HÁ CONTRADIÇÃO ENTRE PAULO (JUSTIÇA PELA FÉ) E TIAGO (JUSTIÇA PELAS OBRAS)? O ERRO DE LUTERO À LUZ DAS ESCRITURAS.

São Tiago Apóstolo. Filho de Alfeu e Maria de Cléofas.  Bispo de Jerusalém onde fora martirizado no ano 62.

Todo ato humano é uma exteriorização das disposições contidas na vontade e no intelecto.

Toda obra é o conjunto dos atos visíveis e invisíveis1 ordenados a consecução de um fim, atingindo um propósito, criando, alterando ou extinguindo uma realidade. E é esta realidade que sustenta a ideia e o pensamento.2 A fé consiste num dom Divino nos indivíduos, que os move à unirem-se a Deus, tornando unas suas vontades e ações.3  Entender a natureza da fé e dos atos humanos4 é fundamental para compreensão do erro de Lutero, da ação da justiça de Deus, bem como, da inexistência de contradição entre Paulo e Tiago quanto ao modo que essa justiça se realiza.

Disse São Tiago: “Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21) “Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé? (São Tiago 2, 24)”

Já São Paulo aparentemente pontua: “Ora, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi “imputado em conta” de justiça. (Romanos 4. 3 e 4)” “Ante a promessa de Deus, não vacilou, não desconfiou, mas conservou-se forte na fé e deu glória a Deus. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera. Eis por que sua fé lhe “FOI CONTADA” como justiça.” (Romanos 4. 20 a 23) “Quando ela (justiça) foi imputada? Antes ou depois da circuncisão? Depois é que recebeu o sinal da circuncisão, como selo5 da justiça que tinha obtido pela fé, antes de ser circuncidado. (Romanos 4.10)”

Lutero deu seu palpite sobre a aparente “contradição” entre os apóstolos:

“[…] exalto essa epístola de Tiago e a considerado boa […] mas vigorosamente, propugna a lei de Deus. Para fundamentar minha opinião, não a considerado escrito apostólico, pelas seguintes razões. Em primeiro lugar, contrariando frontalmente S. Paulo e toda escritura, ele imputa justiça às obras, dizendo que Abraão teria se tornado justo por suas obras ao sacrificar seu filho. Enquanto isso, S. Paulo, em romanos, ensina que Abraão teria se tornado justo sem obras, exclusivamente por sua fé, pois sua justificação ocorre antes dele sacrificar o filho. […] Esse Tiago não faz outra coisa, senão promover a lei e as obras. ” (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 153 e 154, tradução: Walter Schlupp)

“Daí sucede que somente a fé justifica. (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 131, tradução: Walter Schlupp)

Lutero ridiculariza os ensinos de São Tiago, menosprezando sua Carta a qual denomina “Epístola de palha”.

Em sua incapacidade de harmonizar o pensamento paulino com o ensino de Tiago, opta Lutero por capricho de opinião, descredenciar a autoridade deste, ao afirmar, segundo sua ótica sobre a carta de Paulo aos romanos, que “somente pela fé” o homem será justificado6.

Tal é a teoria da sola fide,7 a qual defende a fé como condição única para que o ser humano se torne justo diante de Deus, vez que Abraão, ao que pareceu, fora justificado antes da sua circuncisão, e antes de aceitar sacrificar seu filho Isaac. Mas essa tese padece de irremediável defeito e incurável incorreção diante da não percepção de que a justiça da fé, outrora atribuída a Abraão, lhe fora num primeiro momento apenas conferida a título de CONFIANÇA (em conta), pois haveria posteriormente de ser CONFIRMADA (provada na prática).

Afirmou Paulo: “Mas aquele que sem obra alguma crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é IMPUTADA EM CONTA DE JUSTIÇA.” (Romanos 4.5)

A expressão em conta” no grego, logizomai (λογίζομαι)8 implica ser creditada ou confiada para ser provada por ações em ocasião oportuna. E a obra que haveria de provar a fé de Abraão, seria a oferta seu filho Isaac em sacrifício:

“Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac.” (Hebreus 11.17 e 18)

O termo “a prova” na língua grega, peirazó (πειράζω)9 significa uma situação à ser testada antes de ser validada. 

