PUNIR O MAL E RECOMPENSAR O BEM EXIGE CULPA PRÓPRIA E MÉRITO PARTICIPADO.

Resposta ao Livro de Calvino. As Institutas. Cap. V, Livro II p. 80ss. – Se sem liberdade de escolha, é justo o castigo ou a recompensa.

1 – Alguns dizem que se Deus salva pelos méritos Dele (não nossos); estes méritos não dependem da nossa vontade ou livre escolha.

2 – Argumentam que o mérito de Cristo é como se fosse nosso, sem ser,[1] e nossa recompensa em razão dele é mera liberalidade Divina.

3 – Ensinam que se o homem desejasse livremente o Bem que há em Cristo, pelo qual somos recompensados, o mérito da salvação não seria de Jesus, mas da vontade humana por ter desejado esse Bem.

4 – Por fim, acreditam que o castigo nos é infligido pela culpa oriunda do pecado, pouco importando se o pecado se deu de maneira livre.[2]

Mas em contrário, o conceito de justiça é dar a cada um o que lhe convém, razão porque, convém ao culpado o castigo e ao justo a recompensa,[3] como disse o profeta Isaías, “[…] O JUSTO COMERÁ DO FRUTO DE SUAS OBRAS.[4]

SOLUÇÃO: Dar ao injusto a recompensa continuando ele na injustiça, significaria dizer que o mérito do justo é desnecessário e que culpa e inocência são medidas com mesmo peso. Justiça é reparar o mal causado, bem como, recompensar o Bem realizado. Mas nem o mal, nem o Bem, podem surgir nos atos humanos por coação. O Bem alheio torna-se um mal para aquele que NÃO o quer em si, e não dar ao pecador a possibilidade de escolher o Bem de Jesus, seria roubar-lhe o direito de participar da Bondade. Quem recebe um Bem alheio, mas não o toma para si como propriedade, o rejeita. O Bem que o pecador recebe e não o toma, só o torna mais culpado diante de Deus por testemunhar a amizade persistente e inabalável com o que é mal e corrompido. Não desejar, e não aderir ao Bem que lhe é dado já seria um ato mau, um pecado por si só. Desejar de forma livre e pessoal o mal ou participar livremente do Bem é o que legitima punição ou recompensa, como ensinou Agostinho: “[…] se o homem carecesse do livre arbítrio da vontade, como poderia existir o Bem da Justiça, condenando os pecadores, e premiando as boas ações? A conduta desse homem não seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária. O castigo, como a recompensa, seria injusto se o homem não fosse dotado da vontade livre. (Livro II –  DO LIVRE ARBÍTRIO. Cap. I p. 39, Deus é o Autor do Livre Arbítrio). Disso vem respostas aos argumentos acima.

1 – Que nenhum homem tem mérito próprio para dar a Deus para obter sua salvação é uma verdade Católica, assim como, o fato de que Deus nos salva nos méritos de Cristo.[5] Porém, dizer que para se ligar e se beneficiar desses méritos não dependeria do consentimento é erro crasso. Ora, a herança é mérito do pai deixado aos filhos, e sendo a salvação a herança deixada por Cristo,[6] esta, embora não dependa do mérito dos filhos[7] por ser prêmio imerecido, dependerá dos filhos aceitá-la. Tanto assim, que condenados são os que a rejeitam livremente,[8] e salvos os que livremente a recebem.[9]

2 – Somos um só corpo em Cristo. Eis o dogma da COMUNHÃO DOS SANTOS. E como um só Corpo, Cristo é Cabeça, enquanto nós os membros.[10] Ora, as virtudes da Cabeça se comunicam e se partilham por todo o corpo, porque todo corpo é uno e indivisível.[11] Por isso, os méritos de Cristo, necessários a recompensa eterna, estão nos que verdadeiramente permanecem em Cristo como membros no Corpo.[12] Por isso ainda, ousou o apóstolo dizer que “ele não vive mais por si, mas Cristo vive nele,” porque os méritos as virtudes de Cristo estavam nele.[13] Não apontamos para Cristo os méritos que nos salvam, como se fosse algo distante, porque Cristo aplica em nós os méritos Dele.

