O SER HUMANO É TOTALMENTE ESCRAVO DO PECADO?

O ser humano estaria totalmente corrompido, e teria sua liberdade completamente escravizada ao pecado?

Lutero deu sua opinião, um tanto infeliz:

“A vontade humana é tão maligna que perdeu sua liberdade, não podendo retomar a um estado melhor. ” (Nascido Escravo. Argumento III, p. 47 De Servo Arbitrio. Resumo de Clifford Pond)

Ora, as tentações demoníacas e as seduções carnais que nos levam ao desejo de pecar, provam que a vontade não está totalmente dominada ou corroída pela maldade, tendo que ser convencida e seduzida, para só então, conduzir-se ao pecado.

O juízo de Deus é realizado sob a baliza das nossas escolhas, que por serem livres, nos tornam responsáveis pelo que escolhemos.

Ninguém é punido por um mal que não praticou voluntariamente, nem recompensado por um bem que não realizou, ou não realizou querendo. Cogitar isso, implica assentir que a Justiça Divina aplicada aos atos humanos seria imperfeita, irracional e injusta, posto que a ninguém é dado receber justa punição por um mal que absolutamente não pôde evitar; nem obter ganho por um bem que absolutamente não desejou, ou que fora realizado exclusivamente por terceiro. O que assim é punido se torna vítima de um juiz tirano, algoz e castigador; e o que assim é recompensado se torna usurpador, por usufruir do mérito alheio sem nada acrescê-lo.[1]

Se a justiça dos tribunais humanos, para ser realmente justa, deve se reger por este princípio de equidade, dirá a Justiça Divina que lhe é muitíssimo superior.

Liberdade é um Bem, uma virtude que Deus infundiu no ser humano para que este pudesse desejá-lo e amá-lo de todo coração, o que significa, amá-lo sem ser forçado, e com sinceridade, e de todo o seu ser:

“[…] AMARÁS ao Senhor teu Deus de TODO o TEU CORAÇÃO, de TODA a TUA ALMA, de TODO o TEU ESPÍRITO e de TODAS as TUAS FORÇAS. (São Mateus 1. 30) ”

Mas a liberdade também o torna o único responsável por suas próprias escolhas.

Todavia, é certo que a liberdade pode criar a falsa compreensão de consistir na faculdade de agir segundo a vontade própria,[2]  sem intervenção ou restrição externa ou interna de ordem moral, legal ou eclesiástica, o que o mundo moderno proclama como “ser livre sem limites”.

Ora, a liberdade sem limite é um bem desordenado,[3] tornando-se um mal por não cumprir seu papel e propósito final de levar o ser humano a querer Deus com sinceridade, pois o que se faz sem limite nada restringe, nada discerne, e não discernindo, não poderá distinguir entre o Bem e o mal. Nela, portanto, são equivalentes os conceitos de maldade e Bondade. Não sendo possível distinguir o Bem, também não será possível conhecê-lo intimamente, o que torna impossível amar a Deus que é o Sumo Bem, porque só se ama de verdade ao que se conhece.

O ato pecaminoso se realiza no âmbito da liberdade humana sem freios ou eixos, a qual se desgoverna por não se enquadrar na lei natural e Divina, vindo assim, a agredir a vontade de Deus.

O pecado nasceu, e ainda nasce da desordem da liberdade ilimitada, que nos traz uma escravidão voluntária de nós mesmos, nos tornando reféns de nossos vícios, impurezas e imperfeições quando nos oferecemos livremente e sem pudores ao pecado, conforme ensina o Apóstolo:

Não sabeis que, QUANDO VOS OFERECEIS A ALGUÉM para lhe obedecer, SOIS ESCRAVOS daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça? (Romanos 5. 16)

Aquele que faz tudo o que quer não é um ser livre, mas escravo de sua própria vontade. Logo, não nascemos escravos, mas escravos nos tornamos deliberadamente quando agimos sem os freios da beatitude.

A escravidão do pecado é, portanto, produto da vontade livre que se deixa escravizar, pois só através da liberdade é que o ser humano se autodetermina à escravidão pecaminosa. Mas se o pecado nasce da liberdade que não vê limites, nos conduzindo à desordem, provado também está que a liberdade da vontade existe, sendo esta a única causa da escravidão daqueles que nesta condição se permitiram estar.

