NÓS JÁ ESTAMOS SALVOS? “NÃO JULGUEIS ANTES DO TEMPO, ESPERAI O SENHOR.” (I CORÍNTIOS 4, 3)

O processo contínuo de aperfeiçoamento do ser humano, realizado na Graça de Deus, e no qual é ele conduzido ao fim último para o qual fora criado que é a vida eterna com Deus, é o que chamamos SALVAÇÃO. Mas a salvação deverá se fundar na ESPERANÇA que provém da fé, e na misericórdia que emerge da caridade de Deus.

Logo, afirmar a certeza absoluta e irrevogável da salvação particular é um grave pecado que atua contra a esperança, a caridade e a misericórdia Divina.

Esse pecado é o da PRESUNÇÃO.

Ora, ninguém pode afirmar ANTECIPADAMENTE um juízo que Deus ainda não emitiu.

Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, VINDO, DEPOIS DISTO, O JUÍZO.” (Hebreus 9. 27)

Por isso, NÃO JULGUEIS ANTES DO TEMPO; ESPERAI QUE VENHA O SENHOR. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece.” (I Coríntios 4. 3, 4 e 5)

Como não existem condenados inapelavelmente antes de lhes expirar a vida, também inexistem nesta condição, os definitivamente salvos, exceto os predestinados.1

Em razão disso, não nos é dado o direito de autoproclamarmo-nos salvos ou eleitos.

Deus quer a salvação de todos, e então, a todos capacita e permite acesso as verdades reveladas em seu Corpo Místico que é a Igreja. Todavia, como não sabemos a hora da nossa morte, é importante que conservemos a fidelidade em Deus AGORA:

Venho em breve. CONSERVA O QUE TENS. (Apocalipse 3. 11)”

“Temos, portanto, um grande Sumo Sacerdote que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus. CONSERVEMOS FIRME A NOSSA FÉ.” (Hebreus 4, 14)

PERMANECEI EM MIM, e Eu permanecerei em vós.” (São João 15, 4)

Sendo que São Paulo, mártir e apóstolo, o qual testemunhou CRISTO num encontro face a face, jamais ousou se autoproclamar salvo, quem somos nós para assim afirmar?

Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a SER EXCLUÍDO depois de eu ter pregado aos outros.” (I Coríntios 9,27)”

Portanto, quem pensa estar de pé veja que NÃO CAIA.” (I Coríntios 10,12)

Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: severidade para com aqueles que caíram, bondade para contigo, suposto que PERMANEÇA FIEL a essa bondade; do contrário, também tu SERÁS CORTADA.” (Romanos 11. 22)”

O pecado da “confissão positiva”2 numa das suas tantas vertentes, e que está na crença da possibilidade de alguém alcançar definitivamente a salvação eterna antes do fim de sua existência terrena, apenas pela “fé”, é fruto da soberba presunçosa, que nodoa, perverte e vicia a santa esperança.

Ensinou Santo Tomás de Aquino:

PRESUNÇÃO implica uma certa e imoderada Esperança. Por isso, diz as Escrituras: Deus humilha a quem presume de si mesmos. E tal presunção se opõe a Virtude da magnanimidade, que estabelece o justo meio, a ESPERANÇA. (Suma Teológica. Q 21, art. 1º DO PECADO DA PRESUNÇÃO, Livro III)”

O que nos conduz a vida eterna é nossa ESPERANÇA, a qual nos move a esperarmos humildemente em servidão, o soberano e onipotente juízo Divino, para só ao final sermos confirmados na salvação, conforme os frutos do espírito plantamos em nosso ser pelos méritos de Cristo vertidos do seu sacrifício expiatório na Cruz, no qual devemos obter comunhão.

Com a ESPERANÇA de conseguir a ressurreição dentre os mortos não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me EMPENHO EM CONQUISTÁ-LA, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para frente. PERSIGO O ALVO, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.” (Filipenses 3,11-14)

[…] em vossa palavra ponho minha ESPERANÇA. (Salmos 118, 81)” 

Quem me dera que meu voto se cumpra, e que Deus realize minha ESPERANÇA! (Jó 6, 8)

A anunciação “ uma vez salvo, sempre salvo ” a qual já professei em outras épocas quando ainda era protestante, é na verdade, uma tentativa do juízo humano substituir ao juízo santo e perfeito de Deus, o qual ainda nem se realizou.

Além do mais, o ser humano não tem condição alguma de exercer o juízo de si mesmo, em relação à sua condição de santo, justo e salvo diante de Deus, exceto por uma revelação especial e extraordinária do próprio Deus, que não se dá com todos, nem com muitos, justamente por ser extraordinária.