Uma fé estéril, impossibilitada de ser exteriorizada na prática por efeitos úteis e justos é vã, não disposta na vontade, nem no intelecto, posto que ainda não nascida na alma. Toda fé há de ser provada (confirmada) por atos para que se alcance um fim, e juntos a fé, a obra da fé e a vontade Divina concorram para a justiça sobre os indivíduos. Para melhor ilustrar essa verdade, analisemos os acontecimentos em torno de Abraão, que o levaram à condição de justo.

Primeiro, haveremos de identificar a finalidade da justiça, conforme propósito de Deus.  Em seguida, a realidade que confirmou Abraão como justo, e, por fim, a causa que o conduziu à essa realidade.

De modo algum se ouse afirmar que era desejo de Deus causar a morte de Isaac pelas mãos de seu pai, Abraão, para só assim atestá-lo na condição de justo. A finalidade do Criador era mostrar o sacrifício de Cristo, através da pessoa de Isaac, e não sacrificar Isaac:

ABRAÃO VIU O MEU DIA e rejubilou. ” (São João 8. 56)

O objetivo de Deus era ensaiar o sacrifício futuro do Cordeiro, no qual seríamos salvos. O nascimento do primogênito legal10 Isaac, fora em razão de apontar para o sacrifício de Jesus. Mostrar na pessoa de Isaac um filho único e primogênito, cujo nascimento fora anunciado por Deus11, que por obediência a Abraão, seu pai, aceitou o madeiro sobre seus ombros,12  e subindo ao cume do monte assentou-se sobre um altar de rocha, colocando sua vida à disposição do pai para o sacrifício.13 Em nenhum momento Deus condiciona a participação de Abraão em sua Justiça por meio da morte de Isaac, e sim pelos atos que lhe dariam a visão futura da morte de Cristo, cujo sacrifício redimiria toda humanidade.

Todavia, não se cogita inútil a obra abrâmica, por não ter consumado a morte de Isaac, vez que esta só não se produziu por intervenção divina, provando que não era desejo de Deus consumar este sacrifício: “Abraão, eis me aqui! Não estendas a mão contra o menino, e não lhe faças mal. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu único filho. (Gênesis 22. 11 e 12) ”

Pela obediência, e não pela morte de Isaac, Abraão confirmou-se  justo, e por sua servidão, Deus revelou sua justiça aos povos dando um ensaio do martírio de seu próprio Filho Divino.

A finalidade da fé, em Abraão, era prová-lo na obediência. 

Partindo da obediência, analisemos a realidade na qual estava inserido Abraão, e pela qual alcançou a justiça.

É certo que para tornar esta obediência realidade, o patriarca inseriu-se num contexto de ações concretas pelas quais, após imputado (apontado), fora atestado (confirmado) por justo. A confirmação da Justiça em Abraão não poderia decorrer de teoria, hipótese ou mera ficção não expressada no mundo real mediante atitudes e decisões de vida, porque do contrário, bastaria Deus lhe indagar:

 —  Abraão, você crê em mim?

E ele responderia:

—  Sim, meu Senhor, eu creio!

Então tudo se resolveria no imaginário e a justiça, nele, seria apenas imputada, mas nunca certificada.

As virtudes internas de Abraão, provenientes de seu credo, exigiam-lhe manifestações explícitas desta fé por atos que incluiriam condutas reais e vívidas.

Todo aquele que se diz fiel não pode agir pelas obras da infidelidade. Nos consolidamos na feitura dos atos da justiça ou nos perdemos na omissão deles.

Ensinou Santo Tomás: “A fé interna, mediante o amor, causa todos os atos virtuosos exteriores, ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2)

Como fiel, Abraão evidenciou todo seu amor e obediência, amando Deus sobre todas as coisas ao ponto de se dispor em dar início ao sacrifício do seu filho, para que o mandamento Divino não se frustrasse:

É nisso que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que NÃO PRATICA a justiça não é de Deus, (I São João 3, 10)

