EXISTE LIVRE ARBÍTRIO?


1 — Supõe-se que o ser humano não seja livre, pois livre se diz daquele que é dono dos seus atos, e ao que parece não somos, pois não logramos fazer o bem que queremos, como disse o Apóstolo, “(…) porque o bem que quero, eu não faço.” (Romanos 7, 19)

2 — No mais, somos livres apenas relativamente, pois nossa vontade age livremente e por iniciativa própria apenas para realizar o mal para o qual não somos empurrados por nenhum fator externo irresistível.1

3 — Por fim, se os seres angelicais santificados e as almas salvas no paraíso não podem escolher o caminho da delinquência e fazer o mal, também os anjos e as almas condenadas não podem mais fazer o bem, o que provaria novamente a inexistência do livre arbítrio.

4 — Além disso, se Deus não pode fazer o mal; e Cristo não pôde pecar, conclui-se que neles não há livre arbítrio. Ora, a virtude que não há no seres superiores, também não pode haver nos seres inferiores .

MAS EM CONTRÁRIO, ensinou o Santo Filósofo da Igreja, que “(…) A VONTADE É SEMPRE LIVRE, MAS NÃO É SEMPRE BOA. OU É LIVRE DE DEUS, E NESTA LIBERDADE SE CONDENA; OU É LIVRE DO PECADO, E NESTA LIBERDADE SE SALVA.” (AGOSTINHO. Santo. Cap. XV, p. 34. A Graça e a Liberdade)

SOLUÇÃO: Livre arbítrio é a possibilidade da vontade, aconselhada pelo juízo racional, escolher sem coação entre duas ou mais coisas ou caminhos opostos: “(…) POIS A RAZÃO PODE DECIDIR ENTRE DOIS TERMOS OPOSTOS. E, PORTANTO, É FORÇOSO QUE O HOMEM TENHA LIVRE ARBÍTRIO PELO FATO MESMO DE SER  RACIONAL.” (AQUINO. Santo Tomás, Suma Teológica. Art. 1° Q 83. Do Livre Arbítrio. Livro I, Ia parte). São coisas opostas ficar, partir ou permanecer; fazer ou não fazer, aderir ou afastar, buscar ou dispensar, querer ou rejeitar; falar ou calar; reagir ou aceitar; acolher ou desprezar, crer ou não crer; conhecer ou ignorar, dentre outras. Na vontade livre nasce o amor e a felicidade, pois não se pode amar e ser feliz sem que a vontade de fato queira o objeto que nos faz feliz e nos torna capazes de amar. Mas numa vontade livre nodoada pela culpa e PELA transgressão, aquilo que se escolhe para alcance da felicidade nem sempre é a felicidade perfeita, mas uma “felicidade” que é fruto de amores corroídos pela miséria humana. Só o conhecimento gerado na reflexão da boa consciência sobre as possibilidades opostas nos abre o leque quanto as alternativas de escolhas boas ou más. Todavia, esse conhecimento nos nos chega, senão, quando livremente desejamos e buscamos, como ensinou Agostinho: “EVÓDIO ENTÃO LHE PERGUNTA: — EXISTE EM NÓS ALGUM QUERER LIVRE? AGOSTINHO: — QUERES SABER? ENTÃO NÃO ME PERGUNTES NADA DAQUI POR DIANTE. EVÓDIO: — POR QUÊ? AGOSTINHO: — NÃO VOU RESPONDER A PERGUNTAS DE QUEM NÃO QUER (LIVREMENTE) SABER AS RESPOSTAS.” (AGOSTINHO. Santo. Do Livre Arbítrio. Cap. 12 – O Papel da Boa Vontade. p. 26. Parágrafo 25), no que se responde as questões acima.

1 — A despeito de estar submetida a razão, a vontade livre pode muitas vezes se rebelar e agir de forma contrária a essa razão. A vontade humana possui naturalmente um apetite sensível pela felicidade e pelos bens aprazíveis, e isso poderá fazê-la buscar a felicidade e o prazer naquilo que a razão lhe informa como sendo algo ruim. Assim, embora não queira o mal, ela deseja o prazer e a felicidade que há no mal, e os buscará voluntariamente mesmo correndo o risco consciente de suportar como resultado, o mal indesejado. Logo, “(…) AQUELE QUE QUISER O BEM, MAS NÃO PUDER, RECONHECEÇA QUE AINDA NÃO QUER PLENAMENTE, E ASSIM, REZE PARA TER A VONTADE SUFICIENTE PARA CUMPRIR OS MANDAMENTOS.” (AGOSTINHO. SANTO, cap. XV. p. 35 – A Graça e a Liberdade). A vontade também pode escolher o mal por ignorância, acreditando estar escolhendo o bem. Numa ou noutra situação, o bem que se almeja não será alcançado, mas o mal indesejado certamente aparecerá como consequência. E como disso o Santo Doutor explicando sobre o texto de Romanos 7, 19, “[…] NISSO CONSISTE A CORRUPÇÃO DA LIBERDADE QUE ATUA CONTRA A RAZÃO; — (…) ESCOLHENDO O BEM EM SÍ, MAS SEM MEDIDA, ORDEM E REGRA.2

