O QUE É ADORAÇÃO?

1- Parece que adoração é todo e qualquer ato de afeto, amizade e carinho que o ser humano destina a Deus, tendo forma livre, a critério de como cada um reage a amizade, afeto e carinho que recebe da Divindade, e assim, alguns cantam, dançam, outros choram, e outros contemplam em silêncio o amor Divino.

2 – Parece ainda que adorar é o ser humano dar aquilo que há de melhor nele para Deus, pois Deus não pode receber aquilo que não é digno e não está a altura de sua dignidade, razão porque, o que é devido a Deus é o que há de melhor em nós.1

3 – No mais, após o sacrifício de Cristo, talvez a adoração não seja mais necessária a salvação, pois como os antigos sacrificavam novilhos e cordeiros para reparar seus pecados,2 o Cordeiro de Deus, morto na cruz, reparou de uma vez por todas nossos delitos e nos eximiu da justiça Divina (Hebreus 7. 27 e 9.28), pelo que adoramos agora, apenas para manifestar publicamente nossa gratidão a Deus.

MAS EM CONTRÁRIO, adorar é o ato de virtude mais importante da religião Cristã, pois só na adoração se dá o encontro real entre Deus e a criatura, e os que não adoram, se recusam a adorar ou adoram de modo ilícito ou errado não se salvam, posto que descumprem o primeiro dos mandamentos.3

SOLUÇÃO: A adoração (latria)4 é a maneira mais íntima e sublime de nos relacionarmos com Deus para perdão dos pecados e perseverança da fé. É o culto da comunhão por excelência, onde o profano se une ao santo para se santificar; a morte se une a vida para ressuscitar, e onde a humanidade devedora se une a Divindade que lhe redime das dívidas. É também culto de sacrifício que se fez por meio da humanidade crucificada de Cristo, pois só nela5, o pecador encontra a santidade; o devedor o perdão para o débito, o tempo encontra a eternidade e o morto encontra a vida eterna, sendo, portanto, ato santíssimo onde Deus se une ao homem, o acolhe e o convida para nunca mais se separarem6, como disse o Cordeiro: “[…] Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele; “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.” (Jo 6. 54 a 56) A adoração inicia-se com a autoacusação, onde consternados, nos colocamos como errantes pecadores diante de Deus para reconhecê-lo como único e misericordioso Salvador, encerrando-se na comunhão vicária onde o sacrifício de Jesus e nossas manifestações de arrependimento tornam-se um só corpo no pão e vinho, carne e sangue do sacrificado, respectivamente, onde temos a vida unida a Deus, no corpo sobrenatural do único mediador que liga a humanidade a Divindade, no que se responde as questões acima.

1 – Se adorar é o ato mais sagrado da fé cristã, Deus jamais deixaria a cargo do pecador definir e estabelecer forma na qual ele deve ser adorado. Ele não deixou essa escolha a critério da imperfeição humana, mas estabeleceu a forma e alcance da adoração, para que esta possa ser útil à salvação, razão porque, o serviço da adoração também é da comunhão, como ensina a Igreja: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a OFERTARDES VOSSOS CORPOS EM SACRIFÍCIO VIVO, SANTO E AGRADÁVEL A DEUS: ESSE É O VOSSO CULTO RACIONAL.” (Romanos 12.1) Mas só podemos nos oferecer a Deus como sacrifício santo, se estivermos em comunhão com o Corpo de Cristo: “O CÁLICE de benção, que benzemos, NÃO É A COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E O PÃO QUE PARTIMOS NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM7 AS VÍTIMAS? (I Coríntios 10.16, 17 e 18)” Ensinou o mais sábio dos santos, que adorar é ato especial, soleníssimo e exclusivo, que o ser humano só pode realizar por meio de Deus, não por dons ou méritos próprios8. Expressamos amizade, afeto e também cantamos em honra as criaturas, tal como a meditação, e orações existem também nas religiões não cristãs, o que evidencia que tais honrarias não se enquadram em atos da adoração cristocêntrica, posto que estes, por si só, não nos unem de modo real e perfeito ao sacrifício de Cordeiro. Ademais, as honras comuns (louvar, cantar, chorar, bendizer etc) não são dignas de serem ofertadas a Deus, senão, quando visam nos preparar para algo muito maior, como para receber em nós, e ofertarmos a Deus, unido a nós, o Corpo sacrificado de Cristo, pois sendo Deus o ser supremo, há de receber honra superior, honra de Filho para Pai, que só existe em Jesus Cristo, seu único Filho Digno: “[…] se eu sou Pai, onde está a minha honra? Ofereceis sobre o meu altar PÃO IMUNDO, e dizeis: Em que te havemos profanado?” (Malaquias 1. 6 e 7)