O juízo sobre nós mesmo será sempre falho e imperfeito por causa do pecado, razão porque, ainda que pudéssemos obter a salvação irrevogável antes do fim de nossa jornada nesta vida, não teríamos condições de avaliar se a nossa fé seria ou não suficiente para assegurá-la:

NEM EU ME JULGO A MIM MESMO. De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. MEU JUIZ É O SENHOR.” (I Coríntios 4. 3, 4 e 5)

Também não é dado a justiça perfeita e excelsa de Deus, outorgar o prêmio antes do término da competição, e por isso, Ele não confere a ninguém o direito de realizar juízo sobre si mesmo, e nem concede, antes da vida expirar, o estado pleno de perfeição que nos permita vê-lo em toda sua essência, beleza e santidade, pois só aos salvos é dado ver Deus em essência, com todo seu esplendor:

“Bem-aventurados os LIMPOS DE CORAÇÃO, porque VERÃO A DEUS.” (São Mateus 5. 8)

“[…] AO PURO SE REVELAS PURO. (II Samuel 22.27)

Neste contexto, é sempre a ESPERANÇA a nos guiar:

Coloca TUA ESPERANÇA no Senhor, ele te salvará. (Provérbios 20, 22)”

“Não encontro socorro algum, qualquer ESPERANÇA DE SALVAÇÃO me foi tirada. (Jó 6, 13)” 

[…] terás confiança e ficarás cheio de ESPERANÇA: olhando em volta de ti, dormirás tranquilo; (Jó 11, 18)” 

Não há como confundir CONFIANÇA com CERTEZA.

Confiança é fruto da boa e virtuosa esperança, sendo a expectativa (e não garantia) da salvação e da recompensa futura, condicionada a conservação da fé que atua pela caridade3 e da perfeição4 que nos move à santidade, segundo a vontade do coração de Deus.

És minha ESPERANÇA. (Jó 31, 24)” 

[…] porque vós sois, ó meu Deus, MINHA ESPERANÇA. Senhor, desde a juventude vós sois minha CONFIANÇA. (Salmos 70, 5)

Somos todos réus aos olhos do juízo Divino.

Dar ao réu o poder de se julgar, afirmando sua própria absolvição para daí obter direito à recompensa celestial, implicaria colocar o que irá ser julgado na Função e Poder do Juiz que lhe julga.

Assim o ser humano se tornaria “deus” no Tribunal Celestial.

Feliz o homem que pôs sua ESPERANÇA no Senhor, (Salmos 39, 5)” 

[…] abandona-te ao Senhor, põe tua ESPERANÇA nele.” (Salmo 36,7)

Nossa salvação enquanto nesta vida nos é dada como PENHOR:

O qual também nos SELOU e deu o PENHOR do Espírito em nossos corações”. (II Coríntios 1:22)

Penhor é espécie de seguro, depósito para garantia de pagamento futuro. Mas o devedor só estará coberto do seguro vindo da repercussão do sacrifício de Cristo, mediante os seus efeitos práticos na fé, quais sejam, a beatitude e a caridade:

Aprenderiam, assim, a PÔR EM DEUS SUA ESPERANÇA, a não esquecer as divinas OBRAS, a observar as suas LEIS; (Salmos 77, 7)” 

Penhor ou empenho é promessa futura e condicional, distinguindo-se da certeza que é fato consumado e irrevogável. Portanto, a garantia que decorre da PROMESSA DA SALVAÇÃO, não é absoluta, mas condicionada, porquanto assim determinou o próprio Deus:

Enquanto, pois, SUBSISTE A PROMESSA de entrar no seu descanso, tenhamos cuidado em que ninguém de nós CORRA O RISCO de ser EXCLUÍDO. (Hebreus 4,1)”

Do mesmo modo, selos são marcas perpétuas apenas aos que morrem na graça de Cristo após encerrada a participação na vida terra.

Selar é encerrar definitivamente uma carta, ou seja, uma história para o juízo final, após a morte, desde que conservemos em nós as práticas da fé necessárias a validação desse selo:

Exorto-vos, pois: – prisioneiro que sou pelo voto ao Senhor, que  LEVEIS UMA VIDA DIGNA DA VOCAÇÃO A QUAL FOSTES CHAMADOS. E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais SELADOS PARA O DIA DA REDENÇÃO.” (Efésios 4.30)

A esperança, junto com a fé e caridade são as principais virtudes teologais.5

Pela esperança, somos dispostos a alcançar um Bem futuro que é a salvação, a qual não está ao nosso alcance e mérito. Não se alicerça na graça imutavelmente adquirida, mas na graça pela qual não só se alcança, mas também se conserva mediante a compaixão de DEUS, para assim, chegarmos à vida eterna.