2 — O oposto da vontade livre, nem sempre é a vontade coagida, mas a vontade que não pode agir de modo diverso por não possuir alternativas de escolha. Ora, o escravo que cumpre querendo as ordens do seu senhor não deixou por isso de ser escravo, já que não lhe é possível realizar coisas diferentes que seu senhor lhe ordena, e mesmo submeto voluntariamente a vontade alheia, ainda será escravo. Logo, se o ser humano tivesse vontade livre apenas para fazer o mal, essa vontade não seria de fato livre por lhe faltar opção de agir de modo contrário, o que mostra o equívoco na ideia de que mesmo que só possamos fazer o mal por vontade livre, seremos livres: “DEUS CRIOU O HOMEM E O DEIXOU NA MÃO DO SEU CONSELHO. (Eclesiástico 15. 11-18)” — “EU CHAMO O CÉU E A TERRA COMO TESTEMUNHAS QUE NESTE DIA EU COLOQUEI DIANTE DE TI A VIDA E A MORTE, A BENÇÃO E A MALDIÇÃO: ESCOLHE A VIDA, PARA QUE TI E TUA SEMENTE VIVAM.” (Deuteronômio 30. 19) — “ESCOLHI O CAMINHO DA VERDADE; PROPUS-ME SEGUIR OS TEUS JUÍZOS.” (Salmo 119. 30). No mais, se houvesse liberdade apenas para o mal, o mal seria superior ao bem, pois o que se faz querendo nos dá maior felicidade do que aquilo que fazemos por indução, instigação, predeterminação ou coação: DEUS REVELOU PELAS SANTAS ESCRITURAS QUE O HOMEM POSSUI O DOM DA LIBERDADE. OS PRECEITOS DIVINOS NÃO O FAVORECERIAM, SE ELE NÃO TIVESSE VONTADE LIVRE PARA CUMPRÍ-LOS, E MERECER A RECOMPENSA.” (AGOSTINHO. Santo. A Liberdade e a Graça. P. 17 Cap. II par.4 e 5) 

3 — Deus pode querer e não querer coisas opostas, e isso mostra que ele tem livre arbítrio. Ora, ele pode querer que existamos ou não. Contudo, mesmo nas escolhas opostas, Deus não escolhe o mal, pois a existência da criação é um bem, e sua inexistência não gera no universo Divino nenhum pecado, imperfeição ou falha, pois a existência de Deus já é suficiente e bastante em si mesma para toda perfeição e todo Bem universal. Cristo, a Divindade encarnada numa humanidade, também pôde escolher coisas opostas como fazer ou não fazer milagres,7 sendo que nessas escolhas não havia pecado, pois sua humanidade, unida a Divindade, estava predestinada a não se corromper, não havendo vício em sua razão ou vontade que o induzisse a fazer escolhas próprias daqueles que são imperfeitos, como diz a Escritura: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel. Manteiga e mel ele comerá, QUANDO SOUBER REJEITAR O MAL E ESCOLHER O BEM.” (Isaías 7. 14 e 15)

4 — O ser perfeito é aquele que traz em si todas as coisas necessárias à sua plena felicidade, pois perfeição é completude. Ao contrário, imperfeito é o ser incompleto que necessita buscar nas coisas exteriores aquilo que lhe falta, e que lhes são necessárias a felicidade. Nisso se diz que o ser perfeito é livre, pois sua felicidade não depende de mais nada, senão do que há nele: (…) HAVERÁ IDENTIDADE ENTRE A VONTADE E A ESSÊNCIA QUANDO O BEM ESTIVER TOTALMENTE CONTIDO NA ESSÊNCIA DO SER QUE QUER, A SABER, EM DEUS, QUE EM RAZÃO DE SUA PERFEIÇÃO, NADA QUER FORA DE SI.” (AQUINO. Santo Tomás. Suma Teológica. art. 2. Q 69. Da Vontade dos Anjos) No sentido diverso, escravo é aquele que busca felicidade externamente, e que jamais a encontrará porque estará eternamente preso as buscas infindáveis e inúteis. Os anjos e os salvos no paraíso já foram santificados, encontrando-se em estado de graça e perfeição, e, portanto, estão em comunhão eterna com Deus, usufruindo da perfeição e felicidade plena compartilhada, e já não dependem de nada exteriormente, no que se diz que são livres, pois não desejam nada mais, a não ser Deus, e assim, movidos por Deus, agem livremente numa ou noutra coisa, mas sempre conforme a vontade Divina. Todavia, as almas e os anjos condenados foram confirmados na imperfeição, e, portanto, tendem a buscar aquilo que nunca encontrarão porque livremente rejeitaram o amor Divino. Assim, serão eternamente escravos de uma busca sem fim que lhes empunhará o sofrimento eterno dos que desesperadamente procuram e nunca alcançam. Assim, o argumento da escravidão ou ausência de livre arbítrio se acolhe apenas em relação as almas e aos anjos condenados, que não podem querer outra coisa, senão o mal, pois toda escolha que fazem é divorciada de Deus, e, portanto, só podem produzir o mal.


1 . Calvino, Defesa do “De Servo Arbítrio” de Lutero contra Pighius in: Corpus Reformatorum, Ioannis Calvini Opera quae supersunt omnia — Vol. 6, p. 279. 

2(…) eleição é a escolha do apetite da vontade livre aconselhada supervisionado pela razão que possui um conhecimento não experimental, mas lógico, consegue discernir os efeitos futuros maléficos ou benéficos dessa escolha. (Aristoteles III Ethic. (lect. VI)

3 Jesus, vendo um paralítico, ao invés de lhe dar o milagre da cura, lhe dá o perdão dos pecados. (Lc  5. 17-26)

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