SOBRE A BELEZA NO SER HUMANO, NO MUNDO E EM DEUS.

1 – Recebemos da sociedade, a noção de que beleza é a contemplação da estética1 contida na harmonia das formas, as quais nos causam sensações de bem-estar e prazer quando as captamos visualmente. E se tudo que é prazeroso é amável, como disse o sábio2, parece então, que o amor reside exclusivamente na beleza das formas.

2 – No mais, a beleza estética está no esplendor de toda obra criada, dando testemunho da perfeição e beleza de Deus enquanto o seu criador, como está escrito, “[…] “observa o arco-íris e bendiz aquele que o fez: é muito belo no seu luzir.” (Eclesiástico 43, 12), no que supõe que devamos nos preocupar pelo resto de nossas vidas em conservar a beleza que recebemos na juventude, para que também por meio dela, testemunhássemos da perfeição Divina.

3 – Além disso, sabemos que o próprio Cristo é a imagem visível, perfeita e bela da Divindade, pois como disseram os salmistas, “[…] sois belo, o mais belo dos filhos dos homens. Expande-se a graça em vossos lábios, pelo que Deus vos cumulou de bênçãos eternas. (Salmos 44, 3)”; e “[…] “como és belo, meu amado! Como és encantador.” (Cantares 1.16), razão porque, poderíamos concluir que a beleza aparente é amável, porque quem ama Cristo, ama Deus em sua imagem.

Mas em contrário, também fora profetizado sobre Jesus Cristo, que ele cresceria diante de Deus “[…]”como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia nos seduzir.” (Isaías 53, 2)

SOLUÇÃO> Quem ama alguém pelo que ele é, e não pela aparência que tem, o amará para sempre. A beleza visual é temporária, mas a beleza de uma vida dignamente vivida permanece. Quem ama alguém, ama a nobreza de sua história de vida, e não sua mera imagem, reflexo de uma matéria e forma que inevitavelmente se deteriora e deforma com o passar dos anos, à medida que envelhecemos. A beleza real não míngua com o decorrer do tempo. Ao contrário, aumenta, porque não está na forma do corpo, mas no progresso da pureza da alma, da virtude dos atos e da superioridade do intelecto humano. Existindo beleza na prática do Bem,3 a nobreza das atitudes imprime em nossa história marcas permanentes, as quais não podem ser apagadas pelo tempo, no que se diz, que a verdadeira beleza não é avaliada apenas na esfera do que é visualmente aprazível, mas principalmente, na bondade reconhecida através de uma boa consciência, pois como disse Maritain4 “[…] o lugar natural que a beleza ocupa, é no mundo da inteligência, que capta a bondade nas coisas que se conversam belas, e a beleza nas coisas que se conservam boas,” no que se responde as questões acima.

1 – A beleza verdadeira não é captada pelo olhar. O belo que olhamos é temporário, e finda muito cedo porque se definha à medida em que envelhecemos. Quem vê a beleza apenas restrita à imagem, “ama” apenas ao que é “imagem,” e não a essência do ser do qual a imagem provém, sendo que esse “amor” desaparecerá à medida que desaparece a imagem amada. Logicamente, não podemos chamar isso de amor, mas de simples encantamento, paixão ou pulsão de deslumbramento sensível, porque diferente destes, o autentico amor não é produzido nos olhares, mas na vivência digna na prática do Bem em Deus, e por meio de Deus, porque se o ser humano só pode amar por meio de Deus, então todo amor há de ser eterno, porque Deus que é eterno, e Deus é amor: “[…]amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (I São João 4, 7) Os que amam por causa da imagem viciaram-se num “amor desordenado” que consiste apenas “ver e consumir visualmente” naquilo que satisfaz aos instintos e emoções mais primitivas.

2 – A beleza que está no mundo, e que consiste na perfeita harmonia da ordem de toda as coisas criadas nos dá o caminho para chegarmos a Deus, quando concluímos que tamanha beleza e harmonia não poderia ter sido fruto do mero acaso, mas do trabalho do Poder Supremo e Inteligente. Por isso, disse Santo Agostinho5: “Interroga a beleza da terra; interroga a beleza do mar, interroga a beleza do céu; interroga todas estas realidades, e veja se elas não respondem que não são belas por elas mesmas, mas pela bondade do Criador que as fez perfeitas.” Assim, conhecendo a beleza perfeita do mundo criado, o ser humano tem a possibilidade de se abrir a ideia da existência de Deus, e assim, perceba a perfeição do artista por meio da perfeição de sua obra: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer reconhecer o artista, considerando suas obras.” (Sabedoria 13, 1)” No mais, a beleza do mundo existe para enobrecer o ser humano, não para escravizá-lo.6 Nos tornamos escravos do corpo, quando desejamos dele aquilo que ele não pode mais nos dar que é a conservação da matéria e da forma, e em busca disso vivemos sujeitados ao corpo. A busca exagerada e desenfreada para manter a efêmera beleza da juventude, corrompe e deteriora a beleza eterna que está na alma.7 Mergulhássemos nessa alma, feita imagem de Deus, veríamos uma beleza com tamanha grandeza que comparada a beleza do corpo físico, por mais belo que fosse nos vergonharia, pois como disso o santo sábio: “[…]para tua maior formosura, tens impressa em ti, a imagem da Trindade beatíssima.” (São Boaventura, anos “Solilóquio”, I, 3). Além disso, a beleza ilusória e sedutora das imagens, tendem a ofuscar a realidade das atitudes belas e nobres.

3 – Não que Jesus não fosse belo em sua natureza humana. Todavia, convinha que sua beleza física fosse ofuscada aos olhos humanos, porque a beleza da humanidade não poderia atrair mais a atenção, que o Amor que sua Divindade manifestava por meio da sua humanidade, para revelar aos homens as realidades necessária à salvação. A beleza física em si, é algo totalmente vazio e desperdiçado8 se não nos chamar a atenção para uma beleza maior, a qual está além do corpo, posto que hospedada numa realidade que transcende ao tempo, a forma e a matéria, e que o ser humano em Cristo poderá acessá-la para ser feliz, numa felicidade que só existe no encontro da criatura com o seu Criador, num reencontro do Pai com os seus filhos, outrora perdidos.


1 O belo estético, o pulcro ou o belo, por natureza, implicam na harmonia e no equilíbrio das proporções devidas. (São Dionísio, o aeropagita. in Pseudo Dinis, Hierarquia Angelical) Para Platão, em sua obra “O Banquete”, o belo é apenas o bem, a verdade, a perfeição; existe em si mesmo apartada do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das idéias. A junção dos dois conceito é na verdade a definição perfeito do belo, em seu sentido estético ou formal e substancial ou essencial.

2 Santo Tomas, diz que a beleza estética, requer apenas três condições. Primeiramente integridade ou perfeição; as coisas mutiladas são feias por este fato mesmo. Depois, a proporção devida ou consonância. E, finalmente, a claridade; por isso as coisas que têm cores nítidas são ditas belas” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8)

3 Catecismo 2500

4 Arte e Escolástica. (Maritain, Jacques. Edição Universitária, Fribourg-Suisse et Éditions Saint-Paul, Paris, volume I, p. 640).

5 Sermão CCXLI, 2: pl 38, 1134

6 Catecismo 2502.

7“As coisas boas da terra — o mundo natural, a beleza, o amor, a alegria, ainda apresentam traços de seu propósito original, mas cada uma delas pode ser incompreendida ou mal utilizada p. 76. (Chesterton, em ORDOTOXIA, Cap. II. p. 76)

8 Santo Tomás. Suma Teológica. Livro IIa e IIae. Q 145. Art. 2.

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