A IMACULADA CONCEPÇÃO E SEUS REFLEXOS NA ENCARNAÇÃO DO VERBO

1 – Se a Pessoa Divina de Cristo assumiu um corpo humano semelhante ao nosso, mas sem pecado (Rm 8.3), podemos pensar que antes de assumido, fora esse corpo purificado ou isentado previamente do pecado, pois se a Virgem era pecadora “[…] DO FRUTO DO ÍMPIO SÓ SE PRODUZ O PECADO.” (Provérbios 10. 16)

2No mais, parece que Cristo precisou manter a salvo do pecado, o seu corpo humano, concebido pela Virgem1, o qual sua Divindade assumiu2, pois se dissermos que a Virgem era pecadora, teremos que afirmar que como todas as mulheres, ela concebeu no pecado original3, o qual teria sido transmitido a humanidade que dela nasceu, pois “[…] QUEM É O HOMEM PARA QUE SEJA PURO? E O QUE NASCE DE MULHER PARA QUE FIQUE JUSTO? (Jó 15. 14); “[…] EIS QUE NASCI DA INIQUIDADE, E EM PECADO ME CONCEBEU MINHA MÃE.” (Salmo 51. 3), do que se conclui que jamais o Ser Divino assumiria uma humanidade concebida num corpo pecador, sem antes, saná-la das imperfeições e impurezas de sua concepção.

3 – Além disso, é fato que Maria precisou ser salva, como ela própria disse, “[…] minha alma se alegra em Deus, MEU SALVADOR (Lc 1. 47), e que seus pais eram pecadores, do que se poderia pensar que ela não foi concebida sem pecado.

4 – Por fim, se não houve um justo sequer (Rm 3.10), supõe-se que a natureza pecadora da mãe era incompatível com a natureza santíssima e pura do Filho, do que se presume que o Filho purificou a natureza humana do corpo que assumiu.

MAS EM CONTRÁRIO, sem deixar de ser Deus, Cristo, ao ser concebido tornou-se plenamente homem, e o Deus feito homem que a todos salva em sua humanidade sacrificada (Col 1.22) não poderia necessitar de salvação. Salvar implica ter o pecado removido ou ser colocado a salvo para que este pecado não lhe atinja. Supondo que tenha sido colocado a salvo para que não herdasse o pecado materno, devemos então concluir que Cristo foi salvo, e disso também se tira que ele deva ter morrido para livrar a si próprio desse pecado, pois não existe outra maneira de salvar uma humanidade, senão pelo sacrifício da cruz. Nisso temos um grande problema, pois se o Deus Encarnado fora concebido na mancha do pecado materno, então, o salvador precisou ser salvo das consequências de ter sido gerado nessa mancha, quais sejam, a culpa original e a morte como castigo por essa culpa. Se afirmarmos que Maria era pecadora, teremos assim, necessariamente, que afirmar que Jesus precisou ser salvo.

SOLUÇÃO: Nas Escrituras, além de remoção total da sujeira, a palavra purificar significa também ser sanado da doença ou consertado do defeito, numa alusão ao pecado humano. Nisso se distingue aquele que é totalmente puro em sua essência (mérito côngruo) daquele que é purificado (mérito condigno), pois o que é puro não precisa se purificar, sendo a dignidade do puro muitíssimo superior à do purificado. Purificação é o processo de assepsia daquele que já teve ou possa vir a ter comunhão com coisas imundas e ilícitas. Portanto, todo purificado sai do impuro, quando a doença e a sujeita espiritual e corporal lhes são varridas, depois, ou mesmo antes que estas lhe alcancem. Mas o puro só pode sair do purificado, vez que aquele que é puro em si mesmo, já não depende de ser preservado do contágio do pecado, nem ter em si o pecado removido: “QUEM FARÁ SAIR O PURO DO IMPURO? NINGUÉM! (Jó 14, 4) “QUE COISA PURA PODE VIR DO IMPURO? (Eclesiástico 34, 4)” Maria, vinda do pecado original de seus pais, foi purificada desde a sua origem, para que Cristo, o Santo dos santos fosse completamente puro, concebido na pureza da humanidade sem pecado de sua mãe e na santidade do Espírito Santo, para que a Lei do Pecado e da Culpa não lhe fosse transmitida ao assumir uma humanidade vinda de Adão. Por isso, Deus disse: “[…] TE RECONSTRUIREI, E SERÁ RESTAURADA, Ó VIRGEM DE ISRAEL! (Jeremias 31, 4)” Por isso ainda, “[…] O QUE DEUS PURIFICOU, NÃO CHAMES DE IMPURO,” (Atos 11, 9), no que se responde as questões.

