FOI DESONROSO A DIVINDADE ASSUMIR NOSSA HUMANIDADE?

1 – É melhor existir como Deus, que existir como Deus e homem, razão porque, parece aviltante e desonroso a Divindade ter assumido um corpo humano para viver ainda que por um curto tempo, sujeita às constrangedoras limitações desse corpo, como dor, fome e sede, sendo colocada em condição inferior à dos próprios anjos que lhes são subordinados.1

2 – No mais, os elementos que não tem entre si afinidades, não podem se unir de modo perfeito, pois os diferentes não se unem, senão, numa imperfeição incorrigível, como a água unida ao óleo. E assim como são dispares água e óleo, também é dispare a natureza Divina em relação a natureza humana.

3 – Por fim, existe um abismo intransponível entre Deus eterno e sua criatura finita, como há entre a eternidade e o tempo, pois como disse o santo doutor, “[…] a semelhança de Deus com a criatura é tão imperfeita, que não os coloca num gênero comum.2

Mas em contrário, o ser Divino se fez homem no Cristo para a grandiosa missão de promover o reencontro definitivo entre Divindade e humanidade, separadas em razão da vontade livre desta, na qual se gerou a maldade que a fez inimiga de Deus, razão porque é dito pelo santo da Igreja, que por causa do pecado, o Pai “[…] enviando o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne,” (Romanos 7, 26)

SOLUÇÃO: No corpo que adoece há de se aplicar o remédio, assim como no corpo que delinquiu há de se aplicar a justiça. E o que é o pecado, senão o delito que através da humanidade praticamos contra Deus? Como do próprio veneno é tirado soro antiofídico que cura, da humanidade da qual veio o pecado, viria também o resgate das nossas almas, aprisionadas e mortas pela doença do pecado. Mas a humanidade que jazia na transgressão, sem mérito ou dignidade, não poderia reparar seu delito, senão por um homem nascido dela sem mácula, e que não se sujeitasse ao pecado. Por isso, disse o Apóstolo que Jesus3 “[…] nos reconciliou pela MORTE DO SEU CORPO HUMANO, para que pudéssemos nos apresentar santos e irrepreensíveis aos olhos do Pai, (Colossenses 1, 22); e que “[…] ele suportou nossos pecados EM SEU CORPO SOBRE O MADEIRO, para que mortos pelos nossos pecados, vivamos para a Justiça. POR SUAS CHAGAS FOMOS CURADOS.(I São Pedro 2, 24)”, no que se responde as questões acima.

1 – Assumir a natureza humana e nela passando habitar, nada acresceu ou tirou da Divindade, pois os ofícios do Poder Divino não foram limitados pela nova natureza assumida, mas pela própria vontade Divina soberana. Ele sentiu fome, dor, saudade e deixou-se morrer porque quis4, e mesmo estando investido num corpo humano, a natureza humana não o impedia de realizar as coisas que estavam além da humanidade, como ressuscitar; assim também como a Divindade não o impedia de realizar coisas que são próprias da natureza humana, como sofrer e morrer. Todavia, se nada acresceu, nem diminui ao ser Divino assumir nossa humanidade, tal fato elevou a dignidade do ser humano diante de Deus, pois em Cristo, a Divindade é humanizada e a humanidade Divinizada, para assim, sermos revestidos numa nova humanidade, constituída em verdadeira justiça e santidade, como dito, “[…] revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade. (Efésios 4, 24)”

2 – Pode-se dizer que sendo honroso ao menor tornar-se maior, reciprocamente é desonroso ao menor regredir a condição inferior, razão porque, aos olhos naturais poderíamos até concluir que era motivo de desonrava para a Divindade, ter assumido uma humanidade. Porém, Deus nada realiza que o prive de sua honra e sua glória, até mesmo quando se humilha, porque o superior que por amor5 se humilha em favor dos seus inferiores, merece ser honrado e glorificado6. Não há maior demostração de grandeza que dar a vida para que aqueles que estão morrendo possam viver, e viver eternamente, como dito: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” Ora, é sublime “[…] o mistério da bondade divina, manifestado na carne e exaltado na glória!” (I Timóteo 3, 16)”, do que se afirma que a demonstração do amor em grau máximo, era a maneira mais digna de salvar o ser humano.7

3 – Não se pode reparar uma casa, sem dela se apossar, e nela realizar os atos de reparação necessários. Como disse Agostinho, em Cristo, Deus assumiu o homem para reparar as imperfeições da humanidade.8 Só sendo homem e Deus, para reunir novamente Deus ao homem, razão porque, o título de sumo Mediador atemporal e Pontífice universal, aquele que funciona como ponte que liga dois pontos separados por abismo gigantesco, só cabe a Cristo, pois como disse o apóstolo, a humanidade de Cristo, o CRISTO HOMEM é que nos uniu novamente com a Divindade.9 De fato, na lei natural, elementos sem afinidade como água e óleo não se unem perfeitamente. Mas isso não se aplica a Encarnação do Verbo, por duas coisas. Primeira, isso é uma lei física, natural, e é notório que Deus, como criador supremo, não está subordinado as leis que regem apenas a criação. Segundo, porque na água não há óleo, nem no óleo água. Todavia, no homem existe um elemento divino que é a própria imagem e semelhança de Deus, que o próprio Deus lhe inseriu ao criá-lo, o que torna perfeitamente compatível a união entre humanidade e Divindade.


1 “Por pouco tempo o colocaste inferior aos anjos.” (Hebreus 2. 7)

2 Suma Teológica. I Parte. Q 13, art 7, da 1ª.

3 “Excelso é o Senhor sobre todas as gentes, sua glória ultrapassa a altura do céu. Quem se compara ao Senhor? (Salmo 112.5)”

4 “Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, lhe disse: “Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?” (São Mateus 26. 51-53)

5 “Porque Deus amou ao mundo, que lhe deu a seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (São João 3. 16)

6 “Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado.” (São Mateus 23. 12)

7 “não faltava a Deus nenhum outro modo possível, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas, não existia nenhum outro modo mais conveniente para obviar à nossa miséria.” (Santo Agostinho. A Religião Cristã. p. 39 ed. Paulus. Cap. XVI. Dos Benefícios da Encarnação do Verbo)

8 “Com efeito, o Verbo não só apareceu visivelmente — pois isso poderia ter feito tomando algum corpo etéreo, ajustado e proporcionado à nossa vista. Apareceu entre os homens, como verdadeiro homem. Convinha que assumisse a mesma natureza a ser redimida. E para que nenhum sexo julgasse ser preterido pelo Criador, humanizou-se em forma de varão, nascendo de uma mulher.” (Santo Agostinho. A Religião Cristã. p. 39 ed. Paulus. Cap. XVI. Dos Benefícios da Encarnação do Verbo)

9 “Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, HOMEM.” (I Timóteo 2, 5)”

Seguir:
error

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial