O QUE SIGNIFICA AMAR A DEUS?

1 – Muitos crêem que para amar a Deus, basta se emocionar ao ouvir o seu Nome, entoar com fervor cânticos em sua honra, extasiar-se em sua memória, chorar na tua presença e proclamar publicamente discursos de fé.

2 – No mais, amor é emoção, um sentimento, como ensinavam os Filósofos[1], e não precisa ser expressado de outra maneira, senão por atos emotivos e sentimentais.

3 – Além disso, sendo Deus o objeto do nosso amor, tudo ele canaliza exclusivamente para si, razão porque, tudo deve ser voltado a ele, que para se fazer amado não necessita que realizemos atos de amor em favor do próximo.

Mas em contrário, restou dito pelo salmista: “Encontrarei minha felicidade em vossos mandamentos, porque vos amo. (Salmo 118. 47)”

SOLUÇÃO: Amar significa realizar as coisas que são próprias do amor. São próprios do amor a fidelidade e a caridade, pois a infidelidade desonra o Amor pela hipocrisia que é vertente da mentira e do amor fingido. Já a ausência da caridade mata o Amor pelo egoísmo que com o autêntico amor não se compatibiliza, posto ser este, a virtude de se doar ao ser amado. Amar a Deus não implica apenas amar as coisas que Deus ama, e odiar as coisas que Deus odeia. Significa AMAR COMO DEUS AMA e ODIAR COMO DEUS ODEIA. Amar como Deus ama significa esvaziar-se de si mesmo para interagir e acolher aqueles que necessitam de nós. Odiar como Deus odeia é expandir a misericórdia. É reprovar as imperfeições ao ponto de trabalhar nelas para que se tornem virtudes, para que desta maneira possamos ver em nós, a imagem do Pai, pela qual somos reconhecidos como filhos. É detestar os erros para que estes não privem o Criador do convívio eterno com sua criatura. Amar como Deus ama é desejar fortemente tudo aquilo que é eterno e nos conduzirá ao seu Reino para sempre. Odiar como Deus odeia é repudiar fortemente os obstáculos que impedirão eternamente de irmos ao seu encontro. Quem não ama como Jesus, e não odeia como Jesus, não é frio, nem quente, posto que é morno, e o que é morno é intragável, sendo expelido por não ser nem quente, nem frio: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio, nem quente, vou vomitar-te. (Apocalipse 3. 15 e 16), no que se responde as questões acima.”

1 – Muitos dizem que amam a Deus, se emocionam como o seu Nome, extasiam-se em sua memória, proclamam publicamente terem fé, mas praticam às ocultas coisas que humilham e ofendem aquele que dizem amar, colocando a ganância, a corrupção, o egoísmo, o capricho de opinião, acima da obediência, da partilha, da consciência justa e, por fim, da caridade. Como podem amar se praticam contra o ser amado aquilo que é próprio de um inimigo praticar? Como ousam dizer que crêem e amam se na prática, e em todo seu viver não fazem outra coisa, senão ofendê-lo? Que espécie de amor é esse capaz de chorar copiosamente ouvindo um hino, mas é incapaz de dar comida a quem tem fome, bebida a quem tem sede, roupa a quem está nu, conselho a quem está perdido, amor a quem só conhece o ódio, atenção a quem só tem o desprezo? Onde está nestes a fé? Onde está nestes o amor? De que modo amam? De que modo crêem? Ora, “[…] quando desprezamos a Cristo faminto em cada necessitado, qual a utilidade de continuarmos ainda falando dele? Do que vale amar sem considerar a vontade de Deus? Não basta amar, mas amar conforme é devido ao amor. Constitui suma piedade preservar o amor a Deus na obediência. (São João Crisóstomo, Homilia sobre Romanos, ano 347, LVII. 19,5)” Por isso, Cristo disse: “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.” (São João 15. 10-15)

2 – Amor não é sentimento, mas virtude. Sentimentos só sobrevivem quando encontram eco na reciprocidade, pois enquanto emoção e atitude passional, todo sentimento não correspondido definha e finda. Todavia, Deus nos amou quando éramos ainda seus inimigos, praticando contra ele toda ofensa, lhe causando toda espécie de dor. Se Deus deseja que amemos como ele nos amou, é certo que devamos amar também aqueles que nos odeiam, pois como disse uma sábia Santa, Madre Teresa de Calcutá, “[…] os bons merecem nosso amor, mas os maus precisam dele para que conheçam o que é o amor de Deus.” O amor enquanto virtude é eterno, porque vem de Deus, e Deus que é amor é eterno. Assim, encerrados os cânticos, cessado o fervor, extinta a comoção que o Nome Santo de Deus nos acomete, a caridade, fruto do autêntico Amor, haverá de permanecer.

3 – Quem ama é feliz em partilhar com o ser amado, o Bem que se buscou e alcançou, como Cristo que buscou e alcançou a vida eterna. Por isso, o fiel não deve realizar as obras da infidelidade, assim como aquele que ama não deve realizar as obras que ofendem ao amor, e como disse um grande Santo, já nos primeiros anos do cristianismo, “ […] duas coisas estão diante de nós de modo inegável: a vida e a morte. Como se tratam de duas moedas, a de Deus e a do mundo, cada uma delas é cunhada com sua marca própria. Os infiéis trazem a marca deste mundo; e os fiéis trazem no amor, a marca de Deus Pai, gravada por Cristo. Se não estamos dispostos a morrer por ele para participar de sua paixão, então, a vida { e o amor dele } não estão em nós. (Carta aos Magnésios, Santo Inácio de Antioquia, anos 68-107)” Deus também escolheu ser amado no próximo, na imagem dele, que existe em cada um de nós.


[1] O ROMANTISMO alemão é uma corrente filosófica diametralmente oposta ao iluminismo, vez que este defendia o culto exclusivo da razão, como meio de elevar o ser humano à perfeição. Os românticos do século 19, reagindo aos conceitos iluministas, defendiam que apenas as emoções que liberamos e desenvolvemos nos elevam no aprendizado da vida e na felicidade existencial. Tanto iluminismo, quanto romantismo são duas posições extremistas: ” O Romantismo não tem dogma, nem princípio, nem objetivo, nem programa, nada que se situe dentro de um pensamento racional definido ou de um sistema de conceitos (…) ” (Nicolai Hartman – A Filosofia do idealismo alemão, Lisboa, Gubelkian, 1983, pp. 189-190).

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