PEDRO, JESUS, O DIÁLOGO DAS PEDRAS E A FUNDAÇÃO DA IGREJA.

 

Interrogar é solicitar de modo oficial, que alguém revele publicamente aquilo que está em sua mente, alma e coração. Todo interrogatório é realizado por uma autoridade superior, inquirindo aquele que lhe sendo subordinado, encontra-se sob seu poder e disciplina. É sempre o superior quem interroga o inferior, e dessa sondagem interior se extrai aquilo que o interrogado é, faz, pensa ou realizará, para que após lhe seja dado aquilo que lhe convém.

Houve um momento que Cristo interrogou um de seus Apóstolos chamado até então Simão:

Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: NO DIZER DO POVO, QUEM É O FILHO DO HOMEM? Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.

DISSE-LHES JESUS: E VÓS QUEM DIZEIS QUE EU SOU?

SIMÃO PEDRO RESPONDEU: TU ÉS O CRISTO, O FILHO DE DEUS VIVO! (São Mateus 16. 13-16) ”

E logo em seguida, Jesus lhe responde:

TAMBÉM EU TE DIGO, QUE TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA, EDIFICAREI A MINHA IGREJA, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. (São Mateus 16. 18)”

Jesus instigou Simão a lhe testemunhar publicamente para demonstrar que o Apóstolo, sob a inspiração do Espírito Santo, recusava a ideia supersticiosa do povo judeu de que Jesus seria a reencarnação dos antigos profetas. Instigou Simão a lhe testemunhar, porque aquele que receberia maior Graça, haveria que dar maior testemunho.  Só a partir do testemunho de Pedro sobre Cristo, que Cristo também o testemunha em relação a missão que lhe entregaria, inclusive, trocando seu nome de Simão para Pedro (CEFAS) que significa PEDRA:

TAMBÉM EU TE DIGO, QUE TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA, EDIFICAREI A MINHA IGREJA, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: TUDO O QUE LIGARES NA TERRA SERÁ LIGADO NOS CÉUS, E TUDO O QUE DESLIGARES NA TERRA SERÁ DESLIGADO NO CÉU.” (São Mateus 16. 18)

Cumpria-se assim, a profecia de Isaías referente ao Mordomo da CASA DO REI, que cuida dos interesses, dos súditos e dos bens do Rei, enquanto este estiver fora:

Naquele dia chamarei MEU SERVO Eliacim, filho de Helcias. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um PAI para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre seus ombros A CHAVE DA CASA DE DAVI; SE ELE ABRIR, NINGUÉM FECHARÁ, SE FECHAR, NINGUÉM ABRIRÁ.” (Isaías 22. 20 – 24)

O testemunho de Jesus (TU ÉS PEDRO) é uma sequência da proclamação anterior que Pedro lhe fez: (TU ÉS O FILHO DE DEUS VIVO […] TAMBÉM EU TE DIGO, TU ÉS PEDRO).”

Desta maneira, Pedro testemunhou de Cristo para que em contrapartida recebesse de Cristo seu testemunho:

TU ÉS O FILHO DE DEUS VIVO[…]”

TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA […]”

Cristo conferia a Simão, agora Pedro, as CHAVES DA IGREJA que liga o Céu e a terra.

Mas de nada valeriam as CHAVES sem o EDIFÍCIO.

Para exercer plenamente a autoridade das Chaves é necessário ter a posse e o domínio sobre o edifício a ser fechado ou aberto. Não por outra razão, além das chaves, confiou Cristo à Simão, a autoridade sobre o edifício espiritual que é a Igreja: “TAMBÉM EU TE DIGO QUE TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA, EDIFICAREI A MINHA IGREJA. ” (São Mateus 16. 18)

Mas como termos a certeza de que Cristo edificara sobre Pedro e não sobre si mesmo, conquanto ser Ele também identificado como “pedra” ou “rocha”?1 

Estaria edificando junto com Pedro?

Apenas sobre si mesmo?

Apenas sobre Pedro?

Um edifício não se faz apenas de uma só pedra.

O fato de ser Cristo, a pedra da fundação, não colide, nem exclui ter constituído Pedro a pedra mais importante da Igreja, depois Dele.

Jesus e Pedro são pedras distintas.

O Evangelho revela o diálogo entre duas figuras petrinas, indispensáveis à edificação da construção.

O texto em São Mateus 16, 18, é exposto em figura de linguagem, em metáfora, onde o EDIFÍCIO representa a IGREJA VISÍVEL E INVISÍVEL. Uma das figuras, o NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, se apresenta como PEDRA DA EDIFICAÇÃO, a base, angular, a fundação sem a qual não se poderia executar a construção, e cuja retirada fragmentaria toda estrutura arquitetônica, a qual ruiria até desabar completamente sobre o chão aonde se encontra estabelecida:

“A PEDRA que os construtores rejeitaram tornou-se cabeça da ESQUINA. (Salmo 118. 22) Por isso, o Senhor Deus lhes diz: Eu coloquei em Sião uma pedra, um bloco escolhido, uma PEDRA ANGULAR PRECIOSA, de BASE: quem confiar nela, não tropeçará. ” (Isaías 28, 16)

CRISTO é a FUNDAÇÃO sem a qual o Edifício não se une, e se desmorona.

“Teus escombros NÃO SE PODERÁ TIRAR A PEDRA DE ÂNGULO, NEM PEDRA DE ALICERCE, porque jaz de transformar em eterna ruína. (Jeremias 51. 26) ”

Pedra angular é a fundação erguida em duas etapas, iniciando NAS PEDRAS DE ESQUINA, encerrando-se na pedra base de centro, encravada no ARCO SUPERIOR. ” (Zacarias 10.4) ”

A PEDRA DE ESQUINA (Salmo 118.22), distribui o peso, alicerçando e sustentando toda edificação.

 

Essas extremidades angulares estão UNIDAS ao centro para formar a base aonde se assentará a pedra do ARCO ou MASTRO CENTRALDela há de provir a PEDRA ANGULAR; dela, o MASTRO da tenda; dela, o ARCO de guerra; dela, todos os chefes se portarão como valentes. ” (Zacarias 10,4)

A FUNDAÇÃO é o FUNDAMENTO PRINCIPAL, a estrutura interna do edifício, a viga mestra, pedra ônix da pilastra que suporta a construção partindo do EIXO ANGULAR DAS PEDRAS DE ESQUINA, permitindo que a construção se firme sem tombar, razão porque sem ela, não se pode construir. 

A pedra mais IMPORTANTE da estrutura, está inserida DENTRO DA PRÓPRIA CONSTRUÇÃO, e não no âmbito externo. A BASE e a ANGULAR sustentam, seguram e equilibram toda construção unida em suas estruturas.

Mas o ato de edificar implica lançar a pedra base de edificação sobre outra estrutura. Nenhuma edificação, edifica sobre si mesma, mas sobre um terceiro objeto, já que as pedras das fundações não flutuam.

No entanto, de dois modos se pode edificar uma fundação.

Lançá-la diretamente sobre a terra nua e arenosa, incorrendo no risco de se edificar sobre superfície instável sem suporte ou firmeza, ou lançá-la sobre campo rochoso, estabilizado em terreno planado e escolhido para maior segurança da construção.

Nenhuma fundação subsiste se não tiver aderência ao solo. Neste contexto, surgia a figura do Apóstolo Pedro como o FUNDAMENTO EXTERNO E SECUNDÁRIO da “estrutura arquitetônica” da Igreja. 

JESUS, fixando nele o olhar, disse: – TU ÉS SIMÃO, FILHO DE JOÃO, SERÁS CHAMADO CEFAS (que quer dizer Pedra). (São João 1. 42)”

Fundamento secundário ou piso planado é a matéria rochosa do terreno, a palmilha horizontal aonde será edificada a fundação, criando um suporte rígido para a coluna principal.

Não é essa superfície, todavia, que segura a estrutura do edifício unida, mas a pedra base, cuja retirada faria com que todo conjunto arquitetônico recaísse sobre a própria superfície rochosa do chão, destruindo o prédio.