2 – Adorar é servir a Deus de forma específica, num ofício ou serviço sagrado. Mas esse serviço não consiste no ser humano dar aquilo que ele tem de melhor para Deus, mas dar a Deus aquilo que lhe é devido por direito. Nisto se diferenciou a adoração de Caim da adoração de Abel. Caim, sendo agricultor, ofertou o melhor do seu trabalho: “Ofereceu Caim, os frutos da terra em oblação ao Senhor; mas o Senhor NÃO OLHOU PARA SUA OFERTA, NEM PARA OS SEUS DONS.” (Gênesis 4. 3 e 5) Por outro lado, a oferta de Abel representou, simbolizou Cristo, pois no cordeiro animal sacrificado haviam sinais que futuramente estariam na cena da crucificação, como dor, vida, morte, sangue, carne dilacerada e lágrima, dentre outros: “Abel, de seu lado, ofereceu dos PRIMOGÊNITOS do seu rebanho; e o SENHOR OLHOU COM AGRADO PARA ABEL E SUA OFERTA.” (Gênesis 4. 4) Abel ofertou o melhor de Deus para Deus, na inocência e pureza do animal que morreria para que seu sangue isentasse o pecador do pecado. Assim, a inocência era ofertada em troca dos delitos. Deus não recebe aquilo que não é digno e não está a altura de sua dignidade, razão porque, o que é devido a Deus não é o que há de melhor no ser humano, pois já não há nada de bom naquele que não é justo, nem suas músicas, nem sua contemplação e nem suas lágrimas7.

3 – A adoração antiga se fazia com o sangue de animais: “Levará ao sacerdote, em sacrifício de reparação, um carneiro sem defeito tomado do rebanho, segundo sua avaliação. O sacerdote fará por ele a expiação da falta cometida por inadvertência, inconscientemente; e ele será perdoado.” (Levítico 5, 18) A adoração de Moisés anunciava a adoração em Cristo. Moisés tomou o cálice com o sangue do carneiro, e consagrou: “EIS O SANGUE DA ALIANÇA que o Senhor fez convosco. (Êxodo 24. 8) Do mesmo modo, Cristo consagraria no futuro: “ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA ALIANÇA. (São Mateus 26. 28) Um bem só tem utilidade se usufruirmos dele. De nada vale termos uma casa, se não morarmos nela. Assim é o sacrifício de Cristo, que só nos será útil se o tomarmos em adoração. Por isso, Cristo não encerrou a adoração, mas a aperfeiçoou9 nele, e sendo perfeita, é eterna, cujos efeitos se perpetuam até hoje na EUCARISTIA10, para nossa comunhão com Deus, conforme disseram os profetas, “[…] Observareis esse costume como uma INSTITUIÇÃO PERPÉTUA para vós e vossos filhos. (Êxodo 12.24); “[…] sobre a mesa dos pães da proposição, o PÃO PERPÉTUO estará sobre ela.” (Números 7. 4)“[…] não faltarão jamais descendentes aos sacerdotes e aos levitas para oferecer os holocaustos, queimar as oferendas e celebrar o SACRIFÍCIO DE CADA DIA.” (Jeremias 33. 15 à 18), do que resulta que se na adoração, tornamos parte do Corpo de Cristo na cruz em realidade, e não em ficção, como diz a Escritura11, é certo aquilo que disse o santo Apóstolo: “[…] Já estou crucificado com Cristo,12 e estar crucificado com Cristo, no Santíssimo sacramento, consiste a verdadeira, única e perfeita adoração.


1  Caim. (Gn 3. 4 e 5)

2 “IMOLARÁS um NOVILHO em SACRIFÍCIO expiatório pelo pecado; por esse sacrifício TIRARÁS o PECADO do altar.”(Êxodo 29. 36)

3 Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto” (Lc 4,8)

4 “O termo latria ou adoração é a forma de prestação de um serviço especial, exclusivo e específico de oferta de presentes (sacrifícios) ao Deus Supremo e único, para fins de perdão pelos pecados. https://biblehub.com/greek/3000.htm

5 “Ele vos reconciliou pela morte de seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. (Colossenses 1, 22)”

6 Catecismo § 2626

7 “Nos sacrifícios de hóstia, a vítima era devorada pelo ofertante, que assim, também se tornava oferta na comunhão com o sacrifício com o qual se alimentava.

8[…] sem Deus, o homem não pode absolutamente nada, nem fazer bem nenhum: a Graça é necessária não só para lhes dar a conhecer o que praticar, mas para fazer o que fora informado; […] O homem não pode cumprir o preceito de amor a Deus só por suas FACULDADES NATURAIS.” (Q 109, art 4º Suma Teológica, ano 1.256, Livro Tratado da Graça)

9“Porque Nele tudo se fez novo. (II Coríntios 5. 20)

11 Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.* (São João 4, 23)” Porque a adoração de Moisés, feita com animais, era apenas simbólica, representativa, pois a carne e o sangue não era do cordeiro de Deus, mas dos animais que lhe representavam. (Jo 4. 23)

12latas 2. 20.

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