A CEIA É O MEMORIAL PÓSTUMO DO CORPO DE CRISTO AUSENTE?

Memória é toda capacidade de conservar mentalmente informações e dados sobre pessoas, fatos ou circunstâncias.

É um testemunho daquilo que aconteceu no passado ou acontece na atualidade.

Para as coisas futuras não há memória, e sim, expectativa, posto que estas ainda não se realizaram, razão porque, só pode haver memória póstuma ou memória de fato atual.

O fato atual, por sua vez, pode ser a continuidade de acontecimentos do passado que atingiram o tempo presente, e que também poderão transcender ao futuro. Contínuo é todo acontecimento que não cessou, havendo nele uma repercussão perpétua dos seus efeitos para além do momento no qual foram concebidos.

Nisto, temos a distinção entre MEMÓRIA FINDA (in memoriam) também chamada reminiscente ou póstuma; e a MEMÓRIA EM MOVIMENTO (com memoriationem) também chamada de memória real ou presencial.

MEMÓRIA PÓSTUMA é recordar algo findo que não existe no tempo real, apenas na própria memória que é a responsável por lhe emprestar uma certa longevidade intelectual. Desaparecendo essa memória, com ela desaparece todo registro daquilo que um dia existiu.

Platão ensinava que a memória PÓSTUMA é totalmente independente, desligada do objeto que perfaz seu memorial, posto que este já não existe, já não é real, pois se existisse, então não seria memória passada, mas ATUAL.1 Consiste no pensamento de algo extinto que testemunhamos, mas que não nos é possível novamente testemunhar ou reviver, sendo uma revisitação do passado, sem capacidade de capturar dele qualquer efeito válido para o presente ou lançá-lo para o futuro. Exemplo de memorial póstumo ou mneuma (μνημόσυνον) é dado pelo próprio Cristo em relação a mulher que lhe ungiu com perfume ao professar fé no sacrifício do Cordeiro:

Derramando esse perfume em meu Corpo ela fez em vista da minha sepultura. Em verdade eu vos digo: Em toda parte, onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, SERÁ CONTADO EM SUA MEMÓRIA O QUE ELA FEZ. ” (São Mateus 26. 12 e 13)

No texto em latim da vulgata, o versículo 13 está assim: “men dico vobis ubicumque prædicatum fuerit hoc evangelium in toto mundo dicetur et quod hæc fecit in memoriam Ejus”

No idioma grego koiné originário do Novo Testamento, temos o versículo 13 assim redigido:

“ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ὅπου ἐὰν κηρυχθῇ τὸ εὐαγγέλιον τοῦτο ἐν ὅλῳ τῶ κόσμῳ λαληθήσεται καὶ ὃ  ἐποίησεν αὕτη εἰς μνημόσυνον αὐτῆς”

JÁ A MEMÓRIA ATUAL ou anamnésis (ἀνάμνησιν) implica rememorar uma realidade presente daquilo que é real, acessível e palpável, cuja existência independente de sua própria memória. É, pois, um memorando presencial estabelecido pela ligação da razão, dos afetos e dos sentidos com um fato atual.

É lembrança, não do que já acabou, e passou, mas daquilo que ainda vivemos, e por isso, é um memorial mais completo que o simples memorial póstumo.

Mas em sentido contrário, a memória póstuma é imperfeita e impessoal, porque não nos permite a ligação com aquilo que está sendo lembrado, sendo apenas um testemunho intelectual que mantém acesa a chama de um passado distante ou remoto que vivemos, vimos ou experimentamos, e que já não nos é possível viver, ver ou experimentar. É espécie de recordação localizada tão somente no passado, sem possibilidade alguma de produzir qualquer efeito válido no presente ou porvir.

Ensinou Aristóteles que a memória póstuma apreende o que é passado enquanto passado, em oposição a memória real que localiza o fato no presente, podendo vir a estar no futuro.2 

O memorial presencial, que emerge da memória em movimento, é perfeito e completo porque além nos fazer lembrar de algo em todos os seus detalhes e contornos, nos permite interagir com o que está sendo lembrado, o que não ocorre na memória póstuma, a qual tende morrer pela desmemoriação daqueles que dela não mais se lembrarão.

O velório é um exemplo dessa memória póstuma (in memoriam), passada e findada, porque não é possível interagir com o objeto dessa lembrança que é o cadáver.

Já o jubileu natalício (commemorationem) ou aniversário é memória em movimento e contínua, porque é efeito real de fato ocorrido no pretérito (nascimento), mas que se lança no futuro, passando pelo tempo presente (continuidade dessa vida surgida do nascimento), e nos permite interagir com o aniversariante.

Ora, um carro comprado há muitos anos, e que fora destruído, existe na memória do seu antigo dono apenas enquanto lembrança; ao passo que o automóvel que atualmente ele possui está na sua memória enquanto realidade concreta, em interação sensível.

O automóvel atual é o fato atual, porque está bem presente na memória atual e diante de nós.

