CEGO, SURDO E MUDO? SERÁ QUE DEUS SE OMITE DIANTE DAS TRAGÉDIAS?

1 – Afirmam alguns, que Deus não governa tudo,[1] pois se assim fosse, onde estaria Ele quando dos campos de concentração nazistas e nos demais genocídios e massacres da história, nos quais vidas de crianças e adultos inocentes foram ceifadas por causa da perversidade humana?

2 – Além disso, por nos amar, Deus celebra nossa liberdade, e por não ter ciúmes da liberdade é que Ele coloca o destino da história do mundo em nossas mãos.

3 – No mais, se Deus é soberano, por que permite o mal no mundo?

4 – Se Cristo, Filho Divino de Deus, reclamou porque o pai lhe abandonara na cruz,[2] por que não nos abandonaria também à nossa própria sorte?

5 – Por fim, é necessário que Deus abra mão de sua soberania para não ser responsabilizado pelo mal que há no mundo.

Mas em contrário, Deus é soberano e regente de todas as coisas, como disse o salmista: “Dizei às nações que o Senhor é rei. E a terra não vacila, porque ele a sustém. Governa os povos com justiça. (Salmos 95, 10)”

SOLUÇÃO: Um governante pode agir na ação ou no silêncio. Só quem tem poder, e é soberano no uso desse poder, não tendo acima de si autoridade maior, pode impedir ou permitir que coisas aconteçam, segundo o que lhe convém. Seja na ação ou no silêncio, Deus sempre manifesta seu poder, glória e bondade à humanidade. O silêncio de Deus não equivale a abandono. Todavia, Ele não age motivado pela impaciência humana, pois incumbe só a Ele definir o momento exato de sua atuação, não sendo o ser humano quem determinará a hora e a forma da ação Divina no mundo. Quando viajavam de navio, e sobreveio forte tempestade que afundaria a nau, os apóstolos foram buscar Jesus para socorrê-los, e o encontraram dormindo, e assim continuou até o momento que ordenou que cessassem os ventos, salvando a todos da embarcação.[3] Logo, até quando descansa, tem Ele o domínio total sobre a situação, e age no momento certo, de onde vem respostas aos questionamentos.

1 – Como ensina a Igreja,[4] os campos de concentração e a cruz de Cristo nos colocam diante de dois grandes mistérios: O ÓDIO e O AMOR. Esses, são frutos de um terceiro mistério: A LIBERDADE humana. Amar e odiar são atos livres, vez que ninguém pode amar ou odiar por obrigação, e quem sustenta nossa liberdade é Deus, pois esta, é dom Divino. Deus estava em Auschwitz na glória e na justiça. Na glória, pois todo inocente que morre pelas mãos dos pecadores é um memorial de Cristo entre nós, e ser imagem de Cristo nesse mundo é a maior dádiva que podemos receber. Eles foram batizados em seu próprio sangue,[5] e ainda que não soubessem, ou não professassem a fé cristã, se tornaram cristãos, filhos de Deus, salvos na ignorância invencível, e mereceram o Paraíso por causa de Cristo que estava neles em figura, assim como esteve nos primogênitos  de pouca idade e recém-nascidos, mortos por Herodes por causa da perseguição à Jesus, pois morreram a morte de Cristo, e em nome de Cristo, razão porque foram feitos a imagem do Filho Divino[6] porque Cristo haveria de ser testemunhado ao mundo também por meio deles. Deus ainda esteve em Auschwitz enquanto justiça, pois se somos livres, Ele não impede que usemos nossa liberdade, mas se podemos escolher o amor, seremos responsabilizados pelos atos de ódio que elegemos praticar. Mas a justiça Divina vem no tempo certo, que não é o tempo da impaciência humana. Por isso, bem-aventurado os que sofrem injustiças, porque serão recompensados;[7] e maldito o injusto se não se arrepender, porque para ele haverá o fogo eterno no dia do grande juízo.

2 – Deus celebra a liberdade, porque antes celebra o amor, e o amor nasce da liberdade porque ninguém pode amar coagido. Assim, a liberdade não é um fim em si mesma, mas meio de legitimar e autenticar nosso amor à Deus, pois se amar é escolha, para escolher, devemos ser livres. Só assim a liberdade é um Bem. Deus não deu a liberdade para que nela, tornássemos vítimas de nossas próprias imperfeições, e através dela celebrássemos o mal, o que se daria, caso o Criador nos abandonasse à própria sorte, deixando o destino do mundo exclusivamente em nossas mãos. A liberdade não existe por si mesma, senão porque Deus a permite, do que se conclui que o homem só é livre porque Deus quer, mostrando que a própria liberdade está subordinada a soberania Divina. Se Deus não fosse soberano, Ele não reinaria, e se não reina, não é rei, o que contrariaria toda a revelação da fé.