1 – O Cordeiro que salva da mácula não podia em nenhum momento estar sujeito a mácula ou ter necessidade de consertos ou remendos por tê-la contraído, pois, “TU ÉS JUSTO, TU QUE ÉS, E QUE ERAS O SANTO DE DEUS,” (Apocalipse 16, 5), Por isso, os cordeiros animais da Antiga Aliança que prefiguravam Cristo, eram os nascidos sem qualquer defeito ou imperfeição, e que, portanto, não precisavam de reparação, pois se Cristo é remédio, o remédio não pode padecer da mesma doença que o paciente: “OFERECEIS SOBRE O MEU ALTAR ALIMENTOS IMPUROS! E ousais dizer: Em que desprezamos o teu nome? E julgais que a mesa do Senhor seja de pouca importância? Se ofereceis em sacrifício um animal cego, não haverá mal algum nisto? TRAZEIS UM ANIMAL COXO E DOENTE, E NÃO VEDES MAL ALGUM NISSO? MOSTRAIS DESPREZO PELO ALTAR. TRAZEIS ANIMAL roubado, o coxo, o DOENTE. JULGAIS QUE VOU ACEITÁ-LO de vossas mãos? – diz o Senhor.” (Malaquias, 1 – 8.12) Ausência de santidade, justiça e graça é uma fraqueza que coloca vulnerável ao pecado aquele que está para ser concebido no ventre da mãe, e por fim, o põe sobre o contágio concreto do pecado ao ser concebido. Cristo não foi gerado para a ser enquadrado na Lei do Pecado, razão porque, fora sua mãe isentada de toda mácula, fato que a impediu de transmitir ao Filho, a condição da culpa original. Cristo não poderia trazer em si imperfeição ou ser vulnerável ao pecado ao ponto de ter que colocar sua humanidade a salvo da mancha materna, pois tal condição significaria imperfeição.

2 – É privado de graça, santidade e justiça, todo aquele que é gerado na humanidade transgressora de Adão. E quem sofre essa privação tem seus filhos gerados sob o domínio do pecado, chamado original, que está no indivíduo desde sua origem (concepção), o qual será causa da prática da maldade quando atingida a idade da razão. Cristo não podia ser concebido sem estar unido à carne de Maria, e unir-se a carne de uma pecadora implicaria receber dela a herança familiar do pecado original, transmitido na comunhão carnal do filho com a mãe, por ocasião da concepção, pois “[…] COMO PODE O NASCIDO DE MULHER SER PURO? ” (Salmo 51.5). Tivesse que impedir nele a transmissão do pecado vindo de sua mãe, ele não seria Cordeiro Perfeito, com pureza absoluta para ser ofertado em sacrifício digno a Deus, porque estar vulnerável ao pecado é pena decorrente da desobediência adâmica, e toda pena precisa de redenção. Mas Cristo não poderia necessitar de redenção, porque Salvador Perfeito é o que a todos salva sem precisar salvar a si próprio, e por isso, não poderia existir nele nenhuma pena a delir, mas graça, santidade e justiça em abundância, razão porque, Deus limpou seu Santuário terrestre, o ventre da Virgem, no que se profetizou: “CONSTRUÍ UM SANTUÁRIO, QUAL UM CÉU, ESTÁVEL COMO TERRA, FIRMADO PARA SEMPRE.” (Salmos 77, 69); “[…] “ELE CONDUZIU-ME AO SANTUÁRIO, O QUAL SE ACHAVA FECHADO. O SENHOR DISSE-ME: ESTE PÓRTICO FICARÁ FECHADO. NINGUÉM O ABRIRÁ, NINGUÉM AÍ PASSARÁ PORQUE O SENHOR, O DEUS DE ISRAEL AÍ PASSOU,” (Jeremias 44,1 e 2) Preservando a mãe da mácula original, a humanidade do Filho nela gerado não ficou sequer por um instante vulnerável a transmissão do pecado materno, sendo a humanidade da mãe, o escudo que Deus preparou para proteger a humanidade do Filho, no que fora profetizado que […] O SENHOR CRIOU UMA COISA NOVA NA TERRA: UMA MULHER PROTEGE A UM VARÃO. (Jeremias 31.22)