Assim é o memorial EUCARÍSTICO do Corpo e do Sangue de Cristo, Corpo este, que está DIANTE DE NÓS, sob as aparências do pão e vinho consagrados. A Ceia é a anamnésis, que significa A RECORDAÇÃO QUE SE APRESENTE JUNTO COM A REALIDADE QUE ELA FAZ LEMBRAR:

“Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ISTO É O MEU CORPO, que é dado por vós; fazei isto em MEMÓRIA DE MIM. (São Lucas 22.19)”

Na vulgata latina, temos este versículo da seguinte maneira: “et accepto pane gratias egit et fregit et dedit eis dicens hoc est corpus meum quod pro vobis datur hoc facite in meam commemorationem

No original grego do Evangelho assim está: καὶ  λαβὼν ἄρτον εὐχαριστήσας ἔκλασεν καὶ ἔδωκεν αὐτοῖς λέγων, τοῦτό ἐστιν τὸσῶμά μου τὸ ὑπὲρ ὑμῶν διδόμενον· τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν

Memorial da realidade do CORPO PRESENTE ou anamnésis (ἀνάμνησιν), não do pensamento, nem da ideia do fato passado. “Fazei isto em memória de mim” interpreta-se corretamente no contexto sistêmico de toda Escritura, como: “fazei isso, porque aqui, neste memorial de pão e vinho, lembre-se que Eu aqui me faço presente, em corpo e sangue. ”

Neste sentido, dizia uma antiga profecia mosaica, à cerca da Eucaristia, prefigurada nos sacrifícios de cordeiros para aspersão do sangue e ingestão da carne:

“Este holocausto será PERPÉTUO e será oferecido, em todas as gerações futuras, à entrada da tenda de reunião, diante do Senhor, ONDE VIREI A VÓS, PARA FALAR CONTIGO.” (Êxodo 29.42)

Cristo é Deus, e sendo Deus é onipresente em sua humanidade, pois como é certo que Ele próprio prometera que estaria conosco “até o fim dos tempos”, também é certo que Ele estará em Corpo e em Divindade inseparáveis, e não apenas em sua natureza Divina e espiritual, posto que é dito: “isto é meu Corpo”.

Correto afirmar como faz a Igreja, que na Eucaristia, Cristo manifesta a Onipresença em sua Santíssima Humanidade.

O Santíssimo Sacramento é o memorial de efeito atual, sensível e contemporâneo de algo do passado, mas cujos efeitos válidos e palpáveis colhemos na realidade presente, lançando-os ainda para o futuro. Por isso, quando Cristo anuncia o seu memorial, os evangelistas não usam a palavra grega mneuma, que significa o memorial póstumo do fato passado e cessado, como em relação à mulher do perfume, mas anamnésis que quer dizer memorial da realidade presente, porque Ele está diante de nós, fazendo-se presente no meio de nós.

Sendo realidade sólida no presente, não na lembrança morta do passado, é que podemos estar em comunhão direta com o Corpo de Cristo, pois não se pode ter comunhão com simples lembranças, mas somente com as realidades concretas. Neste compasso é que o Apóstolo esclarece que a injúria contra o pão e o vinho Eucarísticos, é ofensa ao corpo e ao sangue de Jesus, e não contra a sua memória passada:

“Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, SERÁ CULPADO DO CORPO E DO SANGUE do Senhor. (I Coríntios 11, 27)

Ora, para ser réu contra o Corpo e o Sangue, há de haver Corpo e Sangue como realidades num memorial presencial, e não como lembrança em memorial póstumo de um fato já cessado no tempo.

Comunhão é ato físico entre duas realidades concretas, e não entre duas manifestações intelectuais ou psíquicas. Não podemos comungar com o inexistente, o qual não está no meio de nós, senão apenas como lembrete, razão porque, está escrito em São João 6, 51: 

“EU SOU O PÃO VIVO QUE DESCEU DO CÉU. QUEM COMER DESTE PÃO VIVERÁ ETERNAMENTE; E O PÃO, QUE EU HEI DE DAR, É A MINHA CARNE PARA A SALVAÇÃO DO MUNDO.”

As palavras usadas para o memorial da mulher do perfume é mneuma no original grego, e in memoriam no latim da vulgata3 por ser apenas a lembrança de fato ou pessoa que no futuro não mais estariam entre nós.

