A CEIA EUCARÍSTICA DO PÃO E VINHO É APENAS UMA LEMBRANÇA?

1 – Creem alguns, que a ceia é apenas a memória póstuma do martírio de Cristo, não existindo comunhão real com o seu corpo, nem com o seu sangue, mas apenas uma ligação emocional e retrospectiva com a lembrança do seu sacrifício.

2 – Defendem que, sendo apenas memória de um fato passado, é, portanto, a imaginação do sacrifício pretérito da carne e do sangue de Cristo, o qual já não mais existe, senão na mente de cada fiel que na ceia recebe as espécies dos alimentos.1

3 – Assim como Cristo instituiu como seu memorial o ato da mulher que lhe derramou perfume sobre o corpo, manifestando assim, a fé em sua morte e ressurreição,2 também instituiu como lembrança a ceia do pão e vinho somente para que não nos esqueçamos do seu doloroso sacrifício, sem nenhum outro efeito prático.

Mas em contrário, fora dito categoricamente pelo apóstolo: “[…] O CÁLICE da benção, que benzemos, não é a COMUNHÃO DO SANGUE de Cristo? E o PÃO, que partimos, não é a COMUNHÃO DO CORPO de Cristo? (I Coríntios 10, 16); […] NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR os que COMEM as vítimas? (I Coríntios 10, 18)” “Aquele que COME E BEBE SEM DISTINGUIR O CORPO DO SENHOR, come e bebe a sua própria condenação.” (I Coríntios 11. 29)

SOLUÇÃO: Memória é a capacidade de conservar mentalmente informações sobre pessoas, fatos ou circunstâncias, sendo pois, testemunho do que aconteceu ou ainda está acontecendo.3 Memória póstuma (mneuma) é evocar na lembrança, acontecimentos que já não estão em nossa realidade, e com os quais não podemos interagir, senão apenas guardá-los em nossa mente. Todavia, disse o próprio Cristo que estaria conosco “até o fim dos tempos”, não apenas numa lembrança, nem apenas espiritualmente, mas também em sua presença real em carne e sangue,4 para que assim pudéssemos adorá-lo em espírito e em verdade,5 restando claro que não queria ser lembrando postumamente. Já a Memória atual (anamnésis) é rememorar um fato que embora tenha acontecido no passado, transcendeu ao tempo, lançando-se na atualidade, e cujos efeitos ainda permanecem concretamente entre nós, numa realidade acessível e palpável com a qual podemos nos comunicar, tal qual a semente lançada à terra no passado, cujo fruto da árvore dela germinada é possível colher no presente, tornando esse fruto, a memória atualizada da semente oculta na fruta, por trazê-la novamente a realidade contemporânea, do que se responde aquelas questões.

1 – Que a ceia do pão e vinho é a comunhão real com a carne e sangue de Cristo, não podemos duvidar diante das claras palavras do apóstolo: “[…] O cálice da benção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? (I Coríntios 10, 16) “Quem comer deste pão, ou beber do cálice indignamente, SERÁ RÉU DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR. ” (I Coríntios 11, 27). Réu do corpo e do sangue, não da memória. Ora, para ser réu do corpo e sangue, há de haver o corpo e sangue enquanto realidades invisíveis dentro da realidade visível do pão e vinho, num memorial de CORPO PRESENTE, e não num memorial de lembrança passada. E se não podemos duvidar do apóstolo, menos ainda negar confiança as palavras do Cristo: Isto é meu corpo, isto é meu sangue6. Ele não disse: “Isto é apenas minha lembrança ou somente o meu espírito”. Eucaristia é ter na memória que o Corpo Místico de Cristo está no meio de nós quando celebramos a ceia do vinho e pão, pois como profetizado, não se trata de cálice comum, nem de pão comum:A MESA do Senhor está MANCHADA; o que nela se oferece é um ALIMENTO COMUM. (Malaquias 1, 12); “Há na MÃO do SENHOR uma taça de VINHO espumante e aromático. DELA DÁ DE BEBER. HÃO de SORVÊ-LA os ÍMPIOS TODOS da TERRA. (Salmo 74. 9) “[…] SOBRE A MESA DOS PÃES DA PROPOSIÇÃO, o PÃO PERPÉTUO estará sobre ela. (Números 7. 4)”

