NEM TUDO ESTÁ NA LETRA.

1 – Muitos defendem que só as Escrituras, ditas Antigo e Novo Testamento, contém as verdades da fé cristã reveladas por Cristo, pois só o que está escrito é válido.[1]

2 –  Defendem ainda que só a letra das Escrituras bastaria para que o indivíduo pudesse conhecer de maneira infalível todas as realidades necessárias à sua salvação, sendo desnecessárias quaisquer outras fontes, porque “[…] toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. (II Timóteo 3, 16)”

3 – Dizem que jamais poderíamos atestar a veracidade, segurança e autenticidade das informações que não estejam registradas por escrito, pois somente a letra é a chancela de toda autoridade Divina.

4 – Por fim, aduzem que não seria dado ir além das Escrituras, como teria dito o Apóstolo (I Coríntios 4. 6), do que concluem que somente a palavra escrita seja a única que revelaria a verdade e a autoridade de Deus.

MAS EM CONTRÁRIO, Jesus, que nada escreveu, tudo ensinou, e de diversas maneiras ensinou, e institui a sua autoridade e os seus mandamentos por seus próprios lábios, antes que a respeito dele uma única letra se registrasse.

SOLUÇÃO: As ações e as palavras da boca do Cristo eram eficazes por si só para produzir vida eterna aqueles que cressem em seus atos, e acreditassem nas promessas que dele ouviam: […] agora vejo que és homem de Deus, e que a palavra de Deus está verdadeiramente em teus LÁBIOS. ” (I Reis 17, 25) “Diante das multidões, Jesus subiu a montanha. Sentou-se e os seus discípulos com ele. Então, ABRIU A BOCA e lhes ENSINAVA. (São Mateus 5, 1 e 2) “Quem OUVE a minha PALAVRA, e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre em condenação, ” (São João 5. 24). O Cristianismo não começou com a Bíblia, mas com uma Igreja, quando Cristo reuniu os doze Apóstolos, e os comunicou a revelação, concedendo-lhes autoridade e sacerdócio, sendo essa Igreja, que dava seu testemunho em Jerusalém, fora conduzida por Deus para testemunhar em Roma (Atos 23. 11), e de Roma, levar a fé genuína e uniforme a todos os cantos da terra, como profetizou o Apóstolo (Rm 1. 1-8). As Sagradas Escrituras dão testemunho de algo formado muito antes delas que é a Igreja de Cristo, Católica, Apostólica e Romana, e de algo muito maior que as próprias Escrituras, que consiste na sabedoria e autoridade eterna de Deus, personificadas naquele não é a letra, mas Verbo, o próprio Deus tornado homem que nasceu, viveu, andou, morreu e ressuscitou entre nós, o qual é a única base, centro e cedro de todo Poder, verdade e autoridade Divina que sustenta toda fé, no que se responde as questões acima.