3 – Deus permite que os efeitos do mal que o homem pratica permaneçam no mundo, não porque não possa ou não queira eliminá-los, mas porque, não poderíamos adquirir (pela graça Divina), a consciência de reprovar o mal, se o mal que causamos não nos fosse experimentável. Só na repulsa do mal encontramos a valorização do Bem e dos atos de bondade. No homem decaído, o mal é uma realidade justa, pois é justo o homem sofra o mal que ele deu causa. Mas Deus em sua bondade, o permite tirar do mal a consciência de que o mal é reprovável e o Bem necessário, para que então, livremente, o indivíduo se mova do campo da maldade para o âmbito da bondade.

4 – Às vezes é necessário abandonar o Filho poderoso e forte para evitar que os filhos fracos se percam. Se a humanidade pecou, a humanidade daria satisfação e reparação desse pecado. Por isso, Cristo haveria de padecer na cruz como homem, não como Deus, para que a salvação dos filhos do Pai fosse realizada e assegurada. Mas esse abandono foi por pouco tempo, pois após subir aos céus, sentou-se à direita do Pai, todo poderoso, pleno de honra e glória, de onde haverá de julgar vivos e mortos, como ensina nosso Credo.

5 – Somos responsáveis por aquilo que damos causa. Deus não é causa do pecado humano, pois se assim fosse, o homem teria tornado Deus pecador, e não Deus dado ao homem o perdão dos pecados. O pecado nasce do mau uso da liberdade, que é um Bem se a tomamos, para nos tornarmos, livremente, aquilo que Deus deseja de nós. E Ele não nos deseja praticando o mal. O fato de permitir os efeitos do pecado no mundo é para tirar de nós, o prazer de realizar coisas más, prazer este, que está na natureza do próprio pecado que se deleita com a obscenidade e a corrupção. Deus quer que enxerguemos por detrás das coisas ruins, o Bem que Ele deseja realizar em nós, e isso é para aqueles que realmente crêem.

 


[1]  Teísmo Aberto é uma teoria protestante, criada no século XX, por Clark Pinnock, que defende que Deus, na relação com o homem, renuncia a sua soberania em favor da liberdade humana. Sua onisciência só acontece a partir das escolhas humanas, implicando que o futuro da história humana não está totalmente definido. Se Deus não sabe, ele não pode intervir, e após saber, ele não intervém porque respeita a liberdade humana de modo absoluto. É uma teoria reacionária, que se opõe ao radicalismo de outra teoria reacionária chamada calvinismo, que ensina que na relação com o indivíduo, a soberania de Deus anula o livre arbítrio. Pinnock ensinava: “A ideia da responsabilidade moral exige que acreditemos que as ações não são determinadas, nem interna nem externamente. Uma importante implicação desta forte definição de livre-arbítrio é que a realidade permanece, em certa extensão, aberta, e não fechada. Isto significa que uma novidade genuína pode aparecer na história, que não pode ser prevista por ninguém, nem mesmo por Deus. (…) Tal conceito implica em que o futuro realmente está em aberto, e não disponível à exaustiva presciência nem mesmo da parte de Deus. Fica bem claro que a doutrina bíblica do livre-arbítrio humano exige de nós que reconsideremos a perspectiva convencional da onisciência de Deus.” Pinnock. “Deus Limita Seu Conhecimento”, citado por David Basinger e Randall Basinger, na obra Predestinação e livre-arbítrio, p. 182-183.

[2] Mt 27.46

[3] “De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a ele e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, nós morreremos!” E Jesus perguntou: Por que este medo, gente de pouca fé? Então, levantando-se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: “Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?”(São Mateus 8. 24-27)

[4] Discurso do Santo Papa Bento XVI à Polônia, em 2.006.

[5] “Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm? Respondi-lhe: “Meu Senhor, tu o sabes”. E ele me disse: “Esses são os sobreviventes (para vida eterna) da grande tribulação; LAVARAM as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Apocalipse 7. 13-14)

[6]  “Herodes, vendo-se iludido pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu termo, de dois anos para baixo, conforme o tempo que tinha com precisão indagado dos magos. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se um clamor em Ramá, Choro e grande lamento; Era Raquel chorando a seus filhos, E não querendo ser consolada, porque eles já não existem. (São Mateus 2. 16-17)”

[7] “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados sereis quando vos vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (São Mateus 5. 3-12)

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