2 – Comunhão implica união perfeita entre substâncias idênticas, sendo a ceia, a unidade da nossa humanidade mortal com a humanidade imortal do Cristo.7 Não houvesse carne e sangue nas espécies do pão e vinho não haveria união conosco, posto que inexiste ligação entre realidade atual e realidade passada que não mais existe. Ora, a viúva não está mais unida ao marido pela lembrança sentimental ou mental do matrimônio que já findou, posto que só há comunhão matrimonial se o marido ainda estiver presente em sua realidade concreta. Tudo que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por nós, participa da eternidade Divina, e assim transcende aos tempos e a todos.8 Por isso, a ceia é a comunhão com o corpo e o sangue, e não com a lembrança de Cristo, nem com comida, sendo memorial de uma realidade eterna, e sendo eterna é atual, e sendo atual nos ligamos a ela, atualizando-a em nossas vidas por meio das celebrações eucarísticas, sinal9 da união entre a humanidade criada (nós) com a humanidade divinizada (Cristo), tornando-as extraordinariamente unas, num mesmo corpo: “Tomarás um novilho e dois carneiros sem defeito; PÃES SEM FERMENTO […]; Aarão e seus filhos comerão a sua carne e o PÃO; e como libação de VINHO;  Este SACRIFÍCIO será PERPÉTUO; E OFERECIDO EM TODAS AS GERAÇÕES FUTURAS, à entrada da tenda de reunião, diante do Senhor, ONDE VIREI A VÓS, PARA FALAR CONTIGO. ” (Êxodo 29. 2 a 40) “[…] o Espírito da Verdade que o mundo não pode acolher porque não vê, nem o conhece. Vós conheceis porque permanece convosco! Eu virei a vós! O mundo não me verá, MAS VÓS ME VEREIS porque eu vivo e vós vivereis. Nesse dia compreendereis que ESTOU EM MEU PAI, E VÓS EM MIM E EU EM VÓS.(São João 14 20)

3 – A palavra grega usada para descrever o memorial que Cristo instituiu em favor da mulher que lhe untou com perfume é “mneuma”, equivalente a “in memoriam na língua latina, que significa a lembrança de fatos e pessoas que um dia deixariam de existir para sempre entre nós, tornando-se, assim, apenas um passado distante, o qual não é possível reviver ou revisitar.10 no memorial da Eucaristia a palavra usada é “anamnésis” ou “com memoriationem” no latim, que significa a lembrança de acontecimento passado que não cessa, existindo continuamente em nossa realidade, e com o qual poderemos nos ligar, revisitando-o, revivendo-o e experimentando-o no presente, tal qual era no passado.11 Sobre isso, proclamou São Clemente,12 discípulo do Apóstolo Paulo: “Talvez digas: Não vejo aparência de sangue. Mas há o sinal. Aprendeste, portanto, que aquilo que recebes é o Corpo de Cristo. O PRÓPRIO CRISTO TESTEMUNHOU-NOS QUE RECEBEMOS SEU CORPO E SEU SANGUE. Por acaso, devemos duvidar da fidelidade do seu testemunho? (Carta de Clemente, Papa Clemente I, o Romano, anos 35 a 100, aos Coríntios, datação da Epístola por volta do ano 96 DC)” Por fim, é certo que os olhos da fé enxergam muito mais que os olhos da razão natural e dos sentidos. Não podemos buscar ver o corpo e o sangue de Cristo, senão pelo olhar superior da fé, na confiança no Jesus disse, confirmando o milagre de amor da Eucaristia, conforme anunciavam as profecias. Mas se os olhos naturais impedem de vê-lo pela fé, desconsidere-os, pois como disse Jesus: “Se um dos teus olhos te faz desviar, arranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor é entrares na vida com um olho só, do que, tendo os dois, seres lançado no fogo do inferno.” (São Mateus 18.9)


1Na ceia do Senhor, Cristo não é oferecido ao Pai, e não se faz presente de modo algum se faz em sacrifício real para remissão dos pecados dos vivos e mortos. (Confissão Protestante de Westminster. Art. 28, ano 1.643) Todavia disse Cristo: – Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. (Jo 6. 53 e 55)”

