IMORTALIDADE DA ALMA E A JUSTIÇA ETERNA DE DEUS SOBRE OS ATOS HUMANOS.

 

O pecado que nos condena só finda pelo perdão conferido ainda nesta vida, só deixando de existir pela misericórdia Divina. Todo pecado é um insulto contra Deus, sendo que o pecado NÃO PERDOADO, torna-se ofensa perpétua e irreparável após a morte do pecador:

“[…] TU SELASTE como numa bolsa os MEUS CRIMES, puseste um sinal sobre minhas iniquidades.” (Jó 14, 20)

O pecado não se repara com a morte corporal do pecador, mas somente com o perdão conferido por Deus: “SEMPRE SOU EU QUEM DEVE APAGAR TUAS FALTAS, e não mais me lembrar de teus pecados.” (Isaías 43, 25)

Se há esquecimento de Deus quanto aos pecados já perdoados, haverá lembrança dos pecados impenitentes, cuja ofensa será tomada por eterna. Logo, se a ofensa tornou-se permanente, permanente também será o castigo de Deus sobre o ofensor.

NÃO PERDOEIS SUA INIQUIDADE e que SEU PECADO JAMAIS SERÁ ESQUECIDO DIANTE DA VOSSA FACE, tão grande é o escândalo que fizeram diante dos construtores! (Neemias 3, 37)

Na juízo perfeito de Deus, a duração do castigo é proporcional a duração do dano causado pelo pecado, como já lecionava a Igreja através de São João Crisóstomo:

“Alguns dizem: empreguei poucos instantes em matar; e por esses instantes de pecado deverei sofrer pena eterna? SIM porque Deus julga o vosso pecado, NÃO PELO TEMPO QUE DESPENDESTE EM COMETÊ-LO, MAS PELO MAL QUE REALIZA.” (ano 347, cit. in: O INFERNO – SE EXISTE, O QUE É, E COMO PODEREMOS EVITÁ-LO)”

E assim, todo aquele que morre sem o perdão, leva consigo para sempre o seu pecado sem possibilidade de desfazê-lo, ficando sujeito eternamente à Justiça Divina.

De outro modo, quem morre em comunhão com Cristo levará eternamente a Glória dos justos.

IMORTALIDADE é a sã doutrina apostólica na qual a alma racional se mantém consciente após a morte da carne para viver eternamente no céu se absolvida dos pecados, ou no inferno se condenada.

O ser humano não é só alma, nem só corpo, mas a fusão de um com outro perfazendo o indivíduo completo: “[…] o corpo se une a alma para formar e constituir o homem completo e total.” (Santo Agostinho. De Civita Dei X, 29, 2, ano 350 DC)

O ser humano, como todos os seres vivos é substância e subsistência.

O corpo é a substância visível e material,[1] sendo a subsistência ou alma, o elemento imaterial que habita a massa corporal, atuando como força animadora invisível que ativa o corpo.

Alma é a vida, o sopro da vida que é o princípio animador de todo corpo animal, vegetal (animus) e humano (anima).

Corpo e alma (vida) compõem a estrutura íntegra do ser vivo.

Não é por si só, a alma, um componente espiritual, mas uma força anímica natural que torna todo corpo vívido para fazer vivente todo ser, sendo produzida com o corpo numa operação conjunta entre Deus e a espécie, pois dos pais vieram os corpos (crescei e multiplicai, Gn 9, 7), mas de Deus advém a alma (faço morrer, e faço viver, Dt 32, 39)

“O Senhor é o que TIRA A VIDA E A DÁ.” (I Samuel 2, 6)

“Eu sou o único, FAÇO MORRER[2] E FAÇO VIVER.” (Deuteronômio 32, 39)

Porém, a alma humana enquanto elemento natural, tornou-se um elemento espiritual quando Deus imprimiu nela sua imagem e semelhança, e seu Espírito passou a habitá-la.

Na alma encontramos as virtudes Divinas e os vícios pecaminosos da personalidade, sendo que no corpo temos a operação que é o meio pelo qual se realizam. Ora, o que não pode ser criado pelo homem, por ele também não pode ser extinto.  Apenas o Criador pode constituir e extinguir a alma de qualquer ser vivente:  “Não temais os que matam o corpo, mas não têm poder para matar a alma. Temei antes, aquele que PODE DESTRUIR no inferno tanto a alma como o corpo.” (São Mateus 10, 28)

Mas se é certo que se Deus pode matar a alma, também é certo que Ele detém o poder de fazê-la imortal, para usufruir da sua Glória, ou para receber o sufrágio da sua Justiça.

