COMO NUM ÚNICO DEUS PODE HAVER TRÊS PESSOAS?

1 – Como pode Deus, na Pessoa do Pai criador, ser ao mesmo tempo a Pessoa do Filho, haja vista, que os filhos descendem dos pais, e com estes não podem ser confundidos, pois do contrário, não haveria nem pai, nem filho?

2 – Sendo Deus criador, o único Deus1, parece que não pode haver uma Trindade Divina no Pai, no Filho e no Espírito Santo, pois o que é único se opõe ao que é duplo ou triplo.

3 – No mais, se o Filho procede do Pai e o Espírito Santo procede tanto do Pai, quanto do Filho,2 somente o Pai é eterno, pois o que procede de outro só existe depois daquele de quem procede, não sendo, portanto, eternos, nem o Filho, nem o Espírito Santo, e não sendo eternos não são Pessoas Divinas, vez que um dos atributos da Divindade é a eternidade.

Mas em contrário, é dito que no princípio era DEUS, quem criou todas as coisas. ” (Gênesis 1. 1) Todavia, o Deus criador que é ÚNICO não estava só, pois no ato da criação, quando ainda edificava todas as coisas […] e a terra era sem forma e vazia, o seu ESPÍRITO “[…] pairava sobre as águas. (Gênesis 1. 2) Mas também o Deus Criador e o seu Espírito não estavam sós, porque […] “no princípio era o VERBO, e o VERBO era Deus, e o VERBO estava em Deus (São João 1.1), e […] “tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada teria sido feito.” (São João 1. 3)

SOLUÇÃO: O ser, em Deus criador, é pessoal, pois a Divindade existe unida a Pessoa,3 sendo próprio de todo ser pessoal interagir de maneira racional e relacional, não só com tudo ao seu redor, mas particularmente, consigo mesmo. E sendo Deus, a personificação da pura inteligência invisível, e se tudo criou pela inteligência de sua palavra,4 pois nele não há corpo, nem forma, um dos seus Nomes é SABEDORIA5. A sabedoria, sendo onisciente, conhece plenamente todas as coisas, assim como se conhece. Logo, a relação pessoal que Deus tem consigo mesmo, está na consciência do que ele é, quando então, o seu pensamento racional a respeito de si mesmo, projeta dele uma IMAGEM. Temos então, no Filho, a imagem que Deus traz de si próprio, de como ele é6, e por isso, só o Filho é IMAGEM do Pai7, e como Deus se vê intelectualmente, razão porque, ser imagem do Pai é próprio do Filho. Por isso ainda, temos na PESSOA DO FILHO, a “[…] IMAGEM DE DEUS INVISÍVEL (Colossenses 1, 15), tornada visível aos nossos olhos pela Encarnação do Verbo, pois como disse o Filho: “Quem VÊ A MIM VÊ AO PAI, porque EU E O PAI SOMOS UM.” (São João 14. 7 e 10.30) Todavia, ao contrário da imagem imperfeita nos seres finitos que é apenas um reflexo abstrato do seu modelo concreto, sendo Deus perfeito, e realizando tudo na perfeição, a imagem que ele projeta de si próprio é tão autentica, sublime, primorosa e fiel a ele, que nada lhe falta, tendo essa imagem, idêntica personalidade,8 poder, vontade, pensamento, atitude, virtude, glória e Divindade, pois só uma Pessoa Divina pode ser imagem idêntica de outra Pessoa Divina, e como ensinou Santo Hilário9 “[…] em Deus, a imagem é a espécie perfeita que não difere do seu exemplar.” E é na imagem do Filho, que o Pai interage consigo mesmo, e com o universo de toda sua criação, porque Deus só interage em igualdade consigo mesmo: “A quem poderíamos comparar Deus, e que IMAGEM DELE poderíamos oferecer? (Isaías 40. 18) Como toda imagem está contida no modelo, e provém do modelo, o Filho está contido no Pai,10 e provém da inteligência do Pai.