1- Afirmar que só a palavra escrita pode validar o testemunho Divino, é dizer que Deus estava condicionado a tinta e papel para poder agir e se revelar aos homens, e que o exercício de sua autoridade e a descoberta das verdades da fé estariam condicionadas à letra. Porventura, as ações, mandamentos e os ensinos de Cristo, antes de testemunhados por escrito, não continham autoridade, eficácia e as verdades sobre as quais se assenta a revelação Divina à humanidade? Antes da invenção dos livros, Adão e Eva já haviam recebido da boca do próprio Deus um mandamento: “DOU-LHES ESTE PRECEITO. Podemos comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do Bem e do mal. (Gênesis 2. 15-17) Ora, se apenas o memorial ortográfico validasse a autoridade de Deus, então em Adão e Eva, antes da primeira letra das Escrituras ser grafada, não poderia haver obediência, verdade, mandamento, nem lei ou qualquer outra manifestação válida de Deus. A revelação, embora também esteja nas Escrituras, todavia é anterior a própria escrita, e sua validade e autoridade não dependem da chancela da letra, porque é […] da BOCA do Senhor procedem prudência e ciência. (Provérbios 2.6); “A verdade SAI DA MINHA BOCA, (Isaías 45, 23) Podemos denotar que na Antiga Aliança, dada a pouca instrução e inexistência de livros impressos, a fonte mais próxima da pregação era a Santa Tradição dos Profetas, a qual continuou pela Santa Tradição Apostólica da Igreja: […] O SENHOR FALOU PELA BOCA DOS SEUS SERVOS, OS PROFETAS. (II Reis 21. 10) “Moisés disse ao Senhor: “Ah! Senhor! Eu não tenho o dom da palavra; nunca o tive, nem mesmo depois que falastes ao vosso servo; tenho a boca e a língua pesadas”. O Senhor disse-lhe: “QUEM DEU UMA BOCA AO HOMEM? Quem o faz mudo ou surdo, o faz ver ou o faz cego? Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, EU ESTAREI CONTIGO QUANDO FALARES, e te ENSINAREI o que terás de DIZER. (Êxodo 4. 10, 11 e 12) Por isso, “[….] o que temos OUVIDO, o que temos visto […] DAMOS TESTEMUNHOS E VOS ANUNCIAMOS A VIDA ETERNA. (I João 1, 1-2), e “[…] Apesar de ter mais coisas que vos escrever, NÃO O QUIS FAZER COM PAPEL E TINTA, mas espero estar entre vós e CONVERSAR DE VIVA VOZ,  para que vossa alegria seja perfeita. (II São João 1. 13)

2 – Quando se diz que as Escrituras são suficientes, obviamente não se está excluído a leitura, pois o que adianta a letra sem a leitura? E quando se diz da leitura, não está se excluindo a interpretação, pois de que adianta a escrita e a leitura sem interpretação? Portanto, a suficiência das Escrituras não significa apenas o que está escrito, mas o que está escrito, lido e interpretado. Todavia, se a letra é infalível, a leitura e a interpretação também haverão de ser, razão porque sobre as Escrituras não cabe qualquer leitura, nem qualquer interpretação, mas apenas leitura válida e a interpretação  infalível da Igreja, que é a […] “COLUNA E SUSTENTÁCULO DA VERDADE. (I Timóteo 3, 15), Igreja esta firmada nos Apóstolos, e por isso é apostólica; que guarda as chaves de Pedro, que revelam os segredos entre o céu e a terra; a qual deu seu testemunho de fé em Jerusalém, e depois foi mandada para testemunhar em Roma, e de Roma para todos os cantos da terra, e por isso é romana e católica.

3 – A autoridade invisível das Escrituras provém de Deus. Todavia, Deus dá testemunho visível dessa autoridade por meio da Igreja, através da Tradição e do Magistério, instrumentalizados nos Concílio Católicos, os quais selecionaram os livros sagrados, assim como rejeitaram os livros gnósticos, heréticos e apócrifos, e só depois proclamou os livros selecionados como escrituração infalível em matéria de fé por estar de acordo com a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério, pois como ensinava Santo Agostinho: “Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica. (CIC, 119)” A Igreja não apenas conservou os escritos bíblicos, mas também a sua correta leitura e infalível interpretação. Muitos livros ditos sagrados se auto-intitulam palavra de Deus, como o Alcorão no Islã e o Mahabharat no hinduísmo. Todavia, o que os diferencia das Escrituras, que também se proclama, e é verdadeiramente palavra de Deus escrita, reside na autoridade da Igreja que confirmou as Escrituras. A mesma autoridade que guardou e selecionou, também proclamou sagrado o conjunto de Livros nos quais está contida materialmente parte da verdade revelada, pois já que não existem os originais, nem é possível identificar a assinatura de próprio punho dos autores nos livros, é a autoridade e testemunho da Igreja, coluna e sustentáculo da verdade que os autentica, pois só a ela cabe autenticar ou rejeitar tudo que é feito, dito, escrito ou ensinado em nome de Deus: “Quem vos OUVE, a mim OUVE; e quem nos REJEITA, a mim REJEITA. E quem me rejeita, também rejeita aquele que me enviou.” (São Lucas 10. 16)