3 – A pureza da Virgem não decorreu da natureza familiar, mas da providência Divina que lhe concedeu uma salvação especial, preservando do pecado a humanidade na qual o corpo humano de Cristo seria concebido. Cristo, sendo Salvador Perfeito, não poderia necessitar de salvação, razão porque, afastá-lo ao máximo do pecado, implicava afastar do pecado ao máximo, a mulher em cuja carne ele seria concebido. Por isso, quando diz a Escritura que Deus colocou abismo entre a mulher e a serpente, equivale também a dizer que colocou abismo entre o que descende da Mulher que é Jesus, o redentor; e o descendente da serpente que é o pecado, pois a palavra ódio na Escritura, também significa incompatibilidade ou separação: “[…] Então disse o Senhor a serpente: COLOCAREI ÓDIO ENTRE TI E A MULHER, ENTRE A DESCENDÊNCIA DELA E A TUA DESCENDÊNCIA; (Gênesis 3. 14 e 15) Ensinou o Beato Duns Scotto, “[…] se a uma pessoa é dada a graça de nascer sem pecado algum, não será por mérito próprio, mas por mérito de Jesus, pois teria o pecado original se Cristo não o preservasse com a graça. Se ele pode conferir a graça no último instante de vida, não poderia conferir no primeiro instante de vida?” Maria foi totalmente preservada do pecado antes que o pecado lhe atingisse, pois não convinha que Cristo ficasse um só momento exposto ao pecado pela ligação de sua humanidade com a humanidade de uma mãe pecadora.

4 – Há de se entender o que disse o Santo Apóstolo quando narra que nunca houve um justo sequer, pois as próprias Escrituras, aparentemente, contradizem-no: […] “O Senhor disse a Noé: “Entra na arca, tu e toda a tua casa, porque TE RECONHECI JUSTO DIANTE DOS MEUS OLHOS, entre os de tua geração. (Gênesis 7, 1)” Não há contradição posto que Paulo ensina que “NÃO HÁ UM JUSTO SEQUER POR MÉRITO PRÓPRIO“. Isso, todavia, não se aplica aqueles dotados da justiça, pureza e graça por participação nos méritos do Cordeiro (mérito condigno), como foi o caso de Noé e da Santíssima Virgem, esta, mais ainda, dado que seu ventre fora o Templo Sagrado para a humanidade que Deus assumiu, na qual morreu e ressuscitou para nos salvar. No mais, conforme Duns Scotto (anos 1.266 – 1.308), “NÃO SE PODERIA TER CRISTO COMO SUMO SALVADOR, E SENHOR SUPREMO SOBRE O PECADO, SE APENAS REDIMISSE O PECADO JÁ PRATICADO, E NÃO PUDESSE PRESERVAR AO MENOS UMA CRIATURA DA MÁCULA DO PECADO.”


1 Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará ‘Deus Conos­co.” (Isaías 7, 14) “Cristo recebeu da virgem o seu corpo, (Santo Agostinho, Comentário ao Livro de Gênesis. p. 188, Cap 49.3.) “Pois, não quis apenas estar num corpo, nem quis somente aparecer. Efetivamente, teria podido, se quisesse, apenas aparecer, ou realizar esta teofania através de um ser mais poderoso que o homem. Assumiu, no entanto, um corpo como o nosso e não o fez simplesmente, mas o quis nascido de uma virgem sem pecado, imaculada, intacta. Era puro (cf. 1Pd 1,18) o corpo. Sendo poderoso e demiurgo do universo, na virgem para si edificou (cf. Hb 9,24) qual um templo, um corpo. Dele se apropriou, fê-lo um instrumento para se dar a conhecer e onde habitar. (Pregação Apostólica, Santo Irineu de Lyon, p. século II, Cap. 33, p. 56)

2 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.* (São João 1, 1)” E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (São João 1, 14)”

3 O gênero humano inteiro é em Adão como um só corpo de um só homem. Em virtude desta “unidade do gênero humano”,todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como todos estão implicados na justiça de Deus. (Catecismo P.29.7 Transmissão do pecado original a todos os homens – §404)

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