Neste sentido, se só o Pai pode ver a imagem perfeita de si mesmo no Filho, é certo que ele ama ao que vê, porque a perfeição e a beleza do Pai está no Filho, e Ele se reconhece nelas. Assim, o Pai ama o Filho porque ama a si mesmo, e é por AMOR que existe uma ligação profunda, eterna, plena, íntima, definitiva e inseparável entre o Pai (Modelo) e o Filho (Imagem). Todavia, o AMOR que enlaça Pai e Filho é tão perfeito, ao ponto de consistir noutra Pessoa, na qual nada falta do Modelo ou da Imagem, pois só sendo Pessoa Divina para unir no amor outras duas Pessoas Divinas, razão porque, o Espírito Santo é o AMOR PERSONIFICADO11, no qual também estão contidos o pensamento, a Divindade, a vontade,12 a atitude, o poder, a operação e propósito, tanto do Pai, quanto do Filho, pois como disse o doutor, […] O Espírito Santo, enquanto amor, se chama nexo entre o Pai e o Filho13. Tendo natureza racional, é certo que o Amor Divino não é uma força, mas uma Pessoa, uma virtude tornada Pessoa, no que se responde as questões acima.

1 – De certo modo, antes de ser gerado, todo filho estava no pai, no conjunto das características genéticas que o pai lhe transmitiria, como todos nós estávamos em Adão, antes de existirmos como indivíduos particulares.14 Um filho não existe enquanto pessoa, senão quando nasce, porque nenhum ser natural e finito, como o homem, pode existir noutro como pessoa, senão, apenas em si mesmo. Todavia, isso não se aplica ao ser Divino e infinito, que tanto pode existir nele, como também em todas as coisas. Assim, se na natureza humana, os filhos ainda não nascidos subsistem nos pais apenas enquanto conjunto genético, na natureza Divina, o Filho existe no Pai, enquanto Pessoa idêntica e consubstancial ao Pai, sem que dele precise se separar ou dividir. O Filho de Deus, sendo eterno, não precisou nascer, nem ser gerado numa humanidade para existir, embora o ato de ser gerado e nascer numa humanidade, ocorrera para que Deus, no Filho, assumisse nossa natureza humana para padecer na cruz. Parafraseando São João Damasceno: “[…] mesmo como elementos opostos, a água está na terra e o ar está no fogo inseparavelmente unidos. Assim também é a Pessoa do Filho que coexiste no Pai, e a Pessoa do Pai que coexiste no Filho.” Estar o Filho no Pai não anulou a filiação, assim como estar o Pai no Filho não anulou a paternidade, porque em Deus, todas as coisas subsistem em perfeito equilíbrio, sem confusão, e sem precisar de separação.15

2 – Uma coisa é a personalidade ou PESSOA; outra o ser ou sujeito que a detém. Num ser ou sujeito finito, só pode mesmo haver uma única personalidade (persona) verdadeira. Mas tal não se aplica ao ser infinito, onde mais de uma Pessoa pode habitar num único ser. E além de infinito, sendo também perfeito, o sujeito ou ser de Deus pode agir ao mesmo tempo pelas três Pessoas que nele habitam, sem conflito, confusão, separação ou desarmonia. No mesmo ser Divino, do qual se diz o Pai, existe uma unidade perfeita de vontade, ação e propósito com as Pessoas do Filho e do Espírito Santo. Isso se dá, porque embora haja três Pessoas, há um único sujeito ou sujeição no ser, cujas vontades, ações e propósitos são idênticos, sendo que a vontade, ação e propósito contidos no Pai, também estão presentes, simultaneamente, no Filho e no Espírito, razão pela qual, as três personalidades coexistem num mesmo e único ser. Como a mesma água pode simultaneamente ter suas partes em estado líquido, gasoso ou sólido, sem que estes estados deixem de ter a substância de água (H2o), é a mesma e única Divindade que está no Pai, no Filho e no Espírito, simultaneamente, como ensinou Damasceno: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim – Nenhuma diferença de vontade, de pensamento, de operação, de poder ou de qualquer outra perfeição, coisas que em nós produziria uma divisão real e total. É por isso que não dizemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três deuses, mas antes afirmamos um Deus único, a Santíssima Trindade, sendo que o Filho e o Espírito Santo se reportam à causa unida sem que estejam misturados ou confundidos como pretendia a heresia de Sabélio. Pois eles estão unidos, como dissemos, não de maneira a serem confundidos, mas de modo a estarem um no outro. (São João Damasceno, Demonstração da Fé Ortodoxa, Cap. 5. 1-5 Vol. I)” Assim, o Filho é Deus no Pai e no Espírito Santo; o Espírito é Deus no Filho e no Pai, e o Pai é Deus no Filho e no Espírito. Não são três seres, mas três Pessoas num único ser. 

