POR QUE SÓ PODE HAVER UM SÓ DEUS?

1 – Fora do âmbito cristão, discute-se ainda se realmente há um só Deus, haja vista que tudo que há no universo é mais de um (mais de um sol, mais de um planeta, mais de uma galáxia, mais de uma raça, mais de um indivíduo, mais de uma espécie, mais de um gênero etc.).

2 – No mais, sabe-se que na história da humanidade, a crença na existência de mais de um Deus (politeísmo) é mais antiga que a crença num Deus único (monoteísmo),[1] do que se pode concluir, que sendo a informação histórica mais antiga sempre mais confiável, talvez não estariam errados os antigos quando criam poder haver dezenas ou centenas de deuses.

3 – Além disso, se cada um deus, domina e rege apenas uma certa área do universo ou da vida das criaturas, como Netuno os mares; Ares a guerra, e Eros o amor,[2] não há nada que torne impossível a coexistência de vários deuses ou entidades divinas regendo harmonicamente o mundo, como outrora, defendeu a civilização greco-romana, e, bem antes, as primeiras civilizações orientais.

4 – Por fim, parece que o cristianismo é também a religião de mais de um Deus, posto que o Pai é Deus, o Filho é Deus e também o Espírito Santo é Deus, conforme declarado no Credo Niceno Católico Apostólico Romano dos primeiros séculos depois de Cristo.

Mas em contrário, como ensinou a Tradição Apostólica da Igreja, só se é Deus, se for onipotente, onisciente e onipresente.[3]

SOLUÇÃO: Ser Deus, é poder fazer tudo sem estar impedido por ninguém; estar em todos os cantos, lugares e épocas sem ser contido por nada; e ainda saber de tudo e sobre todas as coisas existentes ou mesmo inexistentes, nada podendo lhe escapar ou ser ocultado. Ora, a sabedoria, o poder e a presença em plenitude, só poderão haver, se existir apenas um único Ser Divino. Havendo mais de um deus, poderia um deles impedir o outro de realizar todas as coisas de modo pleno; negar-lhe acesso à ciência ou ao pensamento de qualquer outro ser, como também, negar-lhe acesso aonde quisesse ir, e nesse conflito de deuses, nenhum deles poderia exercer integralmente os atributos do poder supremo (tudo posso; em tudo estou; tudo tenho, e tudo sei). Logo, se ser Deus, é ser onipresente, onisciente e onipotente, não haveria onisciência, onipotência e onipresença se houvesse mais de um Deus, pois cada entidade divina limitaria as outras no poder, na ciência e na presença, vez que para ser Deus, como disse Damasceno, “não se pode ser limitado por nada, e nem por ninguém, seja no tempo, no espaço ou na vontade”,[4] no que se responde as questões acima.

1 – A existência plural, na qual existem mais de um indivíduo ou coisas, é característica dos seres finitos e limitados. O tempo, a deterioração e o desgaste da matéria corpórea nega aos seres finitos, a existência infinita neles mesmos,[5] razão porque, a recomposição da criatura extinta, por outra idêntica, se torna imprescindível para continuidade do gênero, espécie ou categoria. Por consequência, todo ser finito é também limitado, e havendo mais de um ser no universo, cada um ocupando o próprio espaço, e lutando por si mesmo para continuar existindo, é certo que se limitam reciprocamente, assim como a presa é limitada pelo predador; o espaço limitado por apenas um corpo, o pensamento limitado pela intimidade e o coletivo limitado pelo individual. Mas isso não pode se aplicar a Divindade, cuja essência divina há de ser sempre infinita e ilimitada.

2 – Não é a antiguidade ou modernidade que define o que é verdadeiro, mas a verdade em si própria, a qual, no caso da Verdade Divina, fora revelada no seu tempo certo, pois se assim não fosse, os antigos patriarcas e profetas teriam mais autoridade sobre essa Verdade que Cristo, o qual veio muito depois deles. Deus, sendo a verdade perfeita e infalível, revelou-se no tempo certo, pois tudo tem seu momento próprio na terra.[6]