Isso resultou numa série de decisões e atos, dentre eles, ter levado Isaac ao local do sacrifício para ceifar-lhe a vida,14 iniciando os atos de execução,15 preparando contra ele o golpe fatal com um punhal. Se em Isaac, a finalidade de Deus era apresentar o sacrifício de Cristo, os meios para isso foram os atos concretos nos quais Abraão, pai de Isaac, confirmou-se na Justiça na qual outrora já havia sido imputado. Só após Abraão ter se disposto em sacrificar seu filho, e, de fato, praticados atos que permitiriam levar a morte seu primogênito, é que Deus lhe abençoa e lhe confirma como justo.  O que Deus considerou para completar a justificação do patriarca é que este não se recusou em ofertar seu filho Isaac em sacrifício de morte, provando sua fé mediante ações e atitudes práticas:

“[…] não me recusaste teu filho, TEU ÚNICO FILHO, eu te ABENÇOAREI.” (Gênesis 22.16)

Tiago jamais afirmou, como acusou Lutero, que a justiça estava em Abraão por causa das obras da Lei, mas porque este demonstrou firmemente sua fé pela OBRA DA OBEDIÊNCIA, amando DEUS mais que ao próprio filho: “Abraão, nosso pai, NÃO FOI JUSTIFICADO PELAS OBRAS, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21) ” “Mostra tua fé sem obras, e eu TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”   

Se sabeis que ele é justo, sabei também que todo AQUELE QUE PRATICA A JUSTIÇA É NASCIDO DELE. (I São João 2, 29)”

Não tivesse havido o ensaio do sacrifício de Cristo através dos atos que levaram Isaac até o local onde seria abatido, Abraão não seria abençoado, nem confirmado justo. Para justificá-lo Deus lhe exigiu mais que uma mera manifestação intelectual ou devocional da fé:

Abraão OBEDECEU à minha voz e OBSERVOU os meus PRECEITOS, meus MANDAMENTOS e MINHAS LEIS. (Gênesis 26.5)

“Filhinhos, ninguém vos seduza: AQUELE QUE PRATICA A JUSTIÇA É JUSTO, como também (Jesus) é justo. (I São João 3, 7)”

A fé imputada à Abraão haveria de ser provada na sua disposição em dar Isaac em sacrifício de obediência:

Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. (Hebreus 11.17 e 18)

Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

“Porventura, NÃO FOI NA PROVA que Abraão permaneceu fiel? E não lhe foi isso imputado em justiça? (I Macabeus 2. 52)”

Dizer que São Tiago negava que a fé de Abraão teria sido útil à lhe imputar a condição de justo é um completo delírio: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)”

O que confirmou Abraão foram os seus atos e obras visíveis produzidos mediante sua fé invisível, movendo-o em direção à justiça de Deus. 

Uma coisa não é a fé, e outra os frutos dela.

Acaso pode haver um fruto que não tenha a mesma essência e substância da árvore? Não está no fruto a semente que gerará outra árvore de idêntica natureza da qual proveio esse fruto? Sendo a fé dom divino, não poderia produzir fruto que também não tivesse a mesma natureza divina. Toda obra que a fé produz não é humana, mas a própria ação de Deus concebida através do ser humano. A única distinção entre fé e obra é que esta é visível, enquanto aquela é invisível.

Obra humana é tudo aquilo que o homem limitadamente pode alcançar e pelo qual realiza e progride por si mesmo.  São atos da natureza moral ou legal. Em momento algum Tiago ensinou que a justificação ocorre pelas “obras da lei” ou “da natureza moral, senão apenas pelas “obras da fé”.16  Tiago não negou a fé enquanto a causa que moveu Abraão à prática dos atos de justiça: “ABRÃO CREU em Deus e isto lhe foi tido EM CONTA de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)”17 

Mas afirmar que somente a féteria operado a justiça completa sobre Abraão, e que toda obra de servidão que o levou a erguer o punhal, e iniciar o golpe fatal contra seu filho Isaac seria inservível à justificá-lo, é um erro absurdo“[…] pela nossa fé, estamos unidos a verdade Divina, mas devemos confessá-la exteriormente. ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2) “Dentre as virtudes, a principal é a justiça que nos ordena. ” (Suma Teológica Q 181. Da Vida Ativa. Art. 1)

A fé invisível moveu Abraão à prática dos atos visíveis que o conduziram à condição de justo: Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)” “De que aproveitará, irmãos, A ALGUÉM DIZER QUE TEM FÉ, SE NÃO TIVER OBRAS?  Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO? (São Tiago 2. 14) ” Assim, TAMBÉM A FÉ: SE NÃO TIVER OBRAS, É MORTA em si mesma. (São Tiago 2, 17) Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ” Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