3 –  Se a sabedoria do Deus criador, assim como ele, é eterna, então é certo que ele tem de si uma Imagem do que ele, gerada desde a eternidade. Mas se ele tem uma imagem de si desde a eternidade, é também certo que ele ama essa imagem desde sempre, razão porque, a eternidade da Pessoa Divina do Pai está contida na eternidade da Pessoa do Filho e na Pessoa do Espírito Santo, porquanto disse Santo Agostinho:“[…] consequentemente, a MENTE (IMAGEM), o AMOR e o seu CONHECIMENTO são três coisas; e estas três coisas, uma só, porque O QUE É PERFEITO É IGUAL.”16 Logo, o Modelo conhece sua Imagem, bem como, a Imagem e o Modelo se amam desde a eternidade.


1 “Ao Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. (I Timóteo 1. 17)

2 “Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. (Salmo 2.7)

3 “Conforme Santo Tomás de Aquino, “pessoa” é toda substância individual de natureza racional. Significa o que há de mais perfeito, a saber, o que subsiste numa natureza racional. Tudo o que diz perfeição, deve ser atribuído a Deus, pois sua essência contém em si toda perfeição. Convém, portanto, atribuir a Deus este nome de Pessoa. Não, porém, da mesma maneira como se atribui às criaturas. É grande a dignidade subsistir numa natureza racional. Por isso, dá-se o nome de Pessoa a todo indivíduo dessa natureza. Mas a dignidade da natureza divina ultrapassa toda dignidade, por isso, o nome de Pessoa, ao máximo, convém a Deus.” (Suma Teológica. V. 1-4. São Paulo. Loyola, 2000)

4 “Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita. (Gênesis 1, 3)”

5 “Sim, a sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras.” (Sabedoria 1, 6)

6 “EU SOU O QUE SOU.” (Êxodo 3, 14)

7 “Santo Agostinho: […] só o Filho pode ser Imagem do Pai.” (De Trinitate. Livro IV, cap. 2)

8 “A VERDADEIRA IMAGEM há de necessariamente proceder de Outro, o qual seja semelhante. (Suma Teológica, art. 1º Q 35, Livro Ia)

9 De Synod. Canon I.

10Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou. (São João 1. 1-18)

11 “O ESPÍRITO SANTO é PERSONIFICAÇÃO do AMOR entre DEUS PAI e DEUS FILHO, expandindo-se à sua criação primaz que é o ser humano, porque “[…] O AMOR DE DEUS foi derramado em nossos corações PELO ESPÍRITO SANTO que nos foi dado. (Romanos 5. 5)”  “Foi Ele que nos informou DO AMOR COM QUE O ESPÍRITO VOS ANIMA. (Colossenses 1. 8)” O ESPÍRITO SANTO DE DEUS é assim, a manifestação PERSONIFICADA do AFETO AMOROSO do MODELO (DEUS PAI) por sua IMAGEM (DEUS FILHO), e assim reciprocamente: “O PAI AMA PELO ESPÍRITO SANTO, não só o FILHO, mas também a si mesmo. (Suma Teológica. Art. 2º Q 37, Livro Ia)”

12 Tal como o Pai e Filho, o Espírito Santo é uma Pessoa, porque age pela razão. Por esta essência da razão lhe é facultado interagir com outros seres racionais. Por isso o ESPÍRITO SANTO interage conosco, fazendo-nos promessas: “De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a PROMESSA DO ESPÍRITO SANTO, derramou isto que vós agora vedes e ouvis.” (Atos dos Apóstolos 2.33), e entristecendo-se: “E não ENTRISTECEIS o ESPÍRITO SANTO de Deus.” (Efésios 4.30)  Partilhando a sua sabedoria e dons (Hebreus 2.4), sendo também por Ele que nos é dada a Palavra de Sabedoria. (I Coríntios 12.8)

13 (Suma Teológica, Q 43, art. 1º Livro Ia. Santo Tomás de Aquino)”

14 Isso, cientificamente, se chama MONOGENIA, o modo de separar, nos seres, o todo universal (humanidade) da parte (indivíduo). Porém, não uma separação absoluta ou total, pois toda característica e essência da pessoa singular, está guardada na pessoalidade universal do ancestral, as quais lhes serão transmitidas. Por isso, se diz que todo os homens, pecaram em Adão.(Romanos 5. 12)

15 CATECISMO §255 A Unidade divina é Trina. As pessoas divinas são relativas umas às outras. Por não dividir a unidade divina, a distinção real das pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras: “Nos nomes relativos das pessoas, o Pai é referido ao Filho, o filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois; quando se fala destas três pessoas considerando as relações, crê-se todavia em uma só natureza ou substância’. Pois “tudo é uno [neles] l onde não se encontra a oposição de relação. “Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho”.

16 (De Trinitate. LIVRO IX, 4.4)

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