4 – Paulo jamais disse que não se poderia ir além da palavra escrita em matéria de fé e autoridade, pois se assim fosse, estaria sendo contraditório e incoerente, vez orientava a todos no seguinte:“[…] ficai firmes e conservais os ENSINOS que de nós APRENDESTES, SEJA POR PALAVRA, SEJA POR CARTA nossa.” (II Tessalonicenses 2. 15) Ora, os que foram incumbidos de escrever, também foram antes de tudo, incumbidos de ensinar de modo oral e publicamente. “Os apóstolos voltaram para junto de Jesus, e contaram-lhe tudo o que haviam FEITO E ENSINADO. (São Marcos 6. 30) É incontestável que antes da primeira palavra do Novo Testamento ser redigida, por volta dos anos cinquenta depois de Cristo, ele já tinha enviado os Apóstolo para batizar: “IDE, pois, e ENSINAI a todas as nações, BATIZAI-AS em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (São Mateus, 28. 19) O texto de Paulo, que indica para não irmos além do que ele escrevera, é restrito à sua relação de amizade com Apolo. Criaram uma falsa disputa entre Paulo e Apolo que estava dividindo a Igreja em grupos de um e outro, como se estivessem em conflito de opinião, quanto então, Paulo, orienta a não ir além do que ele escrevera sobre Apolo, e para ser rejeitado tudo o que maldosamente se dizia a respeito deles: “Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento.” (I Coríntios 1. 10) “Refiro-me ao fato de entre vós se USAR ESTA LINGUAGEM: “Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo”. (I Coríntios 1.12)  “Pois quem conhe­ce as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. (I Coríntios 2. 11) “Se apliquei tudo isso a mim e a Apolo foi por vossa causa, para que aprendais a não ultrapassara o que está escrito e para que vos não ensoberbeçais tomando partido a favor de um e com prejuízo de outrem.” (I Coríntios 4.6) 

 


[1] A teoria que só as Escrituras testemunham a revelação e autoridade de Deus, defendida por Lutero nos anos 1.530, defende que o Magistério da Igreja e a Tradição recebida dos Apóstolos, embora possam ser utilizadas para formar a interpretação e compreensão dos textos, estão em nível inferior a fonte escrita (sola scriptura). Com as subdivisões no protestantismo, surgiram grupos que radicalizaram o desprezo a Tradição e ao Magistério, defendendo que não precisariam de nenhuma fonte externa para interpretar e compreender as Escrituras, senão, da própria interpretação particular (nuda escriptura) A Escritura é posterior à Tradição, pois não foi deixada por Cristo, nem pelos Apóstolos, sequer consta nos escritos a lista dos livros que formariam o Cânon Sagrado. Foi a autoridade Extra Bíblica da Igreja, num período de mais de trezentos anos, que definiu os Livros santos, rejeitando os que não eram reconhecidos pela Autoridade Eclesiástica, dentre os milhares de escritos utilizados pelas comunidades cristãs dos primeiros séculos. Assim,  foram os Concílios (Assembleias de Bispos) que definiram a Bíblia, sendo eles, o Concílio de “Sárdica (Regional – 343 d.C.); Laodiceia (Regional – 363 d.C.); Hipona (Regional – 393 d.C.); Cartago III (Regional – 397 d.C.); Cartago IV (Regional – 419 d.C.) Éfeso (Ecumênico – 431 d.C.), e por fim, Nicéia II, (787) O primeiro livro escrito é uma carta de Paulo, Primeria Carta aos Tessalonicenses, redigida no final do ano de 51 d.C. (https://www.abiblia.org/ver.php?id=11448)

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