A CARIDADE É A ESSÊNCIA DA FÉ.

Os que sustentam que só a fé seja suficiente para salvação, geralmente se opõem à caridade enquanto instrumento de santificação do fiel, dizendo ser uma coisa a fé enquanto dom de Deus; e outra a boa obra caritativa enquanto apenas uma ação humana decorrente dessa fé: “[…]  só vale perante Deus a “obra humana” que for “consequência” da fé.1 (in Vocábulos Bíblicos, p. 234, ed. 1963. Jean-Jacques Von Allmen)

Baseiam-se numa teoria chamada sola fide, a qual defende que a eventual ausência de boas ações práticas por parte do cristão, poderá ser compensada se este se mantiver firmemente apegado na crença de que Deus poderá salvá-lo:  “Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser feitas, não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em seu louvor. Sempre é a fé somente que apreende a graça e o perdão dos pecados. (Confissão Luterana de Augusburgo, ano 1.530. Art. 20)

Pensava Lutero, que se a Graça de Deus veio à humanidade em razão do pecado, é certo que o homem precisa do pecado para atingir a Graça. Ademais, a fé serviria como salvo conduto para o pecado, do tipo, “quanto mais peco mais creio, e quanto mais creio, mais peco, e assim continuamente.”

Disse ele, em sua Carta dirigida à Felipe Melanchthon, em 1.521:

Se você é pregador da graça, prega a graça verdadeira, não a graça fingida; se a graça é verdadeira, tenha a certeza de que se trata do pecado verdadeiro, não do fingido, porque, Deus não salva os pecadores fingidos. SEJA PECADOR E PEQUE FORTEMENTE, MAS CONFIA E SE ALEGRE MAIS FORTEMENTE AINDA EM CRISTO, VENCEDOR DO PECADO, DA MORTE E DO MUNDO. HÁ DE PECAR ENQUANTO VIVAMOS AQUI. Esta vida não é a morada da justiça, senão que, como disse Pedro, estamos a espera de novos céus e de nova terra em que habite a justiça. Basta que pela riqueza da glória tenhamos conhecido o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; DESTE NÃO NOS SEPARARÁ O PECADO, INCLUSIVE AINDA QUE FORNIQUEMOS E MATEMOS MILHARES E MILHARES DE VEZES AO DIA. Por que é que crê ser tão mingado o preço da redenção de nossos pecados, pago por tão grande e bom cordeiro? (No Dia do Apóstolo São Pedro, no ano de 1.521. [parágrafo 12] https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/1521-carta-de-martinho-lutero-a-felipe-melanchthon/

Na condição de “obra humana”, na visão peculiar do autoproclamado reformador, a caridade seria apenas um elemento acidental, e não essencial da fé, podendo ser realizada apenas para louvor e agrado de Deus, mas sem compromisso de ter que existir, e mesmo que existisse, não conteria nenhuma infusão da Graça, nem a transcendência necessária para que, por ela, pudéssemos ser julgados.

Assim, separava-se a fé da caridade; a caridade da Graça de Deus, e a Graça da santidade.

A Igreja, seguindo seu Mestre, jamais fez distinção entre fé e caridade, nem afirmou ser a fé suficiente à salvação, desacompanhada ou independentemente da prática das obras da virtude e do amor fraterno, e de igual modo, jamais ensinou que possa existir alguma caridade que não provenha da legítima fé:

[…] aquele que não cuida dos seus, e principalmente dos da própria casa, NEGOU A FÉ, e é pior do que um INCRÉDULO.”(I Timóteo 5,8)

 “SE BEM FIZERDES, não é certo que serás aceito? E SE NÃO FIZERES BEM, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, MAS SOBRE ELE DEVES DOMINAR.” (Gênesis 4.7)

Proclamam que conhecem a Deus, MAS NA PRÁTICA O RENEGAM, detestáveis que são, rebeldes e INCAPAZES DE QUALQUER BOA OBRA.” (Tito 1.16)

Não podemos tirar o DNA humano do ser humano pois a essência humana está nele armazenada.

Ora, se não tem DNA humano, então não é humano.

Assim é a fé em relação a bondade, porque se não houver caridade na fé, já não há fé, apenas uma crença morta, uma filosofia ou ideologia, sendo um mal que condenará, tanto quanto a obra filantrópica2 ou humanitária que embora seja moralmente boa, é inservível a redenção do homem, porque não traz Deus como fim último da ação humana.

Temos no primeiro caso, a heresia do fideísmo (salvo somente pela fé), e no segundo, do pelagianismo. (salvo exclusivamente pela obra humana).

Ninguém é salvo por uma fé que não produza a Graça de Deus nos atos humanos, como também ninguém é salvo apenas por boas obras, porque não há boas obras que não provenham de Deus ao ser humano por meio da fé.

Não é uma coisa a fé, e outra os frutos dela produzidos.

Sendo a fé puro dom de Deus, dela não pode vir obra alguma que também não seja dom de Deus, não tendo a mesma chancela substancial da Divindade.

Toda fé tende a morrer na esterilidade das boas ações.

A boa obra espiritual ou CARIDADE, não é obra humana, mas ações livres de Deus, as quais Ele realiza no ser humano, através do ser humano, e por intermédio da fé:

“[…] vosso ingresso e progresso na obra de Deus NÃO SÃO OBRAS HUMANAS, mas a intervenção do Poder Divino, que não cessa de vos assistir.” (Manuscritos, de Santo Antão do Deserto, ano 251-356)

Nisso reside a distinção CARIDADE e OBRA MORAL.

O juízo final de Deus não separará o ser humano de sua história, razão porque, a fé não poderá ser separada de suas ações. Crer que as boas obras se separam da fé, conduzirá a morte da própria fé, levando à condenação eterna:  “De que aproveitará, irmãos, A ALGUÉM DIZER QUE TEM FÉ, SE NÃO TIVER OBRAS? Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO? (São Tiago 2.14)

Sendo a fé, a causa motora que nos vincula a Jesus em seu sacrifício, torna-se impossível crer Nele sem participar das suas virtudes e do seu caráter.

Crer em Cristo é viver a busca pela santidade, e pela perfeição, desvinculando-se dia após dia do pecado, com o qual não nos será permitida a comunhão com Deus.

A Caridade é essencial para a VITALIDADE da fé.

Está na ESSÊNCIA DA FÉ o renascimento espiritual para o progresso da perfeição de todos os nossos atos, imprimindo-nos a beatitude necessária para sermos imitação de Cristo: “Portanto, SEDE PERFEITOS, assim como vosso Pai Celeste é perfeito. ” (São Mateus 5. 48)

Essa fé nos impõe de modo misterioso, a aceitação dos méritos de Cristo em nossas vidas para consecução das ações proativas.

Por isso, Deus identifica, mede e julga a nossa fé por meio das nossas ações caritativas cotidianas, externadas no pulsar das virtudes de Cristo, infusas naqueles que aderiram ao seu sacrifício: “Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras, e eu te MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2, 18)

Por isso, ainda, orientou o Apóstolo, para que a “[…] TUA FÉ, que compartilhas conosco, SEJA ATUANTE E FAÇA CONHECER TODO O BEM QUE SE REALIZA entre nós POR CAUSA DE CRISTO.” (Filemôn 1. 6) 

E os mortos FORAM JULGADOS conforme o que estava escrito nesse livroSEGUNDO AS SUAS OBRAS.” (Apocalipse 20. 11 a 15)

A Caridade é o ativismo da fé que a torna realidade vivaz e eficaz para nos justificar perante o juízo final, sendo ela, a própria “[…] FÉ QUE OPERA ATRAVÉS DA CARIDADE. ” (Gálatas 5-6)

A virtude da fé cristã está exatamente na capacidade de obrar, segundo o Amor aquiescido pela vontade, e a Justiça discernida pela razão. 

A vontade está sob o domínio da razão, na qual Deus infundiu o dom gratuito da fé (Efésios 2.8) para que na junção entre fé, razão e vontade, tenhamos o ato que nos distingue dos infiéis, gerado quando nos tornamos imitadores de Cristo, cumprindo o preceito da Graça que é amar a Deus, e ao próximo como a nós mesmos: 

[…] meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros COMO EU VOS AMEI. SEREIS MEUS AMIGOS SE FIZERDES O QUE VOS MANDOO que vos mando é que vos AMEIS UNS AOS OUTROS. (São João 15. 13, 14 e 17)”

A prática da CARIDADE é o que distingue os fiéis dos infiéis.

No âmbito da fé está a capacidade de obrar, segundo os preceitos desta mesma fé.

O que somos não se distingue daquilo que fazemos, razão porque, torna-se impossível haver fé autêntica sem que em sua ESSÊNCIA não esteja a Caridade.

Há na Escolástica notável distinção entre ESSÊNCIA e CONSEQUÊNCIA.

Diz-se de ESSÊNCIA aquilo que é natural de um ser ou de um objeto, cuja supressão o desnatura, tornando-o noutra coisa ou deixando-o INCOMPLETO, imperfeito, e em certos casos, ensejando sua morte ou extinção. É da essência dos animais vertebrados o conjunto de vértebras, ossos, colunas e cartilagens, os quais formam o esqueleto. Ausente essa sustentação ossuosa não estaremos diante de indivíduo do grupo dos vertebrados, de onde se concluiu que não poderá haver um vertebrado sem estrutura óssea. 

Por isso, o sistema esquelético é essencial para a existência do ser vertebrado. Ora, naquele que crê, e se diz fiel em Cristo, é natural agir conforme os mandamentos do Mestre:

A glória de meu Pai manifesta-se quando DAIS MUITOS FRUTOS E VOS TORNAIS MEUS DISCÍPULOS. Se obedeceis aos meus mandamentos, permanecereis no meu amor. (São João 15. 8, 9 e 10)”

É a caridade, elemento essencial para o vigor da fé, pois se Deus escolheu ser amado no próximo, “[…] a Caridade é o pleno cumprimento da Lei. ” (Romanos 13.10)

Toda fé que não produz um ato que lhe corresponda é MORTA, e, portanto, inservível para salvação: 

Preguei […] para que se arrependessem e SE CONVERTESSEM a Deus, FAZENDO DIGNAS OBRAS CORRESPONDENTES.(Atos 26. 20)

Sendo a FÉ AUTENTICADA e VIVIFICADA nas boas obras, conclui-se que fé e caridade não são elementos distintos, separados, pois a fé existe para frutificar em obras, e se não frutifica, está fadada a morte:  Todo o ramo QUE NÃO DÁ FRUTO EM MIM, O PAI CORTA-O. Os ramos que dão fruto, poda-os para que deem mais fruto ainda. ” (São João 15. 2 e 3) Antes, perfazem UM ÚNICO ELEMENTO, cooperando em conjunto, em harmonia, assim como uma pedra fundamental e o restando da construção formam uma coisa só, que é o edifício:

EDIFICAI-VOS MUTUAMENTE sobre o FUNDAMENTO da vossa santíssima FÉ. ” (São Judas 1. 20)

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2.22)

Noutro sentido, é impossível que a caridade seja apenas uma “consequência” da fé.

Diz-se CONSEQUÊNCIA tudo o que é acidental a uma causa.

Tem-se por acidente3 aquele efeito que poderá ou não advir de determinada causa, ou aquele elemento que pode ou não estar num determinado objeto.

A cor está na madeira enquanto acidente, mas se retirarmos a pintura da madeira, esta madeira segue sendo aquilo que ela é, pois sua essência está na matéria e na forma que as identificam como madeira.

É certo que todo efeito pressupõe a causa, mas é certo também, que a recíproca NÃO é verdadeira porque pode haver uma causa estéril. 

A união corporal ente homem e mulher é causa da geração de um outro ser, mas tal não implica que uma união genésica entre macho e fêmea não possa estar revestida de circunstancias externas ou internas, que impeçam sua consequência ou efeito natural.

Todavia, não poderíamos jamais dizer que a causa não existiu em razão da ausência do seu efeito natural.  Esse princípio, explica o equívoco em pregar que as obras caridosas sejam mera consequência (efeitos) da fé (causa), pois equivaleria dizer que poderia existir uma fé que nos levasse à salvação, independente dos atos de bondade.

E como ensinou São Tiago: “Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO?

Uma causa poderá existir independente de seus efeitos ou consequências, mas a fé jamais poderá existir divorciada dos atos da Caridade, de onde conclui, que a boa ação não é a consequência da fé, mas sua própria ESSÊNCIA, vez que fé sem caridade é nula, MORTA, porquanto, tem-se por pecado mortal negar-se à caridade:

Aquele pois, QUE SABE FAZER O BEM E NÃO O FAZ, COMETE PECADO.” (São Tiago 4.17)

Tudo o que fazeis, FAZEI-O NA CARIDADE. (I Coríntios 16, 14)

“Portanto, A CARIDADE É O PLENO CUMPRIMENTO DA LEI. (Romanos 13, 10)”

“Deus não é injusto para se ESQUECER DA VOSSA OBRA e do AMOR QUE MOSTRASTES AO SEU NOME.” (Hebreus 6. 10).

ABRAÇARAM A FÉ em Deus SE ESFORCEM POR SE APERFEIÇOAR A SI MESMOS NA PRÁTICA DO BEM.” (Hebreus 4.8)”

Todo pecado grave se opõe a fé, matando-a.

A fé direciona o agente rumo à prática de atos justos através da santidade de Deus. Daí não haver fé sem a caridade que lhe corresponda, pois se a consequência é acidente, efeito possível e incerto do ato, estaríamos então, negando as Escrituras, afirmando existir uma fé que coexista com a negligência da prática do Bem.

A caridade nasce na fé, e dela não se separa jamais, perfazendo a “cara e a coroa” da mesma moeda: 

Esta recomendação só visa a ESTABELECER A CARIDADE, NASCIDA DE UM CORAÇÃO PURO, de uma boa consciência E DE UMA FÉ SINCERA. ” (I Timóteo 1.5).

Onde não há caridade, não há fé, e onde há caridade, lá estará a verdadeira e autêntica fé cristã.

A Doutrina Apostólica da única e verdadeira Igreja, jamais ensinou existir DIVISÃO entre e OBRAS.

Por sua vez, boa ação sem crer em Cristo não é Caridade, mas filantropia, já que toda caridade é dom de Deus, inserido no âmbito da fé.

Deus concede ao homem, pela Graça do sacrifício, a fé que lhe salva; e o homem reage a fé recebida através da caridade, porque a fé existe para que o ser humano, através de Cristo, possa cumprir os mandamentos de Amor da Graça:

Aquele que TEM OS MEUS MANDAMENTOS E OS GUARDA, esse é que me ama.’ (São João 14,21)

Aquele que diz conhecê-lo E NÃO GUARDA OS SEUS MANDAMENTOS É MENTIROSO e a verdade não está nele”. (I São João 2,4)

Se queres entrar na VIDA ETERNA, GUARDA OS MANDAMENTOS. (São Mateus 19.17)”

Aquele que negligencia o mandamento da caridade, achando que sua fé inacabada, incompleta e imperfeita poderá lhe conduzir à salvação, incorre em grave pecado, como incorrem em pecado maior ainda, os falsos mestres que ministram tal doutrina anticristã.


1 II Confissão Helvética, ano 1566; Catecismo de Heidelberg, ano 1563; Cânones de Dort, ano 1518; Confissão Luterana de Augusburgo, ano 1530; Confissão Escocesa ano 1560, Confissão Menonnitas e Confissão de Westminster, ano 1643.

2 Aristóteles, in Metafísica.

3 FILANTROPIA é o amor ao homem por causa do homem (filantropia social), e que não raras vezes se realiza para promoção religiosa, como faziam os fariseus (filantropia de prosélitos) ou para algum tipo de ganho próprio (filantropia egocêntrica) Caridade é Dom espiritual, que nos capacita a renúncia própria em favor de outrem.

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