Constituindo-se o indivíduo (hominis uno) em corpo e alma, sendo esta alma a vida que anima esse corpo, é o Espírito invisível de Deus, o qual nela habita, que a imortaliza, pois tudo que abriga a imortalidade torna-se imortal:

“TODO O VOSSO SER, ESPÍRITO (pneuma), ALMA (psuch?) E CORPO (s?ma), seja conservado irrepreensível.” (I Tessalonicenses 5, 23)

Por estarem ligadas definitivamente ao Espírito Divino que em nossas almas fez domicílio, é que essas almas foram elevadas à condição de imortais: “A Verdade (Espírito Divino) não perece de modo algum; e não pode estar nas coisas que perecem; por isso a alma humana é imortal.” (Solilóquios I, 15, 29 e II 2, 22 e 13, 24, ano 360. Santo Agostinho)

Existe notável diferença entre a alma humana e dos demais seres, posto que os vegetais e animais brutos possuem almas sensíveis e instintivas, geradas em sua própria matéria corporal: “Nem a planta é alguma coisa, nem quem rega, POIS DEUS QUE DÁ O CRESCIMENTO. ”  (I Coríntios 3, 7)

Leciona Santo Tomás: “[…] dizer que o homem e os outros animais têm o princípio da geração semelhante é verdade quanto ao corpo, pois todos foram feitos da terra. Não quanto à alma, pois a alma dos brutos é produzida por uma QUALIDADE CORPÓREAA Escritura diz dos animais: PRODUZA A TERRA ANIMAIS VIVENTES. Mas quanto ao homem diz: ? INSPIROU NO SEU ROSTO UM ASSOPRO DE VIDA. Por onde, conclui Salomão, que ao pó se retorne a terra de onde era, e o Espírito volte para Deus que o deu. A origem da vida é semelhante quanto ao corpo (ECLESIASTES 3, 19), não quanto a alma, pois o homem intelige e os brutos não. Semelhante lhes é a morte do corpo, não da alma.” (Suma Teológica, Q 75, art. 6° Tratado sobre o Homem, ano 1.246)

Pela NATUREZA não há distinção entre as almas dos seres humanos e dos irracionais: “Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. Tanto morre um como o outro. A ambos foi dado o mesmo sopro. A vantagem do homem sobre o animal é nula, porque tudo é vão. Todos caminham para um mesmo lugar. TODOS SAEM DO PÓ e PARA O PÓ VOLTAM.” (Eclesiastes 3. 19 e 20)

Como diz a Escritura: “E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja SOPRO DE VIDA, eu dou toda erva verde por alimento. E assim se fez. (Gênesis 1,30)

Mas SOBRENATURALMENTE, o sopro que Deus dá ao ser humano é sagrado, especial, pois nesse sopro o propósito da Divindade era lhe imprimir a sua imagem:

“Oráculo do Senhor, que estendeu os céus, firmou a terra e formou o SOPRO ESPÍRITO que o homem tem dentro de si. (Zacarias 12, 1)”

O ESPÍRITO de Deus me criou e o SOPRO do Todo-poderoso me DEU VIDA. (Jó 33, 4)

E a diferença entre o sopro conferido a vida animal e o sopro de vida que Deus inflou o ser humano é ensinado no Livro de Jó:

Mas É O ESPÍRITO DE DEUS NO HOMEM, e UM SOPRO do Todo-poderoso que dá a INTELIGÊNCIA. (Jó 32, 8)

Se o sopro de Deus no ser humano, além de dar vida, infundiu-lhe o Espírito no qual inteligência e ciência fizeram abrigo, é certo que a sabedoria vinda do Espírito, a qual habita na alma, lhe imortaliza.