Nem Paulo, nem os santos profetas defendiam a justiça “somente pela fé:

“Porque os que OUVEM A LEI NÃO SÃO JUSTOS DIANTE DE DEUS, MAS OS QUE PRATICAM A LEI HÃO DE SER JUSTIFICADOS. (Romanos 2, 13) ”

FELIZ O JUSTO, PARA ELE O BEM; ELE COMERÁ O FRUTO DE SUAS OBRAS. (Isaías 3.10)

O JUSTO VIVERÁ  PELA FÉ. (Romanos 1.17) ”

E, se UM JUSTO ABANDONAR A SUA JUSTIÇA, SE PRATICAR O MAL E IMITAR TODAS AS ABOMINAÇÕES COMETIDAS PELO MALVADO, VIVERÁ ELE? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.” (Ezequiel 18.24)

“ANDANDO NOS MEUS ESTATUTOS, e GUARDANDO os meus juízos, e PROCEDENDO segundo a verdade, O JUSTO CERTAMENTE VIVERÁ, diz o Senhor DEUS. (Ezequiel 18. 9) ”

“Com efeito, diante de Deus, nosso Pai, pensamos CONTINUAMENTE NAS OBRAS DA VOSSA FÉ, nos sacrifícios da vossa caridade e na firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, sob o olhar de Deus, nosso Pai. (I Tessalonicenses 1.3) ”

Porque também nós outrora éramos insensatos, rebeldes, transviados, escravos de paixões de toda espécie, vivendo na malícia e na inveja, detestáveis, odiando-nos uns aos outros. Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens. E, NÃO POR CAUSA DE OBRAS DE JUSTIÇA (lei mosaica da circuncisão, guarda de sábados etc) que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, nosso Salvador, para que a justificação obtida por sua graça nos torne, em esperança, herdeiros da vida eterna. Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com constância e firmeza, PARA QUE OS QUE ABRAÇARAM A FÉ EM DEUS SE ESFORCEM POR SE APERFEIÇOAR A SI MESMOS, NA PRÁTICA DO BEM. Isto é bom e útil aos homens. (Efésios 3. 4, 5, 6, 7 e 8) ”

Caríssimo, FAZES OBRAS DE FÉ EM TUDO o que realizas para os teus irmãos. (III João 1,5) ”

Provada está a autoridade da Carta de Tiago, em sua harmonia com a Carta de Paulo aos romanos, e todo conjunto escriturístico. Quando as Escrituras dizem “justificado pela fé” não se deve absolutamente entender “justificado SOMENTE pela fé.” Da mesma forma, quando diz “justificado pelas obras” não se deve compreender “justificado SOMENTE pelas OBRAS,” ou por “obra humana” ou “obra da lei”.

Assim compreenderam e ensinaram os antigos:

3. Quem já entendeu que há justificação pela fé, não pelas obras, note o sorvedouro de que falei: Vês, pois, que Abraão foi justificado, não pelas obras, mas pela fé. Então posso fazer o que quiser; apesar de não ter praticado boas obras, somente se acreditar em Deus, isso me será reputado em conta de justiça. Se alguém assim falar e decidir, cai e submerge; se ainda pondera e hesita, expõe-se a grande perigo.   A Escritura de Deus, porém, bem interpretada, não só livra o periclitante, mas ainda retira do abismo quem nele mergulhou. Respondo, por isso, numa espécie de réplica ao Apóstolo, dizendo acerca de Abraão o que se encontra também na epístola de outro apóstolo, o qual queria corrigir os que haviam entendido mal o apóstolo Paulo. Efetivamente Tiago, em sua epístola, impugnando os que presumiam da fé apenas, sem as boas obras, recomendou as obras do mesmo Abraão, cuja fé Paulo destaca. Mas, os apóstolos não estão se contradizendo. S. Tiago refere-se à obra notória a todos de Abraão, ao oferecer seu filho em sacrifício a Deus (Tg 2,21). Obra grandiosa, mas oriunda da fé. Aprovo o edifício em cima, mas vejo em baixo os alicerces da fé. Louvo o fruto da boa obra, mas reconheço como raiz a fé. Se Abraão agisse assim, deixando de lado a fé verdadeira, nada lhe adiantaria a obra, por melhor que fosse. Ainda mais. Se Abraão conservasse a fé, ao lhe ordenar Deus oferecesse seu filho em sacrifício, mas dissesse a si mesmo: Não faço, e, no entanto, acredito que Deus me livrará, mesmo enquanto desprezo suas ordens. A fé sem as obras estaria morta, e como raiz infrutífera ficaria estéril e seca. (Santo Agostinho. Comentário aos Salmos p. 215, Livro II – Sermão ao Povo – Enarrationes in Psalmos I à LX)

