JESUS ASSUMIU UM CORPO SUJEITO A TODAS AS FRAQUEZAS E NECESSIDADES HUMANAS?

Será que CRISTO, assumindo nossa humanidade, assumiu também todas as nossas fraquezas físicas?

Dor, fome, sede e morte são limitações da nossa humanidade e dúvida não há que Ele as suportou.

Além das fraquezas corpóreas, teria assumido também todas as fragilidades da alma (anímicas), tais como sofrimento, medo, fadiga, remorso, ciência limitada, sensualidade, predileção e ira, dentre outras? Por que Nele, havia em certos momentos a impaciência, o medo e a descortesia[1]? E quando manifestou ausência de amabilidade usando o chicote contra os agiotas e vendilhões do templo, seria prova de uma falha em sua personalidade ou em seu caráter humano?

Ora, é certo que na humanidade de Cristo não há falhas, nem pecado ou imperfeições.

Não sendo Cristo homem comum por conta de sua humanidade impecavelmente unida à sua Divindade, assumiu Ele, até a ressurreição, apenas as fragilidades do corpo e alma QUE ERAM NECESSÁRIAS AO SEU SACRIFÍCIO NA CRUZ.  Assumiu por vontade própria, e pontualmente, certas fraquezas do corpo e alma, sem que isso fosse resultado do pecado ou deficiência, mas porque convinha à Justiça Divina para dar a redenção a toda humanidade:

“Era conveniente que o Filho de Deus assumisse um corpo sujeito às fraquezas e às deficiências humanas, sobretudo por três razões. — Primeiro, porque o Filho de Deus, tendo assumido a carne, veio ao mundo para satisfazer pelo pecado do gênero humano. Satisfaz pelo pecado de outrem quem assume a pena devida ao pecado deste. Essas misérias do corpo, a saber, a morte, a fome, a sede e outras semelhantes, são a pena do pecado, introduzido no mundo por Adão, segundo aquilo do Apóstolo: Por um homem entrou o pecado neste mundo e pelo pecado a morte. Por onde, era conveniente, quanto ao fim da Encarnação, que TAIS PENALIDADES ELE AS SOFRESSE EM NOSSA CARNE, POR NÓS, conforme a Escritura: Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas. — Segundo, para fundar a fé na Encarnação, pois não seria a natureza humana conhecida dos homens, senão enquanto sujeita a essas misérias do corpo. Se o Filho de Deus tivesse encarnado sem elas, não seria considerado verdadeiro homem, nem teria uma carne verdadeira, mas fantástica, como ensinavam os maniqueus. Por isso, no dizer do Apóstolo, ele se aniquilou a si mesmo, tomando a natureza de servo, fazendo-se semelhante aos homens, e sendo reconhecido na condição como homem, de onde ter Tomé refeito a sua fé em Cristo, depois de lhe haver contemplado as chagas. Terceiro, para nos dar um exemplo de paciência, suportando virilmente os sofrimentos e as misérias humanas, de onde o dizer o Apóstolo: Sofreu tal contradição dos pecadores contra a sua pessoa para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos. (Santo Tomás, Suma Teológica, Encarnação do Verbo. Q 14, art. 1, Livro Sia) ”

A dor, a fome, a sede e a morte são algumas penas corporais que recairiam de modo eterno sobre toda raça humana, se CRISTO não as tivesse assumido voluntariamente, e SEM CULPA. Porque realizamos o pecado pela ação intelectual e física do corpo, que a justiça a qual lhe expurga teria que ser extraída do sofrimento intelectual e padecimento corporal.

Cada vício tem como seu oposto uma virtude.

Sendo que vício do pecado é causado pelo prazer desordenado, o sofrimento divino e humano se opõe a esse prazer destrutivo enquanto legítimo remédio.

