIMOGÊNITOS do seu rebanho; e o SENHOR OLHOU COM AGRADO PARA ABEL E SUA OFERTA.” (Gênesis 4. 4) Já a adoração cristã, se realiza não simbolicamente, mas em verdade e em espírito7, exclusivamente no sacrifício de Cristo, que por ser eterno, ainda nos está disponível. Adorar é sanar a nossa humanidade adoecida, unindo-a à humanidade santíssima de Cristo, para assim, as ofertarmos juntas a Deus, em comunhão para remissão dos pecados e ressurreição para vida eterna. Por não ser lícito adorar pão e vinho, é que após a consagração da Eucaristia, o pão e o vinho já não podem se fazer presentes8. Adoração é entrega de vida, não de comida ou qualquer outra coisa, como se faz nos cultos pagãos. Por isso, a adoração de Abel se distinguiu de Caim: “OFERECEU CAIM, OS FRUTOS DA TERRA EM OBLAÇÃO AO SENHOR; mas o Senhor NÃO OLHOU PARA SUA OFERTA, NEM PARA OS SEUS DONS.” (Gênesis 4. 3) No ato de adorar se deve observar ao preceito da fé que diz: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a OFERTARDES VOSSOS CORPOS EM SACRIFÍCIO VIVO, SANTO E AGRADÁVEL A DEUS: ESSE É O VOSSO CULTO RACIONAL.” (Romanos 12.1); “O CÁLICE de benção, que benzemos, NÃO É A COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E O PÃO QUE PARTIMOS NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM AS VÍTIMAS?” (I Coríntios 10.16, 17 e 18). Não se oferta a Deus outra coisa que não seja na vida do Cordeiro, razão porque, não pode haver comida comum unida ao Corpo de Cristo,9 pois o que é oferecido na mesa dos apetites, jamais poderá ser oferecido na Mesa do Senhor que é o Altar: “JÁ NÃO FARÃO AO SENHOR LIBAÇÕES DE VINHO, nem oferecerão sacrifícios em sua honra. SEU PÃO SERÁ COMO UM PÃO DE LUTO: todos os que dele comerem se contaminarão. “Não te alegres, Israel! NÃO EXULTES COMO OS PAGÃOS! ESSA REFEIÇÃO É PARA SEUS APETITES E NÃO PARA SER APRESENTADA NA CASA DO SENHOR.” (Oséias 9, 1 e 4)”

4 – União perfeita é aquela que é plena e equilibrada naquilo que une, nada faltando, nada excedendo. Não temos comunhão com comida, mas com o Corpo de Cristo, o Verbo encarnado. Sendo o ser humano corpo, alma e divindade na imagem de Deus que há nele, também Cristo é Corpo, Alma e Divindade, dada a natureza Divina inseparavelmente unida a sua natureza humana. Nisso vemos a afinidade entre os que estão unidos. Neste sacramento, Cristo se une ao ser humano, e o ser humano se une a Cristo, e nenhum deles está unido a comida que apenas serve para saciar apetites, no que o santo Apóstolo exorta que aquele que tiver fome, que coma em casa: “Porventura não tendes casa onde comer e beber?” (I Coríntios 11, 6) Permanecendo pão e vinho, haveria acréscimos ilícitos que contaminariam e perverteria a união perfeita da humanidade redentora com a humanidade redimida, o que retiraria a harmonia, a beleza e a exatidão desta comunhão, no que ensina a Igreja: “A MESA DO SENHOR ESTÁ MANCHADA; O QUE NELA SE OFERECE É ALIMENTO COMUM.” (Malaquias 1. 12 e 13)


1 Lutero defendia a teoria da união sacramental, na qual, pão permanece pão, unido a carne de Cristo, e o vinho permanece vinho, unido ao sangue de Cristo. Para ele, o Corpo de Cristo é dado “em, com e sob” o pão e vinho. (Catecismo Menor de Lutero VI,2; e Catecismo Maior V,8).

2 Sacramentos são sinais da humanidade de Cristo em nós, por meio da graça sobrenatural de Deus, que nos isenta do pecado, e nos redime da dívida da transgressão a Lei Divina, com a água e o sangue, que verteram do lado de Cristo, na cruz, respectivamente, Batismo e Eucaristia. ”Exprime as realidades invisíveis da salvação, escondidas sob a matéria visível.S.6 SACRAMENTOS. S.6.1 Definição significação e fins dos sacramentos §774 Catecismo da Igreja Católica.

3 Fórmula da Concórdia e Declaração Comum. VII.36-38, Documento da Fé Luterana.

4 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” I São Pedro 2:24.

5 A palavra discernir ou compreender, no texto originário do grego neste referido versículo bíblico, significa ( diakrínō ), literalmente ‘separar completamente ou totalmente’ (separar –  krinō , ‘julgar, compreender, distinguir’ da raiz kri , que significa ‘separação’).(https://biblehub.com/greek/1252.htmOu seja, separar completamente o Corpo de Cristo de toda e qualquer outra coisa, no que se deixa claro que não existe união do pão com a carne e do vinho com o sangue.

6 AQUINO. SANTO TOMÁS: Suma Teológica. Q 77 Art. 1º – ‹ Questão 77: Dos acidentes remanescentes neste sacramento

7 No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em Verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. (Jo 4. 23) Adoração no Espírito, na Divindade, e em verdade que significa aquilo que está na realidade material, ou seja, a humanidade de Cristo, indivisivelmente unida à sua Divindade, pois Cristo é a Verdade, e Cristo é  Espírito.

8 Cân. 6. Se alguém disser que não se deve adorar com culto de latria também externo o Unigênito Filho de Deus no santo sacramento da Eucaristia; e que por isso também não se deve venerar com festividade particular, nem levar solenemente em procissão, segundo o louvável rito e costume da Igreja universal; ou que não se deve expor publicamente ao povo para ser adorado, e que seus adoradores são idólatras — seja excomungado [cfr. Art. n° 878] – Concilio de Trento.

9 Concílio de Trento (1546-15): Art. 884. Cânon. II.  Se alguém disser que no sacrossanto sacramento da Eucaristia fica a substância do pão e do vinho com o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; e negar aquela admirável e singular conversão de toda a substância de pão no corpo, e de toda a substância do vinho no sangue, ficando apenas as espécies de pão e de vinho, que a Igreja com suma propriedade chama de transubstanciação — seja excomungado [cfr. n° 877].

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