A CARIDADE PODE SER CORROMPIDA?

1 – Parece que a caridade é o mais excelente dos dons, pois subsiste no amor, e Deus é amor.[1] Logo, se em Deus que é amor não pode haver imperfeição, no ato de amar também não.

2 – No mais, a caridade é um dom espiritual superior, pois como disse o Apóstolo, dentre a esperança, a fé e o amor, prevalece o amor.[2] Ora, o superior não pode ser regido pelo inferior, razão pela qual, a caridade não pode cair sob o domínio do pecado.

3 – Soma-se, que a caridade é o cumprimento perfeito de toda lei de Deus,[3] e onde há perfeição não há defeito, sendo que a corrupção é o defeito no ser, na virtude ou na ação, razão porque, na caridade, não pode haver perversão.

Mas em contrário, quando Judas, o traidor, disse que o perfume caro ofertado a Jesus seria melhor usado para comprar comida para os pobres, Cristo o repreendeu dizendo que pobres sempre teríamos, mas não a presença do Filho de Deus encarnado homem entre nós.[4]

SOLUÇÃO: Assim como a esperança e a fé, a caridade é uma virtude do Espírito Santo,[5] a qual recebemos no Batismo para conservá-la na verdade, na justiça e na santidade, do que se conclui que se não permanecermos nele,[6] Ele não permanecerá em nós, e sem o Espírito Santo, a esperança, a fé e a caridade se corrompem, desviando-se do fim próprio que é nos conduzir a única Igreja, a única fé e a única verdade que liberta e salva. Quando perdemos o Espírito Santo, a fé se perverte em heresia, a esperança nada mais espera, e a caridade se degenera, tornando-se apenas amor humano, o qual se baseia na mera gratidão, interesse próprio, vaidade remorso ou na dor do que doa por estar transtornado pela existência da pobreza. Judas propôs a Cristo um ato de caridade corrompido, pois era ladrão, e queria se beneficiar da venda do perfume ao invés de partilha-lo totalmente com os pobres, no que assim se responde as indagações acima.

1 – O amor perfeito ou caridade está em Deus em sua essência, ou seja, Deus é a própria personificação do Amor, e o Amor é a própria personificação de Deus. Logo, só em Deus o amor é eterno e perfeito, e como disse o santo doutor, “a medida do amor é amar sem medida[7]. O homem não tem isso na essência do seu ser, senão, apenas quando livremente adere e participa desse amor por meio de Deus, do que se conclui que na deficiência ou não conservação na participação nesse amor, poderá este se corromper ou mesmo se extinguir.

2 – A virtude da caridade é o que santifica o sentimento do amor humano, quando nesse amor haverá honra, eternidade e sinceridade. A caridade é a virtude superior enquanto nos orienta a Deus, pois sem isso se degenera e desaparece, transformando-se em amor natural que se subordina ao domínio das paixões frívolas e do amor próprio.

3 – Não se pode confundir a caridade com o caridoso. A caridade em si, como dom espiritual é perfeita e santa, porque é o amor prático, pois o amor de Deus não pode ser abstrato, mera ideia, mas algo concreto que se destina às pessoas concretas. É também a fé tornada visível.[8] Mas a pessoa que pode praticá-la não é perfeita, posto que todo ser humano é falível, e por isso, a perfeição da caridade está em Deus, não no homem. O homem não precisa ser perfeito para praticar a caridade, pois é na caridade que Deus aperfeiçoa todo homem.


[1] I São João 4. 8

[2] “Agora, pois, permanecem a FÉ, a ESPERANÇA e o AMOR, estes três; porém o maior destes é o amor” (I Coríntios 13.13)

[3] “A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da Lei. (Romanos 13, 10)”

[4] “Jesus se achava em Betânia, em casa de Simão, o leproso. Quando ele se pôs à mesa, entrou uma mulher trazendo um vaso de alabastro cheio de um perfume de nardo puro, de grande preço, e, quebrando o vaso, derramou-lho sobre a cabeça. ” “Alguns, porém, ficaram indignados e disseram entre si: “Por que esse desperdício de bálsamo? 5.Poderia ter sido vendido por mais de trezentos denários, e serem dados aos pobres”. E irritavam-se contra ela. 6.Mas Jesus disse-lhes: “Deixai-a. Por que a molestais? Ela me fez uma boa obra.” “Judas Iscariotes, um dos Doze, foi avistar-se com os sumos sacerdotes para lhes entregar Jesus. (São Marcos 14, 3 – 10)

[5] Gálatas 5. 22.

[6] São João 15. 4.

[7] Santo Agostinho. Homilia sobre o Evangelho de São João 19. 31-37.

[8] Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica. Tratado sobre a Caridade. Anos 1.200. https://permanencia.org.br/drupal/node/911

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