A vida ou alma, e o Espírito Divino estão unidos inseparavelmente no ser humano, sendo que na morte, o espírito unido à alma retorna ao Criador:  “Meu espírito não perma­necerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de cento e vinte anos”. (Gênesis 6, 3)” “[…] antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu.”  (Eclesiastes 12. 7)”

O que distingue a alma bruta e a humana é o Espírito de Deus, soprado nesta de modo extraordinário, tornando-a partícipe das ciências e virtudes Divinas como caridade, justiça, perdão, consciência da retidão moral, além do amor a Deus e ao próximo, dentre outras. Daí, a nossa alma deixou de ser parte da matéria natural bruta para se tornar elemento ESPIRITUAL, na unidade com o Espírito de Deus que nela passou à habitar[3], dando-lhe a grandeza necessária para que possamos representar a imagem de Deus em beatitude.

Enquanto a alma humana se tornou espiritual, nos animais e vegetais continuou apenas como elemento da vida corporal, a qual, por óbvio, se encerra na morte física.

Dos três elementos da constituição humana, dois são produzidos pela matéria natural, sendo um, a matéria visível (corpo), e outro a matéria invisível (alma ou vida), ao passo que Deus ainda lhe inseriu um elemento sobrenatural, seu próprio Espírito, o qual habita na alma moldando-a à sua imagem, depositando nela (em potência) as faculdades nobres que lhes permitirão interagir de maneira racional (em ato) com o ser Divino.

Em resumo, o sopro Espírito é propriamente a imagem de Deus plantada em nossa alma num sopro de vida.

Todavia, findando a matéria corporal nos seres humanos, finda também a utilidade da alma espiritual neste corpo, e como disse o sábio: “[…] antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; E ANTES QUE O SOPRO DE VIDA RETORNE A DEUS QUE O DEU,” (Eclesiastes 12, 7)

Deus soprou diretamente no homem, retirou de si, e despejou o interior do ser humano sua própria imagem, imprimindo-lhe no sopro de vida o seu Espírito, razão porque, na morte do corpo, tanto as almas dos justos, quanto dos réprobos serão conduzidas à Deus para o encontro definitivo com o seu destino final. (Eclesiastes 12,7)

Já as almas das feras, nas quais Deus NÃO FEZ habitação ou repouso, ligadas apenas aos frágeis instintos corpóreos morrerão com o perecimento do corpo, e não regressando para Deus, se extinguirão na decomposição da matéria em que repousam, exaurindo-se no pó da terra tanto o corpo, quanto a alma:

Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam animais grandes e pequenos. Todos esses seres esperam de vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens. Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram.” (Salmo 103. 25 à 29)

Espírito é o fragmento de Deus no ser humano, inserido nas almas daqueles criados à sua imagem, pois o primeiro da nossa espécie concebeu-se assim:

“[…] formando o homem do barro da terra, e INSPIROU-LHE NAS NARINAS UM SOPRO DE VIDA. ” (Gênesis 2) “[…] aquele que o formou, lhe INSPIROU UMA ALMA ATIVA E LHE INSUFLOU O ESPÍRITO VITAL. (Sabedoria 15,11).

Mas do contrário, aos demais seres, disse Deus: — “[…] produza DA TERRA os seres vivos, segundo a sua espécie. ” (Gênesis 1, 24)

Os seres brutos foram produzidos exclusivamente da terra, mas o ser humano não só do pó da terra, como também do Espírito celestial que lhe imprimiu a imagem do seu Criador. Por não possuírem um SOPRO-ESPÍRITO, todas as operações da alma nos corpos dos animais irracionais não lhes são ordenadas pela razão, nem pela moral, mas tão somente pelo instinto natural.

Ensinou Tácio, o assírio: “[…] gregos, a alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela TORNOU-SE CAPAZ DE NÃO MORRER […] Ela morre[4] com o corpo se não conhece a Verdade; ressuscita novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber COMO CASTIGO, A MORTE NA IMORTALIDADE, […] “por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se tem conhecimento de Deus.”  (Discurso Contra os Gregos, Cap XIII, anos 120-180 DC)

Diz a Escritura:

“[…] a IMORTALIDADE se encontra na ALIANÇA com a SABEDORIA,” (Sabedoria 8.17)

A Sabedoria é uma figura, um tipo do próprio Deus, que imortaliza nossas almas por fazê-las sua imagem e morada: “A SABEDORIA é um ESPÍRITO que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios.” (Sabedoria 1.6)

Com a Sabedoria ?que é o próprio Deus? habitando em nossas almas, obteremos a ciência superior pela qual nos será possível ter a percepção[5] sobre Deus, as coisas de Deus e sobre nossa própria condição diante Dele. Essa ciência vinda do Espírito, nos torna não apenas conhecedores, mas partícipes da Lei Eterna, para que assim, conduzida a alma humana até Deus por meio do Espírito após a morte do corpo, o justo juiz retribua com a ressurreição para a vida ou perdição eterna: “[…] pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, QUE RETRIBUIRÁ a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS.  (Romanos 2.5,6)”

Apenas por metáfora, são os condenados considerados “mortos” para Deus. Não porque desaparecem, mas porque eternamente ficarão impedidos da comunhão com o Sumo Bem, e consequentemente, impedidos da vida eterna com amor e felicidade:

CONHEÇO AS TUAS OBRAS: TENS REPUTAÇÃO DE VIVO, MAS ESTÁS MORTO. Sê vigilante, e confirma os que morrerão, porque não achei tuas obras perfeitas diante do Meu Deus” (Apocalipse 3, 1 e 2)

O significado de morte é separação de Deus, nunca aniquilação total, como resta provado na parábola do filho pródigo que abandonou o pai:

“O filho lhe disse, então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. ESTE MEU FILHO ESTAVA MORTO, e reviveu; TINHA SE PERDIDO, e foi achado. E começaram a festa.” (São Lucas 15. 21-24)

Mortos são os pecadores, que na vida não procederam segundo a justiça, e morreram sem a beatitude que lhes conduzissem à felicidade eterna. Para eles não há recompensas: “A REGIÃO DOS MORTOS está aberta diante dele, os INFERNOS NÃO TÊM VÉU. (Jó 26, 6) “A HABITAÇÃO DOS MORTOS, O SEIO ESTÉRIL, o solo que a água jamais sacia e o fogo que nunca diz: basta! (Provérbios 30, 16)”

Deus não deixará impunes os maus, e a punição é medida na proporção dos pecados não perdoados, cujos efeitos se perpetuaram: “Assim, concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e PROCURAR O BEM-ESTAR DURANTE SUA VIDA” (Eclesiastes 3, 12), pois Deus […] NÃO O DEIXARÁ IMPUNE; és bastante sensato para saber como o terás de tratar; FARÁS DESCER, com sangue, as suas cãs À HABITAÇÃO DOS MORTOS. (I Reis 2, 9) “O Senhor, não fique eu envergonhado, porque vos invoquei: Confundidos sejam OS ÍMPIOS E, MUDOS, LANÇADOS NA REGIÃO DOS MORTOS. (Salmo 30, 18)”

Que a morte os colha de improviso, que eles DESÇAM VIVOS à mansão dos mortos. PORQUE ENTRE ELES, EM SUAS MORADAS, SÓ HÁ PERVERSIDADE. (Salmo 54, 16)”

“O caminho dos pecadores é calçado de pedras unidas, mas ELE CONDUZ À REGIÃO DOS MORTOS, ÀS TREVAS E AOS SUPLÍCIOS. (Eclesiástico 21, 11)”

Os ímpios se sujeitarão ao perecimento eterno por terem se excluído voluntariamente da graça e misericórdia: “[…] vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à verdade e seguidores do mal. TRIBULAÇÃO e ANGÚSTIA sobrevirão a todo aquele que PRATICA O MAL.” (Romanos 2.7, 8 e 9) “Assim é aquele que o Senhor repele, que carrega o castigo de seu pecado; é como um eunuco ao abraçar uma virgem. ” (Eclesiástico 30. 20 e 21)

Ao ser humano só é dado acessar Deus, e com Ele se comunicar por intermédio do próprio Deus.  Mas isso só é possível porque lhe fora dada uma imagem de Deus ?chamada ESPÍRITO? impressa em sua ALMA, num espelho que reflete o próprio Deus que nela reside.

Enfatiza Santo Agostinho: “Deus fez o homem a sua IMAGEM E SEMELHANÇA, efetivamente CRIOU NELE UMA ALMA APTA PELA INTELIGÊNCIA E PELA RAZÃO, a elevar-se acima de todos os animais. Tendo formado o homem do pó, insuflou nele essa alma.” (Civitae Dei, 22, 23)

Acusam-nos, alguns, que a imortalidade seria atributo apenas de Deus, e, portanto,  não haveria imortalidade na alma humana. Ora, a IMORTALIDADE EM DEUS é consequência da sua eternidade. Já a alma humana é imortal, não por ser eterna, como ensinavam os platônicos,[6] mas porque quis o Criador imortalizá-la desde sua criação, dando-lhe participar do seu Espírito imortalizador para imortalizar não só a alma, mas também o corpo que a abriga:

“Deus criou o homem PARA A IMORTALIDADE, E O FEZ À SUA IMAGEM. (Sabedoria 2, 23)”

O juízo contra a humanidade adâmica é a morte do corpo, não da alma: “[…] voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (Gênesis 3, 19)

Ensinou Meliton de Sardes: “Toda carne, pois, caiu sob o pecado, e todo corpo sob a morte. Toda alma foi arrancada de sua morada de carne, e o que foi tirado da terra se dissolveu na terra. Estava destruída a bela harmonia, desfeito o belo corpo.” (Mistérios Pascoais, Frag. ano 190 D.C.)

Ensinam ainda os heréticos que a essência do ser humano seria só alma, enganando-se novamente.

Toda alma precisará se encarnar num corpo para só depois, formar o ser humano completo, conforme Santo Tomás:

“Pode-se entender que uma alma seja um homem? Isso se poderia sustentar se se estabelecesse que todas as operações da alma sensitiva fosse só dela, sem corpo. NÃO SENDO OS SENTIMENTOS, OPERAÇÕES SÓ DA ALMA, MAS CONJUNTA (corpo e alma), é manifesto que o homem não é só a alma, mas algo composto de alma e corpo. ” (Suma Teológica, Q 75, art. 4, Tratado sobre o Homem)

Como disse ainda Agostinho: “O corpo É O MENSAGEIRO da alma. ” (De Ord. II e XI, 32)

Alma não abrange matéria e forma visível, as quais consistem no corpo, o qual é a ferramenta biológica onde a natureza anímica invisível da vida age.

Espírito e alma nos seres humanos compõem um mesmo elemento imaterial, e juntos, constituem-se na alma espiritual que encarna e habita no corpo.

Só após o fôlego ou sopro de vida interagir na matéria corporal de Adão, é que este fora chamado por Deus de “alma vivente” e considerado um ser completo, perfeito e vivo, cuja alma, operando e realizando por meio da matéria corporal atos concretos, permitiu-lhe interagir não apenas com a natureza criada, mas também com o próprio Deus.

O ser humano não é um corpo apenas, senão seria um CADÁVER; nem apenas alma, senão seria um ser FANTASMAGÓRICO.

A alma é um dos elementos do ser, e o que é elementar não pode encerrar a completude, salvo se desconsiderássemos a matéria corpórea como parte do ser humano, o que não nos é permitido, dada a importância da ressurreição da carne.

Ensinava em sua obra “Diálogo com Trifão,” o sábio São Justino:

“Ele me perguntou:
— Qual é a nossa semelhança com Deus? Será que a alma é divina e imortal, uma partícula daquela soberana inteligência, e como aquela vê a Deus, também é possível para a nossa compreender a divindade e gozar a felicidade  que dela provém?
Eu respondi: — Sem dúvida nenhuma.  Mas então, segundo o teu raciocínio, também os animais verão a Deus.
Eu respondi: — Não. Porque o corpo deles, segundo a sua natureza, os impede. Dize-me apenas uma coisa: a alma vê a Deus enquanto está no corpo ou quando está separada dele?
Eu respondi: — É possível para ela, mesmo estando na forma humana, chegar a isso por meio da inteligência. Contudo, desligada do corpo e tornada ela mesma, é aí então que ela alcança tudo aquilo que almejou durante todo o tempo. (Diálogo com Trifão São Justino, mártir, Cap. 4. 1 à 4. p. 81)