Afirmar-se salvo definitivamente, inibe o temor a Deus, impedindo a confissão espontânea dos pecados, tornando ainda inútil o arrependimento.

Por isso, gravíssimo é o pecado da presunção da salvação.

O ser humano não é um ente estático e imóvel, pois tudo que nele regride poderá progredir, como todo progresso poderá ser perdido, conforme as circunstâncias, a experiência de vida, as virtudes ou as fraquezas.

A santidade e o arrependimento dos pecados são instrumentos, ou seja, meios da graça de Deus agir nos indivíduos, e conservá-los na salvação, desde que estes consintam livremente.

Quando eu estava no meio protestante, havia em mim uma dúvida inquietante a respeito de que, se as virtudes e a caridade eram apenas o testemunho da salvação daqueles que já a alcançaram, então, por óbvio, virtudes e caridade praticadas após a salvação já não tinham importância alguma, pois Deus jamais iria avaliá-las, para efeito de julgar se nossa fé teria sido ou não suficiente para nos abrir as portas do céu.

Ocorre que não é isso que diz as Escrituras:

DEUS RETRIBUIRÁ A CADA UM SEGUNDO SEUS ATOS. Para aqueles que, pela perseverança em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade, Ele dará a vida eterna. (Romanos 2. 6 e 7)

“Então, disse comigo mesmo: “DEUS JULGARÁ O JUSTO E O ÍMPIO, PORQUE HÁ UM TEMPO PARA CADA COISA E UM TEMPO PARA CADA OBRA.” (Eclesiastes 3. 17)

Se nossa fé necessita ser testemunhada por ações virtuosas e pelas boas obras caritativas, porquanto, se não as praticarmos incorreremos em pecado (Tg 4, 17), isto implica que, de fato, ainda não estamos salvos, pois teremos sempre, até o fim de nossa existência terrena, o compromisso de procurar na fé aquilo que nos levará à prática do bem da Caridade e da Justiça.

A salvação é o fim último do propósito da ação de Deus no ser humano.

Colocar a beatitude, a caridade e o arrependimento dos pecados, como o propósito final que tem a própria salvação como meio para atingi-lo, implicaria inverter e desordenar paradigmas, colocando a “chegada” como sendo o “ponto de partida.”

Embora nenhum fator externo possa interferir para nos afastar da Comunhão com Deus,6 é certo que o vínculo dessa Comunhão depende do LIVRE ARBÍTRIO6 do ser humano.

Como ensinou Santo Tomás: “[…] perseverar no pecado, esperando o perdão, é próprio da presunção.” (Suma Teológica, Q 22 art. 1. Da Presunção)

A certeza presunçosa é a perversão da reta esperança.

Você que esteja lendo, caso professe essa crença errônea, não fique triste, nem desanime, pois os escólios certeiros da sã doutrina da Igreja lhe outorgam a chance de  sair do comodismo que lhe enviará à condenação perpétua.

Aproveite o tempo que ainda lhe resta de vida, acolha a verdade que liberta, e deixe que a graça de Deus lhe conduza aos atos de justiça e beatitude, produzidos nos méritos de Cristo.


2 CONFISSÃO POSITIVA é heresia de matriz calvinismo, muito disseminada no meio dos pentecostais. Enquanto no calvinismo, tanto a salvação, quanto condenação são decretos exclusivamente de Deus, não cabendo ao ser humano escolher entre santidade ou pecado, na confissão positiva, o decreto não é de Deus, mas do próprio homem, pela “fé” por conta da interpretação errônea do texto paulino, onde se diz: – “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. (Rm 10.9)” Ora, a proclamação verbal está embasada na fé (creres de todo coração), e crer de todo coração significa permanecer na vontade perfeita e nos mandamentos santos de Deus. (Jo 14.21) A declaração desse grave erro fora escrita pela primeira vez na Declaração de Fé dos Batistas, de 1.689, onde confundiram a virtude da esperança com o fato da certeza da Salvação em vida: “Esta certeza não é algo meramente conjectural, baseada numa esperança falível, mas uma infalível segurança da fé. “(Da Segurança da Salvação, item 2)

3 Gálatas 5.1-6

4 I Tss 4,7

5 I Cor 13, 13

6 Minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. Meu Pai, que me as deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai.” (S. João 10:27-29) “Ninguém pode arrebatá-las das mãos do Pai.” Isso não implica que a ovelha não tenha a liberdade para, inclusive, abandonar o seu pastor, em razão da LIBERDADE DO ARBÍTRIO.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial