A BELEZA DA ARTE CONFORME ENSINA A IGREJA.

 

A verdadeira arte está na demonstração e na exaltação da beleza e perfeição de Deus na criação, não podendo ser uma ode à bestialidade, a ignorância ou a satisfação animalesca do ser humano.

Só o belo reconstrói o que o feio deforma.

O belo comove, encanta, não nos condena, não nos coloca em risco, não nos corrompe, antes, incentiva ao progresso dos nossos atos rumo à perfeição, naquilo que Deus deseja de nós.

A arte tem o poder de comunicar a grandiosidade do sublime amor Divino.

O ser humano, ainda que inconscientemente, deseja e busca a todo tempo a beleza, porque tem um anseio vital por Deus, e só há beleza em Deus. E sendo o belo um aspecto da bondade, tanto quanto uma característica do Amor, conclui-se que a beleza é idêntica ao Bem, que por seu turno, identifica-se com o próprio Deus. (Santo Tomás de Aquino, citado em Jolivet, Régis. Tratado de Filosofia III. Metafísica. Rio de Janeiro: Agir, 1965, p.259). Toda beleza vem de Deus e das coisas por ele santificadas: “E de quem será toda a beleza de Israel? Não é, porventura, tua e de toda a casa de teu pai?” (I Samuel 9, 20) “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário. (Salmos 26, 4)”

A beleza consiste na harmonia e proporcionalidade das formas, porque o que não é harmônico não se une em perfeição; e o que não está perfeitamente unido se decompõe, acabando por se degenerar. Ora, não há beleza num membro decepado, mas unido ao corpo em perfeição anatômica.  Só há beleza num casal formado por um homem e uma mulher, assim como só há o belo na vida que nasce, e não naquela que se encerra na morte, como só são realmente belos os rios de águas límpidas e as rosas no frescor do seu despertar. Quanto mais harmônico, mais perfeito, e quanto mais perfeito mais combinável, e mais combinável mais belo se torna aos olhos e a alma. Um corpo ou objeto simétrico traz em si a beleza da justa conformação entre suas dimensões.

Toda criação retrata Deus na beleza das formas perfeitas nas quais foram criadas.

Basta olharmos uma criaturinha como um caracol, para vermos nela a precisão, o esmero e a formosura dos desenhos em suas conchas, e como esta concha combina com a universalidade do próprio ser.

“[…] saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez essas coisas. (Sabedoria 13, 3) “[…] é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor. São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer aquele que é, nem reconhecer o artista, considerando suas obras” (Sabedoria 13. 1 e 5)

Mas na harmonia das formas visíveis temos apenas uma beleza incompleta e aparente, posto que também sujeita a decomposição e extinção pelo passar do tempo, razão porque, não podemos tê-la como sendo o definitivamente belo, senão, apenas o belo momentâneo. A beleza perfeita está apenas na essência invisível daquilo que é eterno, e que nem o tempo conseguirá apagar, não podendo ser substituída por ser única.

A Igreja define o belo não apenas o que nos agrada olhar (id quo visum placet), mas sobretudo naquilo que Deus quer que  conheçamos, e vivamos (id quo virtus placet).

A beleza verdadeira não pode ser vista, apenas vivida.

Não é o belo dos sentidos, mas o belo das virtudes.

A beleza física de uma mulher é infinitamente inferior a beleza dos seus atos enquanto mãe, cuidando, zelando e dando-se de corpo e alma pela felicidade do filho.

O belo estético definha e acaba.

Entretanto, a beleza dos seus atos maternais servirá de exemplo perpétuo para todas as gerações: “Resplandecente é a sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente. (Sabedoria 6, 12) “A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar.” (Provérbios 31, 30)”

São tão belas as primeiras palavras e os primeiros passos de uma criança testemunhados pelos pais, que ganhou uma retratação por parte do artista. 

 

 

O marido e a esposa poderão se amar mais, e melhor, quando a aparência física sucumbir pela velhice, e conseguirem ver um no outro, uma certa beleza que fora cultivada, a qual está muito além do que a visão limitada dos sentidos possa captar: “Como a lâmpada que brilha no candelabro sagrado, assim é a beleza do rosto na idade madura. (Eclesiástico 26, 22) “Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue. (Sabedoria 7, 10)”

Mas como o oposto da bondade é a maldade, assim, o oposto do belo é o feio, o caricato e grotesco.

Um dos aspectos da psicologia doentia e maldita dos demônios é a vulgaridade.

“O diabo é o pai de tudo que é baixo, depravado, chulo, promíscuo, rasteiro, grosseiro, despudorado e disforme, seja nos atos, pensamentos, dança, moda, poesia, crônicas, pinturas, esculturas ou artes cênicas”, como narrou Monsenhor Catherinet, que durante um exorcismo repreendeu a um espírito impuro, que de posse do corpo de uma bela jovem, tentou expô-la vergonhosamente num ato de masturbação, dizendo palavras de baixo calão durante um ritual de purificação autorizado pela Santa Igreja. (F.M. Catherinet, Les Démoniaques dans l’Évangeli, p. 319)

“[…] porque a fascinação do vício atira um véu sobre a beleza moral, E O MOVIMENTO DAS PAIXÕES MINA A ALMA INGÊNUA. (Sabedoria 4, 12)”

A conduta vulgar é a maneira de converter os atos santos e morais, em atos profanos e amorais.

Assim como o belo se perpetua mesmo quando a forma visível se esvai, também o feio poderá existir apesar da beleza estética. Ora, a feiura do “Pinóquio” não estava no nariz desproporcional, mas na capacidade desmedida para mentir.

Temos sempre que valorizar a beleza eterna, não a passageira.

Não podemos tomar decisões definitivas, firmando-nos naquilo que é passageiro e efêmero.

O pecado degenera nosso bom gosto, nossa linguagem, nossos pensamentos e as nossas ideias, conduzindo-nos a condição de irracionais, regidos somente pelo que agrada à corrupção dos nossos sentidos desordenados pelo pecado. Muitas vezes, a beleza do corpo ofusca a beleza da alma, porque somos seres sensíveis, somos animais antes de sermos a imagem de Deus. Mas ao contrário da beleza material que se definha com o passar dos anos, a beleza das boas virtudes, as quais nos tornam perfeitos diante de Deus, permanece apesar do tempo.

O verdadeiro belo está no que somos e fazemos, não no que vemos.

Tornar o corpo espetaculoso num corpo modesto, é necessário para que a beleza divina e deslumbrante da alma se mostre.

A arte é uma dádiva de Deus que só os seres racionais como os homens e anjos tem a capacidade de realizar. É o instrumento pelo qual comunicamos o belo e o sagrado. São manifestações de nossas ideias e sentimentos através dos cinco sentidos e do intelecto (música, literatura, dança, esculturas, pinturas etc.).

Como ensinava Boécio (ano 477), escritor eclesiástico católico, citando Platão em “A República” – Livro III, que “[…] para que possamos apreender a beleza e o belo nas coisas é necessário que sejamos educados moral e espiritualmente desde a tenra idade.”

Como está escrito:

“Não é então por esse motivo, Glauco, que a educação pela música é capital, porque o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetam-se mais fortemente, trazendo consigo a perfeição, e tornando aquele perfeita, se tiver sido educada? E, quando não, o contrário? E porque aquele foi educado nela, sentiria mais agudamente as omissões e imperfeições no trabalho ou na conformação natural, e, suportando-as mal, e om razão, honraria as coisas belas, e , acolhendo-as jubilosamente na sua alma, com elas se alimentaria e tornar-se-ia um homem perfeito; ao passo que as coisas feitas, com razão as censuraria e odiaria desde a infância, antes de ser capaz de raciocinar, e, quando chegasse à idade da razão, haveria de saudá-la e reconhece-la pela sua afinidade com ela, sobretudo por ter sido assim educado. (De Instituituone Musica)

O Papa Bento XVI ensinava que não podemos dizer que tanto vale uma obra artística, quanto outra, senão só aquela que valoriza adequadamente a beleza eterna do Deus incriado presente nas coisas criadas. (Sacramentum Caritatis, nº 42)

Podemos notar a verdade Católica sobre a beleza e o belo presente tanto na cultura erudita, quanto popular. Uma exemplo precioso está na arte de Vivaldi (1.678 – 1.741), no hino  “Gloria In Excelsis Deo,” lembrando que a música Clássica Barroca tem berço na Igreja Católica, na influência do Canto Gregoriano que é a verdadeira música sacra por excelência. Essa obra de Vivaldi é tão rica que ouvi-la uma só vez apenas, não conseguiremos captar dela toda majestade de sua beleza. Recomendável, inclusive, ouvi-la em volume um pouco mais elevado.

Infelizmente, as nossas paróquias estão esquecendo da riqueza das obras musicais e dos Cantos Gregorianos, substituídos na liturgia por hinos de péssima qualidade, (inclusive não católicos) sem virtude, sem valor, com letra e musicalidade  perdidas em sentimentalismo barato, o que é evidente, ser uma das causas da degeneração da nossa fé neste país.

A alma Católica se faz ainda presente na música popular brasileira, sendo muito bem expressa e representada por Pixinguinha (1.897-1.973), em sua obra monumental “ROSA”, que exalta, decanta, aplaude e condecora a beleza Divina expressada na mulher e no Matrimônio:

“Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer.”
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