Não por outra razão, o próprio Verbo explicou aos seus discípulos em Emaús:

[…] não era NECESSÁRIO que Cristo SOFRESSE ESSAS COISAS e assim entrasse na sua GLÓRIA?” (São Lucas 24, 26) ”

Explica Santo Tomás:

“[…] assumiu a natureza humana SEM PECADO, na pureza que ela tinha no seu Estado de Inocência, e do mesmo modo, poderia ter assumido a natureza humana sem as suas misérias. Por onde, é claro que Cristo não contraiu as referidas fraquezas, como se as tivesse em CONSEQUÊNCIA do pecado, MAS POR VONTADE PRÓPRIA. (Suma Teológica, Q 14, art. 3. Tratado do Verbo Encarnado) ”

Continua ensinado Santo Tomás:

“ […] há misérias comumente existente em todos os homens, como a fome, a sede e outras tais. E todas essas Cristo ASSUMIU SEM DESONRA. ” (Suma Teológica, Q 14, art. 1. Tratado do Verbo Encarnado) ”

CRISTO assumiu de modo temporário as penas que nos caberiam de maneira perpétua, e por Justiça, conforme também ensinou o Santo Apóstolo:

“Porquanto os filhos participam da MESMA NATUREZA, DA MESMA CARNE E DO SANGUE, também Ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão. Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se TORNASSE SEMELHANTE aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, e para fazer propiciação[2] PELOS PECADOS do POVO.” (Hebreus 2.15, 14 e 17)

“ […] esvaziou-se a si mesmo, assumindo PLENAMENTE A FORMA DE SERVO e tornando-se SEMELHANTE aos seres humanos. (Filipenses 2. 7 e 8) ”

Se Ele se atribui uma natureza humana, é fato que também se apropriou igualmente de certas fraquezas desse corpo e dessa alma assumidos. Porém, essa assunção lhe decorreu num diferencial importantíssimo. Uma debilidade que num ser humano comum poderia ser tida como vício ou defeito, em CRISTO era instrumento de elevação suprema, glorificação mística e testemunho de santificação.

Todo pecado tem por matriz a deficiência do corpo ou da alma.

A vingança surge de não suportar derrota e suplícios; a ganancia e gula vem da fome; a vaidade é gerada no definhamento da humildade; morte na desobediência a Deus; enquanto a cobiça deriva de não saber viver com pouco. Esses são apenas alguns exemplos, dentre inúmeros e infindáveis. Mas Cristo tomou ALGUMAS limitações da alma, e as elevou à condição de VIRTUDES para ensinar ser possível a toda humanidade transcender da incompletude até à perfeição.

Quando manifestou medo, terror do sofrimento na cruz dizendo “Pai afasta de mim esse cálice”, queria mostrar que para obedecer a Deus há de se ter coragem, dizendo depois que “[…] fosse feita a vontade do Pai. “ (São Lucas 22, 41) Tanto que sua morte não veio por causa de sua desobediência, como em Adão, primeiro dos homens em cronologia, mas como PRÊMIO de ressurreição e vida eterna pela obediência do Novo Adão (Rm 5.12), o Cristo, primeiro dos homens em hierarquia e autoridade.

Permitindo-se a fome após jejum no deserto, e tentado pelo diabo, queria ensinar que nem só do pão, alimento terreno que adentra pela boca, vive o homem, mas de “[…] toda Palavra que SAI da Boca de Deus.” (São Mateus 4, 4). ”

Chorando a perda de Lázaro, movido pela saudade e vazio afetivo, o traz de volta à vida demonstrando que podia Amar com Amor Divino a todos (ágape), e também alguns com afeto, afinidade ou predileção (filos) (Jo 11. 1 a 46), o que provaria sua plena humanidade.

Nas bodas de Caná, quando manifestou impaciência com sua Santíssima Mãe, foi para honrá-la como INTERCESSORA, pois só antecipou o início de seu Ministério terreno, para realizar o milagre que atenderia a súplica da Virgem Maria: “Tendo acabado o vinho, a Mãe de Jesus disse-lhe: Eles não têm mais vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, O QUE TENHO EU COM ISSO, AINDA NÃO É CHEGADA MINHA HORA. (São João 2. 4) ” Em ato contínuo, disse a Santa Virgem aos servos da festividade, na certeza de que seria atendida em sua petição ao Filho Divino: 

Fazei o que Ele vos mandar.” (São João 2. 5) ” 

Por fim: “Disse-lhes Jesus: Enchei de água as talhas. Encheram-nas até acima. Então lhes disse: Tirai agora e levai ao presidente da mesa. Eles o fizeram. Quando o presidente da mesa provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era (mas o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou ao noivo e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o bom vinho, e quando os convidados têm bebido bastante, então lhes apresenta o inferior; mas tu guardaste o bom vinho até agora. Com este milagre deu Jesus em Caná da Galileia princípio aos seus milagres, e assim manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele. (São João 6 a 11) ”