2 “Derramando esse perfume em meu corpo, ela o fez em vista da minha sepultura […] Em toda parte onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, será contado em sua memória o que ela fez”.(São Mateus 26. 12 e 13)

3 Obras Aristotélicas. De Memoria. (Ed. Becker, ano 1.830, p. 499-453)

4Tomai e comei. Isto é meu corpo; isto é meu sangue. (São Mateus 26. 26-28); Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu Nome, eu estarei no meio deles. (São Mateus 18. 20); Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20)

5 “Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.” (São João 4, 23)” Adorar Deus no Espírito e em verdade significa também adorá-lo na realidade da carne e sangue, e não na figura simbólica dos animais (cordeiros e cabritos) como era antes de Cristo.

6 Mt 26. 26-28.

7 Em sua obra “Adversus Heareses”, ensinou Santo Irineu de Lyon (anos 120 à 220 DC):

“Este é o motivo que o Verbo de Deus se fez Homem; e o Filho de Deus, se fez filho de homem, para que o homem, unindo-se ao Verbo de Deus, recebendo a adoção se tornasse Filho de Deus. NUNCA PODERÍAMOS OBTER A INCORRUPÇÃO E A IMORTALIDADE, A NÃO SER NOS UNINDO A IMORTALIDADE E A INCORRUPÇÃO. E prossegue: “Como poderíamos realizar essa União, sem que antes a Incorrupção e a Imortalidade se tornassem o que somos, a fim de que O CORRUPTÍVEL FOSSE ABSORVIDO PELA INCORRUPÇÃO, E O MORTAL PELA IMORTALIDADE, e desse modo pudéssemos receber a adoção de filhos.(Livro III, p. 317)” – “Ele lhe dará o trono de Davi de forma tal que este Filho de Deus se tornaria homem, para que por sua vez, o homem se tornasse Filho de Deus. (p. 269)”— “Através da Encarnação do Verbo, DEUS RECAPITULA (reconstrói, reescreve) toda a descendência de Adão. A Igreja porém, espalhada por toda terra, iniciada pelos Apóstolos, perseverá firmemente numa única e idêntica fé em Deus e no seu Filho. (p. 292)

8 Catecismo n. 1085.

9 “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nela Deus Pai imprimiu o seu sinal.” (São João 6, 27)” 

10 “Derramando esse perfume em meu Corpo ela fez em vista da minha sepultura. Em verdade eu vos digo: Em toda parte, onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, SERÁ CONTADO EM SUA MEMÓRIA O QUE ELA FEZ. ” (São Mateus 26. 12 e 13)

No texto em latim da vulgata, o versículo 13 está assim: “men dico vobis ubicumque prædicatum fuerit hoc evangelium in toto mundo dicetur et quod hæc fecit IN MEMORIAM Ejus”

No idioma grego koiné originário do Novo Testamento, lemos a palavra mneuma ou lembrança póstuma de fato extinto no passado:

“ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ὅπου ἐὰν κηρυχθῇ τὸ εὐαγγέλιον τοῦτο ἐν ὅλῳ τῶ κόσμῳ, λαληθήσεται καὶ ὃ ἐποίησεν αὕτη εἰς μνημόσυνον αὐτῆς.”

11 “Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ISTO É O MEU CORPO, que é dado por vós; FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM. (São Lucas 22.19)”

Na vulgata latina, temos este versículo da seguinte maneira: “et accepto pane gratias egit et fregit et dedit eis dicens hoc est corpus meum quod pro vobis datur hoc facite in meam COM MEMORATIONEM”

“καὶ λαβὼν ἄρτον εὐχαριστήσας ἔκλασεν καὶ ἔδωκεν αὐτοῖς λέγων, τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου τὸ ὑπὲρ ὑμῶν διδόμενον· τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν.” 

12 “E a ti, fiel Sínzigo, também rogo que as ajudes, pois que trabalharam comigo no Evangelho, COM CLEMENTE e com os demais colaboradores meus, cujos nomes estão inscritos no livro da vida.* (Filipenses 4, 3)”

 

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