Já no memorial da Eucaristia, por ser memoria presença real, é usada a palavra anamnésis no grego, e com memoriationem no latim, para não restar dúvida tratarem-se de memoriais distintos.  Esta é a única e verdadeira fé legada pelos Santos Apóstolos à sua verdadeira Igreja, desde os primórdios da Era Cristã, como vemos em alguns testemunhos milenares:

Talvez digas: Não vejo aparência de sangue. Mas há o sinal. Aprendeste, portanto, que aquilo que recebes é o Corpo de Cristo. O PRÓPRIO CRISTO TESTEMUNHOU-NOS QUE RECEBEMOS SEU CORPO E SEU SANGUE. Por acaso, devemos duvidar da fidelidade do seu testemunho? (Carta de Clemente, Papa Clemente I, o Romano, (anos 35 a 100) aos Coríntios, datação da Epístola por volta do ano 96 DC) ”

Os que negam a salvação da carne, desprezam sua regeneração, declarando ser ela incapaz de receber a incorruptibilidade. Se a carne não se salvará, então nem o cálice Eucarístico é a Comunhão com o seu Sangue, nem o Pão que partimos é a Comunhão com sua carne. O Verbo de Deus nos remiu por seu SANGUE, como disse o Apóstolo: – Nele temos a remissão por seu sangue, e a remissão dos pecados. Por sermos seus membros, somos nutridos por meios da matéria criada, RECONHECENDO COMO SEU PRÓPRIO SANGUE O CÁLICE, tirado da natureza criada com o qual fortifica o nosso sangue; e PROCLAMOU SEU CORPO NO PÃO, de onde fortifica nossos corpos. Os nossos corpos, alimentados por esta Eucaristia, ressuscitarão no seu tempo. (Santo Irineu de Lyon. Adversus Hereses, Livro V, 2.2 p. 522 e 523, ano 130-220) ”

Gravíssimo é o pecado de se negar a presença real do Corpo de Cristo nos elementos, transformando a ceia de pão e vinho em simples manjar de lembrança pretérita e mórbida, sem qualquer efeito vivo no presente e no futuro.4 Ora, a Eucaristia não é memorial de recordação póstuma, e nem é um culto cadavérico da memória extinta, porque é o sinal da VIDA ETERNA que nos deixou Cristo: 

QUE SINAL, POIS, FAZES TU, PARA QUE O VEJAMOS, E CREIAMOS EM TI? QUE operas tu? E Jesus lhes disse: Eu sou o PÃO DA VIDA; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede. Quem COME a MINHA CARNE e BEBE MEU SANGUE tem vida eterna, e EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA.” (São João 6. 30,35)

Não celebramos a morte pela morte, mas  por ser esta morte vicária e ETERNA, a causa da VIDA também ETERNA. Na Eucaristia adoramos ao CRISTO COMPLETO, NA ONIPRESENÇA DE SUA HUMANIDADE, em seu SACRIFÍCIO ETERNO, irrepetível e incruento, não em sua memória póstuma e finda. Negar o sinal presencial do Cordeiro de Deus é regressar ao culto PAGÃO de oferta simbólica de comida, o que é condenável pelas Escrituras: 

Não te alegres, Israel! Não exultes COMO OS PAGÃOS! Porque te prostituíste, afastando-te de teu Deus. […]; E amaste o salário impuro em todas as eiras de TRIGO. Não farão ao Senhor libações de VINHO, nem oferecerão sacrifícios em sua honra. O SEU PÃO SERÁ COMO UM PÃO DE LUTO: todos OS QUE DELE COMEREM SE CONTAMINARÃO. Essa REFEIÇÃO é para seus APETITES, NÃO PARA SER APRESENTADA NA CASA DO SENHOR; que farão no dia da Solenidade, no dia de festa, consagrado ao Senhor?” (Oseias 9. 1 e 4)”

Eucaristia é sinal da Onipresença material do Verbo Encarnado, sendo este sacramento, necessário para ressurreição da carne, pois consoante disse o Verbo: QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE TEM VIDA ETERNA; E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA, POIS MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE5 UMA COMIDA E O MEU SANGUE, VERDADEIRAMENTE UMA BEBIDA.(São João 6. 54 e 55)

Assim, fora ensinado infalivelmente pela Tradição Apostólica e Magistério Católico, testificados nas Escrituras: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E o pão, que partimos, não é a COMUNHÃO DO CORPO DE CRISTO? (I Coríntios 10, 16)”

 


1 Filebo (Ed. Vrin, Partis 1.999, p. 252)

2 Obras Aristotélicas. De Memoria (Ed. Bekker, ano 1.830, p. 499-453)

3 Primeira tradução das Escrituras originárias do grego para a língua latina, datada dos anos 300, realizada por São Jeronimo. (anos 347-420)

5 “Pois a MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE UMA COMIDA, E MEU SANGUE VERDADEIRAMENTE UMA BEBIDA. (Jo 6, 55) verdadeiramente no grego é aléthés (ἀληθής) emprega sentido real, não simbólico.   Comparemos: — “tu és VERDADEIRAMENTE (ἀληθής) O FILHO DE DEUS. ” (Mt 14, 33). E ainda: — “Eu sou a VIDEIRA VERDADEIRA (ἀληθής) (Jo 15. 1). Cristo também utilizou metáforas, comparando-se, por exemplo, a uma “porta: “Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. (Jo 10, 7) Mas a palavra “verdade” aí empregada é AMÉN (ἀμήν) que é a confirmação de uma ideia, e não de uma realidade fática, como aléthés (ἀληθής).

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