Onde houver excesso ou liberdade desregrada haverá pecado.

Nascer escravo não poderia nos levar a pecar pelo abuso da liberdade.

E como o ser humano foi criado livre apenas para amar a Deus, e fazer a santíssima vontade Divina, abusa da liberdade aquele que se coloca voluntariamente como escravo do que não seja o amor de Deus.

Somente por meio da liberdade desregrada, minamos a nossa resistência ao que é mal, perverso e impuro. Nossa escravidão não é fatalismo de nascença, mas consequência da vontade sem barreiras na santidade e no temor a Deus.

O fato dos demônios terem de usar da tentação para induzir nossa vontade, e nos seduzir para que cometamos pecados, prova que não estamos escravos do mal, senão, até que a nossa vontade livre assim o queira. Ora, nenhum senhor precisaria seduzir ao seu escravo para que este lhe obedeça, senão, apenas ordená-lo, o que demonstra que não somos cativos do pecado, mas apenas inclináveis ao delito, e, portanto, sugestionável à transgressão.

É preciso que se vença nossa vontade livre, atraindo-a à corrupção, para só então, nos fazer pecadores.

Santo Agostinho explica o porquê disso:

Nenhuma alma viciada poderá dominar outra alma munida de virtudes. Qualquer espírito há de ser mais nobre e poderoso que qualquer corpo. Um corpo, seja ela qual for, poderia vencer uma alma dotada de virtude? Evidentemente que não. Portanto, não há nenhuma outra realidade que torne a mente cúmplice da paixão a não ser a própria vontade e o livre arbítrio. ” (O Livre Arbítrio e a Origem do Mal, p. 36 Cap. 11 par. 21c)

A boa razão, orientada pelo sopro Espírito de Deus, dando-nos a consciência do pecado, nos permite saber que podemos livremente renunciar ao que não podemos fazer, ser ou ter. Assim, a vontade livre que se deixa corromper, será a mesma vontade livre que permitirá que a Graça de Deus atue para livrar da corrupção ou impedir que nela caiamos, após tentados ou seduzidos pelos prazeres diabólicos e mundanos.

A liberdade da vontade é um Bem dado ao homem, e conservado, mesmo após a queda no Paraíso, como nos ensinou a Igreja por intermédio do Doutor da Graça:

“Com efeito, há quem use mal das próprias mãos. Realizam com elas ações cruéis ou vergonhosas. Se visses uma pessoa sem pés, afirmarias que lhe falta à integridade do corpo, um bem muito valioso. Entretanto, aquele que se serve de seus pés para prejudicar ao próximo ou se avilta a si mesmo, estaria usando mal de seus pés. Negarias isso? Com os olhos vemos esta luz do dia e distinguimos as diversas formas corporais. São eles elementos de máxima beleza em nosso corpo. Assim, estão eles colocados como no ápice, em tributo à sua dignidade. Seu uso contribui para salvaguardar o homem e trazem eles à nossa vida muitas vantagens. Entretanto, muitos se servem deles para praticarem grande número de ações vergonhosas e obrigam-nos a servir às suas paixões. Ora, compreendes quão precioso bem falta ao rosto quando lhe faltam os olhos. Todavia, se eles existem, quem no-los deu a não ser Deus, o dispensador de todos os bens? Por conseguinte, do mesmo modo como aprovas a presença desses bens no corpo e que, sem considerar os que deles abusam, louvas o doador, de igual modo deve ser quanto à vontade livre, sem a qual ninguém pode viver com retidão. Deves reconhecer que ela é um bem e um dom de Deus, e que é preciso condenar aqueles que abusam desse bem, em vez de dizer que o doador não deveria tê-lo dado a nós. (Santo Agostinho. O Livre Arbítrio e a Origem do Mal p. 89 Cap. 18 par. 48) ”