— Portanto, esses filósofos nada sabem sobre essas questões, pois não são capazes de dizer sequer o que é a alma.
— Parece que não sabem.
— Tampouco, se pode dizer que ela seja imortal, porque, se é imortal, é claro que deva ser incriada.
JUSTINO: Eu lhe disse: — De fato alguns, chamados platônicos, a consideram incriada e imortal.
Ele perguntou: — Tu também consideras o mundo incriado? Alguns dizem isso, mas eu não tenho a mesma opinião.  JUSTINO — Fazes muito bem. Com efeito, por qual motivo um corpo tão sólido, resistente, composto e variável e que a cada dia morre e nasce, procederia de algum princípio? Todavia, se o mundo é criado, forçosamente as almas também o serão e haverá um momento em que elas não existiram. De fato, foram feitas por causa dos homens e dos outros seres vivos, ainda que digas que elas foram criadas completamente separadas e não junto com seus próprios corpos.
— Parece que é exatamente assim. Então são imortais.
JUSTINO — Não, uma vez que o mundo se manifesta como criado, contudo, eu não afirmo que todas as almas morram. Isso seria uma verdadeira sorte para os maus. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento. Desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas. ” (Diálogo com Trifão, capítulo 5. 1 até 3, p. 82 e 83, datação do manuscrito, 150 DC)

E continua: […] cada um caminha para o castigo ou salvação eterna, conforme o mérito de suas ações. (I Apologia, 12.2. p. 25)

Ensinava São Justino, conforme a Tradição da Igreja recebida dos santos Apóstolos, a existência real do inferno como local onde os réprobos sofreriam castigos perpétuos decorrentes da vida que levaram sem fé e obediência:

[…] Deve-se saber que o inferno é o lugar onde serão castigados os que tiverem vivido iniquamente, e não acreditaram que acontecerão essas coisas ensinadas por Deus, através de Cristo.” (I Apologia, 19.8. p. 25)

“Nós afirmamos que isso acontecerá, mas através de Cristo, e que o castigo que receberão em seus corpos unidos às suas almas será eterno, e não só por um período de mil anos, como ele disse. Se alguém diz que isso é incrível ou impossível, fomos enganados e não os outros, até que não sejamos acusados de ter cometido alguma injustiça em nossas ações. (I Apologia, 8.4. p. 23)

Assim está disposta a imortalidade da alma, concebida pela vontade Divina, para o castigo ou glória eterna dos homens:

“[…] eles sofrerão como castigo a PERDIÇÃO ETERNA, LONGE DA FACE DO SENHOR, e da sua suprema glória. ” (II Tessalonicenses 1, 9)

“E estes irão para o CASTIGO ETERNO, e os justos, para a vida eterna. ” (São Mateus 25. 46)

“[…] muitos dos que dormem no pó da terra RESSUSCITARÃO, UNS PARA VIDA ETERNA, E OUTROS PARA VERGONHA E DESPREZO ETERNO. ” (Daniel 12, 2)

 

 


 

[1] Platão, na obra Fédon, ano 339 AC, ensinava que a alma é por natureza, eterna. A Igreja, em contrário, ensina que é mortal, posto que toda obra criada, visível ou invisível, está sujeita a deterioração, sendo que a alma humana é mortal só até receber o Espírito, por ocasião da concepção do ser humano.

[2] Morte é a retirada da alma do corpo. Ressurreição em contrário, sua reinserção.

[3] Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (I Coríntios 3, 16)

[4] Morte não pela desaparição, mas pela ausência de funcionalidade, como diz o  texto sagrado: “Também o seu amor, ódio, inveja pereceram, e já não tem parte alguma para sempre; pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria” (Ecle. 9, 6 e 10). A alma condenada sentirá apenas a Justiça de Deus: “Sobre os ímpios ele fará cair uma chuva de fogo e de enxofre; um vento abrasador de procela será o seu quinhão (Sl. 10, 6); os ímpios perecem nas trevas; (I Sm. 2, 9)

[5] Ciência de Deus, no sentido participar das suas Virtudes e do seu Caráter. Os que não tem a Ciência Perfeita sobre Deus, tem a percepção, como as crianças, os alienados e os silvícolas.

[6] ARISTOTELISMO E PLATONISMO: Duas correntes filosóficas que discutiam a natureza da alma. A aristotélica defendia a MORTALIDADE e a platônica a IMORTALIDADE. A diferença entre filósofos imortalistas e a fé cristã, é que aqueles defendiam que a alma é imortal por ser eterna. Em “Diálogo com Trifão, anos 100 ou 150, S. Justino corrige o pensamento platônico, no sentido da “alma humana ser mortal por natureza,” pois a Igreja Católica sempre ensinou que as almas humanas foram imortalizadas por vontade DIVINA

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