3 – O mérito é do remédio que cura, não do paciente que a ele reage bem. Mas se o paciente, lúcido, não aceita se remediar, o remédio será inútil.[14] A graça de Deus enquanto remédio, não anula, nem substitui nossa liberdade, mas sara a doença do pecado que nela se instalou, corrigindo-a, e ordena-a às obras da fé que Deus quer realizar em nós, por onde ensinou Agostinho, que pela participação, recebemos de Deus a perfeição e o Bem: “Todo ser mutável é suscetível de perfeição. Ora, coisa alguma pode aperfeiçoar a si mesma, porque ela não pode se dar aquilo que ela não tem. Isso é para que se compreenda que todas as coisas são governadas por uma Providência.” (O Livre Arbítrio. Livro II, Cap 17. P. 86ss)

4 – O homem é tão livre que pode até abrir mão de sua liberdade, colocando-se como escravo do diabo. Logo, essa escravidão não exclui a liberdade individual no ato de pecar, porque o homem se faz escravo por vontade própria, “livremente se ofereceu à obedecer ao mal,”  como ensina Paulo[15], sendo falso que o pecado possa ser punido se não houve vontade livre em realizá-lo.


[1] Quanto aos galardões da retidão, de fato é grande absurdo se confessamos que eles dependem da benignidade de Deus, antes que dos próprios méritos? (Calvino. Institutas. Cap V, Livro II p.80ss)

[2] Em relação aos castigos, responde que eles nos são infligidos com justiça, infligidos a nós de quem emana a culpa do pecado. Ora, que importa se de livre ou servil juízo se peque, contanto que o seja pelo desejo da vontade, (Calvino. Institutas. Cap V, Livro II p.80ss)

[3] Porque faz nossas as graças que nos confere, a recompensa exatamente como se fossem virtudes nossas. (Calvino. Institutas. Cap V, Livro II p.80ss)

[4] “Feliz o justo, para ele o bem; ele comerá o fruto de suas obras. * (Isaías 3, 10)”

[5] O Concílio de Orange (ano 529), “[…] o homem nada faz de bom, exceto aquilo que Deus ocasionou. ” (Cânon 20), ou seja, lhe proporcionou realizar, e não que Deus realizou no lugar deles. E o Concílio de Trento (ano 1.545) reafirmou: “Se alguém disser que sem a inspiração preveniente do Espírito Santo e sem o seu auxílio, pode o homem crer, esperar e amar ou se arrepender como convém para lhe ser conferida a graça da justificação, seja excomungado.” (Cânon 3)

[6]O Senhor mesmo é a sua herança, como ele lhes disse. (Deuteronômio 18, 2)” “Deus me livre de CEDER-TE A HERANÇA de meus pais! ”. (I Reis 21, 3)”

[7] “Israel REJEITOU O BEM, o inimigo o persegue. (Oséias 8, 3)”

[8]  “Jesus, fixando o olhar neles, disse-lhes: “Que quer dizer então o que está escrito: A pedra que os edificadores REJEITARAM tornou-se a pedra angular (Sl 117,22)? (São Lucas 20, 17)” “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.” (São João 1. 1.11)

[9] “Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. (I São João 1. 16) “Porque não ousaria mencionar ação alguma que Cristo não houvesse rea­lizado por meu ministério, para levar os pagãos a ACEITAR O EVANGELHO, PELA PALAVRA E PELA AÇÃO, (Romanos 15, 18)”

[10]“Em UM SÓ ESPÍRITO fomos Batizados, todos nós, para formar UM SÓ CORPO, […] e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. (I Coríntios 12, 13) ” formamos UM SÓ CORPO EM CRISTO, e CADA UM DE NÓS É MEMBRO UM DO OUTRO. (Romanos 4, 5) ” “SOIS O CORPO DE CRISTO, E CADA UM de sua parte, É UM DOS SEUS MEMBROS. (I Coríntios 12, 27)” “Eu sou a videira; vós, os ramos. (São João 15, 5) ”

[11] “Se um membro sofre, TODOS OS MEMBROS PADECEM com ele; e se um membro é tratado com carinho, TODOS OS OUTROS SE CONGRATULAM POR ELE. (I Coríntios 12, 26) ” “Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados, A FIM DE FORMAR UM ÚNICO CORPO. E sede agradecidos” (Colossenses 3.15) ”

[12][…] nós, embora muitos, FORMAMOS UM SÓ CORPO EM CRISTO, E CADA UM DE NÓS É MEMBRO UM DO OUTRO.” (Romanos 4, 5

[13] Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. (Gálatas 2. 20) 

[14] (cf. Étienne.GILSON, “Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, p. 202ss)

[15] “Não sabeis que, QUANDO VOS OFERECEIS a alguém PARA LHE OBEDECER , sois ESCRAVOS daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?” (Romanos 6. 15)

 

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