Cristo detém desde sempre a onisciência plena que é Atributo Divino, porque “[…] nele habita toda Plenitude da Divindade. ” (Colossenses 12.9) CONHECEMOS QUE SABES TUDO, e não precisas de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus. ” (I São João 16. 30 e 31)

Indagado por seus discípulos do dia e hora do juízo final, abdicou espontaneamente da sua Onisciência, e lhes respondeu apenas com a ciência HUMANA limitada, pois revelar dia e hora do juízo traria comodidade, relaxamento ou até mesmo desespero, o que colocaria em risco a salvação de seus discípulos: “Naquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão apenas o Pai. ” (São Marcos 13, 32)

Obtendo o domínio perfeito sobre as fraquezas do corpo e alma, NEM TODAS AS FRAQUEZAS ELE ASSUMIU, senão apenas as necessárias à revelação e glorificação por ocasião de seu sacrifício como o Cordeiro de Deus.

Fraquezas inúteis, que repugnavam ao seu propósito e missão Ele não assumiu.

Embora tenha assumido a morte, Ele não assumiu a possibilidade de deterioração, corrupção e putrefação do seu corpo morto, em razão de que ressuscitaria em três dias, e do mesmo modo não assumiu a sensualidade, pois a inclinação sexual fugia do plano da salvação.

Explica Santo Tomás: “ […] devia assumir aquelas misérias resultantes do pecado comum de toda natureza humana, MAS NÃO REPUGNANTES A GRAÇA, por não ter Cristo praticado nada desordenado no regime de sua vida. ” (Suma Teológica. Q 14, art. 4. Encarnação do Verbo) ”

Assim sempre ensinou a Igreja, conforme proclamado infalivelmente no Concílio de CALCEDÔNIA (ano 451): “Nós, portanto, seguindo os santos pais, todos perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possuindo alma racional e corpo; consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial conosco, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado antes de todos os séculos pelo Pai segundo a divindade, e, nestes últimos dias, por nós e por nossa salvação, nascido da Virgem Maria, Mãe de Deus, segundo a humanidade; um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só Pessoa e Subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus o Verbo, Jesus Cristo o Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu. ”

 


 

[1]  Ele foi FERIDO por causa das nossas transgressões, e MOÍDO por causa das nossas iniquidades (Is 53,5)”;  Jesus jejuou por 40 dias e 40 noites, e depois teve FOME. (Mt 4, 12); Tenho SEDE! (Jo 19,28); Cristo COMOVEU-SE com a mulher samaritana que lhe respondeu: “Sim, Senhor, mas até os cães de estimação, comem das migalhas que caem das mesas de seus donos.” (Mt 15, 23),Também se SENSIBILIZOU com a intercessão da Santíssima Virgem, que lhe suplicou o milagre nas bodas de Caná. (Jo 2. 1-4) Demonstrou certa IMPACIENCIA com a Santíssima Virgem, por ocasião das bodas de Caná, embora tenha lhe atendido posteriormente, transformando a água em vinho para celebração das núpcias: “Mulher, que tenho eu com isto?” (Jo 3, 4); Restou evidente o MEDO e PAVOR quando tive a visão plena de seu padecimento mortal na cruz: “Pai, AFASTA de mim esse Cálice.” (Lc 22, 42);  Cristo ESPANCOU, chicoteando, todos os vendilhões do Templo, que faziam da fé o seu mercado: “Fez ele um CHICOTE de cordas, EXPULSOU TODOS do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. (Jo 2, 15)”

[2]   O Verbo, quando Encarna, assume Natureza Humana SEMELHANÇA a nossa. Conforme o ensino aristotélico tomista, citado na obra Filosofia e Cosmovisão, cap. II p. 37- 45, de Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), o semelhante não é absolutamente idêntico, porque todo semelhante é composto por parte idêntica, e parte diferente. A única diferença da Natureza Humana de CRISTO é que ela é sem pecado, imune por estar unida à Divindade: “O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne SEMELHANTE à do pecado, condenou o pecado na carne, (Romanos 8, 3)” – “Ele NAO COMETEU PECADO, nem se achou falsidade em sua boca (Is 53,9). (I São Pedro 2, 22)

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