3 – Se existem muitos deuses, sendo cada deus, soberano em reger uma parte do universo ou da vida humana, o poder de atuação de cada um “deus” estaria restrito, e não poderia interferir, mas áreas de atuação dos outros “deuses”. Assim, o “deus” da terra não poderia interferir no mar, como o “deus” do mar não poderia interferir na terra; como o “deus” do amor não poderia interferir na guerra e o “deus” da guerra interferir no amor. Todavia, a sabedoria, a presença e o poder é conforme a natureza de cada ser. Ora, um ser infinito e ilimitado jamais poderia ter sua ciência, presença e poder restringido por outro ser infinito e ilimitado igual a ele, porque senão, nenhum deles seria realmente infinito, nem ilimitado, mas cada um, contido pelo outro, num eventual desentendimento ou conflito de vontades. Assim, um deus deixaria de ser deus quando adentrasse na área de atuação do outro deus, e só começaria a ser “deus” quando atuasse em sua respectiva área. Mas isso não é possível, porque Deus É, em todas as partes, e em todas as situações, não tendo fim, nem começo, como explicou Damasceno: “[…] o divino é perfeito e nada lhe falta em relação à sabedoria e poder, e ele é sem começo nem fim, (São João Damasceno, anos 675-749. Demonstração da Fé Ortodoxa, Cap. 5. 1-5 Vol. I, II par.) Logo, de nenhum deles, por causa do outro, se poderia dizer Deus, porque para ser Divino é necessário ter a plenitude do saber, da presença e do poder. “Por isso, o ser de Deus é por si subsistente, e não dependente por nenhum outro sujeito”. (Suma Teológica. Livro Ia. Questão 7: Da infinidade de Deus. Art. 1º)

3 – Uma coisa é a personalidade; outra o ser ou sujeito que a detém. Num ser ou sujeito finito, só pode mesmo haver uma única personalidade (persona) verdadeira. Mas tal não se aplica ao ser infinito, onde mais de uma Pessoa pode habitar num único ser. E além de infinito, sendo também perfeito, o sujeito ou ser de Deus pode agir ao mesmo tempo pelas três Pessoas que nele habitam, sem conflito, confusão, separação ou desarmonia. No mesmo ser Divino, do qual se diz o Pai, existe uma unidade perfeita de vontade, ação e propósito com as Pessoas do Filho e do Espírito Santo. Isso se dá, porque embora haja três Pessoas, há um único sujeito ou sujeição no ser, cujas vontades, ações e propósitos são idênticos, sendo que a vontade, ação e propósito contidos no Pai, também estão presentes, simultaneamente, no Filho e no Espírito, razão pela qual, as três personalidades coexistem num mesmo, e único ser. Como a mesma água pode simultaneamente ter suas partes em estado líquido, gasoso ou sólido, sem que estes estados deixem de ter a substância de água (H2o), é a mesma e única Divindade que está no Pai, no Filho e no Espírito, simultaneamente, como ensinou Damasceno: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim – Nenhuma diferença de vontade, de pensamento, de operação, de poder ou de qualquer outra perfeição, coisas que em nós produziria uma divisão real e total. É por isso que não dizemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três deuses, mas antes afirmamos um Deus único, a Santíssima Trindade, sendo que o Filho e o Espírito Santo se reportam à causa unida sem que estejam misturados ou confundidos como pretendia a heresia de Sabélio. Pois eles estão unidos, como dissemos, não de maneira a serem confundidos, mas de modo a estarem um no outro. (São João Damasceno, Demonstração da Fé Ortodoxa, Cap. 5. 1-5 Vol. I) ” Assim, o Filho é Deus no Pai e no Espírito Santo; o Espírito é Deus no Filho e no Pai, e o Pai é Deus no Filho e no Espírito. Não são três seres, mas três Pessoas num único ser. Todavia, como as Pessoas do Filho e do Espírito estão no Pai, formando um único ser, é questão que merece um tema específico, em breve.


 

[1]O Abraamismo, ou seja, a prática religiosa dada por Abraão aos seus descendentes, é a mais antiga fé puramente monoteísta que há registro. Houve nas religiões egípcias e persas, em alguns momentos, a crença no SER SUPREMO ou deus dos deuses, quando se tem vários deuses, mais há um deus superior a todos os outros. Na religião dos egípcios, o faraó Akhenaton declarou-se deus, maior que todos os outros deuses. No zoroastrismo persa, existe o deus do bem e do mal, como divindades superiores. Nenhuma dessas crenças é puramente monoteísta. (Aslan (2017). God: A Human History. New York: Random House. p. 92.)

[2]Deuses na Mitologia Greco-Romana. (cerca de 3.000 AC)

[3]Conforme o I Concílio de Nicéia, ano 365, devemos confessar só Deus, como onipotente sobre tudo, e todos: “Deus Todo-Poderoso e eterno> “omnipotens sempiterne Deus.”

[4]“E ademais, como se poderá conservar o pleno poder se forem muitos? Com efeito, onde houver um, o outro não poderá existir. Como poderá o mundo ser governado por muitos, e, sobretudo, como escaparia ele da destruição, por pequena que fosse a desavença entre seus governantes? (São João Damasceno, Demonstração da Fé Ortodoxa, Cap. 5. 1-5 Vol. I)”

[5]“É contrário à noção das coisas criadas ter a essência idêntica à existência (interminável), porque o ser por si subsistente, não é um ser criado. Por onde, é contrário à noção de coisa feita ser absolutamente infinita. (Suma Teológica. Livro Ia. Questão 7: Da infinidade de Deus. Art. 2º)

[6]T udo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim. (Eclesiastes 3. 1 e 11)

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