A liberdade será um bem perfeito se utilizada para sua finalidade que é amar a Deus, pois amar de verdade pressupõe livre escolha, podendo vir a ser um bem desgovernado e imperfeito (mal) quando desvirtuada de seu propósito. Ora, a vontade é indeterminada e incerta até que a razão coloque à sua disposição as opções para que, após um prévio juízo racional avaliativo, se determine, pelo apetite do prazer, alcançar um fim ou outro. (JOVILET. Régis. Psicologia. Livro II. Cap. II, P. 534. DA LIBERDADE)  Quem rouba, determina sua escolha de roubar ou não roubar dentro de um leque de opções informadas pelo intelecto. Porém, se escolhe, e decide roubar, é certo que pelo juízo ele identificou e colocou como fator determinante de sua ação, o efeito prazeroso que sua conduta poderá lhe proporcionar na busca da satisfação de sua ganância financeira. Temos nisso a autodeterminação sensível ou afetiva, onde o domínio da vontade está voltado a satisfação do ego e dos instintos. Mas cogitando não roubar, é certo também que o juízo racional pesou os efeitos prazerosos desse ato em contrapartida ao ônus espiritual (restrição beatífica), social, legal ou pessoal (restrição ética ou moral) que essa ação lhe custará, o que lhe faz deliberadamente abandonar a ideia e desistir de levar à frente a ação criminosa.

A história da humanidade revela que essas duas opções são plenamente possíveis, e acontecem cotidianamente, provando mais uma vez, ser falsa a tese de Lutero, de que o ser humano estaria sob domínio absoluto do pecado. Fosse totalmente dominado pelo pecado, não haveria sequer vontade para a praticar o mal, pois a vontade completamente escravizada não é sequer vontade, mas ação coagida por um comando que transformaria o ser humano num ente mecânico.

Só pecamos quando livremente nos ofertamos ao mal, posto que toda oferta é um ato de disposição da vontade pessoal e livre.

“Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, de modo que obedeçais aos seus apetites. Nem OFEREÇAIS os vossos membros ao pecado, como instrumentos do mal. Oferecei-vos a Deus, como vivos, salvos da morte, para que os vossos membros sejam instrumentos do bem ao seu serviço. O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a lei, e sim sob a graça. […] “Não sabeis que, quando vos OFERECEIS a alguém para obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?

É certo que a razão natural não pode conhecer a Deus e as leis divinas, mas pode por ela própria conhecer os padrões da ética e do pudor coletivo e individual.

Ética e pudor é lei natural, impressa por Deus na razão de todo ser humano. (Rm 2. 14 e 15)

Para se livrar do pecado ou não se escravizar nele, é que o homem tem que ser livre para lutar contra as tendências de sua própria vontade. A graça de Deus que nos deu a liberdade da vontade, deu-nos também o juízo racional quanto aos efeitos dessa vontade livre aplicada dentro de uma realidade prática. E, dentro disso, exercer a faculdade de agir ou não agir, buscar ou renunciar, querer e não fazer ou mesmo não fazer querendo.

Não devemos confundir a vontade desorientada pela ausência de Deus, que busca o Bem naquilo que é mal, com a total ausência de vontade.

Não está excluída da justiça Divina, a vontade livre do ser humano em buscar o Bem que só Deus, pela Graça, poderá com ele, e nele realizar.

A razão não conhece aquilo que não deseja, e só se deseja aquilo que só a razão nos informa como algo desejável. E só se conhece o que se quer conhecer, seja o pecado, ou a santidade.

O conhecimento que não se deseja, não pode ser imposto forçosamente de maneira arbitrária e brutal.

Somos livres para escolher, mas podemos nos tornar escravos de nossos próprias escolhas.

 


[1] Nossa salvação é Teândrica, feita por Deus com a adesão do ser humano. Deus quer nos salvar, mas não quer nos salvar sozinho, mas para a justiça sem perfeita, ele por dá possibilidade, por meio de Graça, de sermos acrescentados ao seu plano de salvação:

[2] SARTRE. L’etre et le Néan. Paris. 1.943.

[3] Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica. Ia Q 82-83, e Ia e IIae Q 6-17. GILSON, Étienne. O Espírito da Filosofia Medieval. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, p. 170. 2.006.

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