Queda-se então, o argumento de que Abraão fora justificado “somente” pela fé, prevalecendo a Verdade da Igreja recebida diretamente dos Apóstolos, e proclamada no Concílio de Trento (Sessão VI, de 03/01/1.547).


1 – Exemplo, o pensamento. O ato de pensar é uma ação invisível, como é a essência de toda ação puramente intelectual.

2 – Marco Túlio Cícero, (106 AC a 65 DC), em sua obra “Oratória. ” Em síntese, o que respalda o argumento é o pensamento lógico; e o que respalda o pensamento lógico é a realidade. Tudo que não estiver nesta sintonia é sofisma, ou seja, argumento usado para enganar ou produzir algo distinto da realidade.

3 – Catecismo F4.8 – §150: A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Como adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade que ele revelou, a fé cristã é diferente da fé em uma pessoa humana. E justo e bom entregar-se totalmente a Deus e crer absolutamente no que ele diz.

4 A Escolástica é uma corrente ou método de pensamento crítico e filosófico que se desenvolveu no âmbito da Igreja, que buscou, e encontrou o equilibro perfeito entre Fé Católica e Razão, numa análise da natureza e dos atos humanos alinhados à ação Divina. Sua influência nas artes, cultura, educação e demais ciências é inegável.

5 – Selo é um símbolo antigo de autenticidade de quem firma a declaração escrita,  lacrado no presente, e para ser aberto em momento oportuno. (Eclesiástico 22.10 e Apocalipse 6.1). Tal qual é a metáfora da salvação, utilizada por São Paulo (II Cor 1.22)

6 – Justo é aquele diante de Deus, não há condenação para as suas obras: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12)”

7 – Confissão Protestante de Augusburg, ano 1.530, artigos 4º e 20º.

8 – 3049. logizomai

9 – 3985. peirazó

10 – Ismael é o filho mais velho de Abraão, porém, espúrio, provindo de um relacionamento ilegítimo de seu pai com uma escrava. Mas é Isaac que deteve o direito a primogenitora, porque é o primeiro filho legítimo, concebido na constância do matrimônio.

11 – O SENHOR APARECEU a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Ele disse-lhe: Voltarei à tua casa dentro de um ano, a esta época; e Sara, TUA MULHER, TERÁ UM FILHO” (Gn 18. 1 e 10) Deus preceituou a Abraão, que “tomasse seu filho primogênito, a quem tanto amava, Isaac, e partisse com ele à terra de Moriá, e o ofertasse em SACRIFÍCIO sobre os MONTES” (Gn 22, 2)

12 – “Abraão tomou a LENHA DO HOLOCAUSTO e pôs aos OMBROS de seu filho Isaac> (Gn 22, 6) ” “quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA” (Gn 22.9)

13 –  “quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA” (Gn 22.9)

14 – Eu e o MENINO vamos até lá adiante para adorar, mas LOGO VOLTAREMOS para junto de vocês. > (Gn 22.5)

15 – “estendendo a mão, TOMOU A FACA para imolar o seu filho> (Gn 22,10)”

16 – Nitidamente, o protestantismo faz severa confusão ente OBRAS DA LEI e as OBRAS DA FÉ, pois embora conceitualmente faça essa distinção, sua teologia não alcançar harmonizá-las dentro do correto contexto da realidade na qual estão inseridas: Sobre as obras da Lei é dito: “Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a fé que opera pela caridade. (Gálatas 5, 6) “Com efeito, não foi em virtude da Lei que a promessa de herdar o mundo foi feita a Abraão ou à sua posteridade, mas em virtude da justiça da fé. (Romanos 4, 13) Sobre as Obras da Fé é ensinado: “ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

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