Na edificação sobrenatural da IGREJA, a PEDRA ANGULAR e PRINCIPAL DO PROJETO (Cristo), escolheu para ser o seu suporte, a pedra horizontal, o SOLO ROCHOSO (Pedro) sobre o qual EDIFICARIA.

Da planície sólida, estável e rochosa, enquanto figura de Pedro, fora lançada (edificada) e erguia-se a rocha antiga da fundação (Cristo), da qual partiria a construção da torre espiritual simbolizando a Igreja Católica:

No MEIO DA PLANÍCIE, ele me mostrou uma GRANDE ROCHA branca que se erguia da planície. Era mais alta que as montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. A rocha era antiga, e havia nela uma PORTA escavada (Jo 10, 9), que parecia ter sido escavada recentemente. Resplandecia mais do que o SOL (Jo 8, 12), e eu me maravilhava com tal esplendor. Ao redor da porta estavam DOZE VIRGENS (Jo 6, 70). As virgens estavam nos quatro lados da porta, duas a duas, à meia distância das quatro primeiras. Vestiam túnica de linho, belamente cingidas, com o ombro direito descoberto, como para transportar algum peso. Estavam prontas, alegres e animadas. Vendo isso, fiquei admirado pelas coisas grandes e gloriosas que via.” (Hermas, o Pastor. P. 145, par. 79. IX)

Da rocha da fundação que se erguia da planície rochosa, uniram-se todas as demais pedras lavadas no rio de água pura, que representa o Batismo, formando um só edifício:

Eles colocavam as pedras tiradas do fundo da água pois já eram lavradas e se ajustavam imediatamente na construção perfeitamente às outras pedras; ajustavam-se tão bem umas com as outras, que não se via nenhuma juntura, E A TORRE PARECIA CONSTRUÍDA COMO UM SÓ BLOCO.” (Hermas, o Pastor. P. 106, par. 10. III)

As pedras tiradas da água, figura dos batizados, vinham do meio da planície, sendo uma referência figurativa do sacerdócio Petrino, instituído por Cristo, que antes de regressar ao Pai, lhe ordena por três vezes:

Apascenta minhas ovelhas.” (Jo 21. 15-19) 

Todas as pedras encontradas nessa planície foram trazidas, e as virgens as transportaram através da porta. As pedras quadradas foram lavradas e colocadas no lugar das que tinham sido tiradas; as redondas não foram colocadas na construção, porque eram duras, e o trabalho de lavrá-las era lento. Foram colocadas perto da torre, pois deviam ser trabalhadas para serem colocadas na construção, já que eram muito brilhantes. Terminando isso, o Homem Glorioso e Senhor de toda a torre, chamou o pastor e lhe entregou todas as pedras que se achavam perto da torre e que foram tiradas da construção, e lhe disse: Limpa cuidadosamente todas essas pedras, e emprega na construção da torre as que se ajustam às outras; as que não se ajustarem, atira-as para longe da torre. Depois de ordenar isso ao pastor, foi embora, acompanhado de todos os que tinham vindo com ele; as 12 Virgens, porém, permaneceram ao redor da torre, para guardá-la. (Hermas, o Pastor. P. 148. Par. 83 e 84. IX, século II)

Embora pedras distintas, a rocha da fundação que é Cristo e a planície ou plataforma rochosa onde é lançada a fundação, unidas as demais pedras extraídas e polidas da água (os batizados), formam  uma única torre que é a Igreja, a qual ainda se encontra sendo edificada com inúmeras pedras à ela agregadas até o fim dos tempos:

Dei a volta com ele. Vendo que a torre era bela em sua construção, o pastor ficou muito contente. Com efeito, a torre era tão bem construída, que eu experimentei o desejo de habitá-la, pois ela era construída como se fosse uma pedra única, sem a mínima juntura.” (Hermas, o Pastor. P. 149. Par. 86. IX, século II)

Nenhuma fundação encerra a construção, ao contrário, é por meio dela que se dá início da estrutura do edifício.

Através de Pedro, Jesus nos convida a construirmos com Ele sua Igreja, como outrora convidou aos demais Apóstolos para serem também fundamento secundário:

“EDIFICADOS SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS e dos profetas, tendo JESUS CRISTO COMO PEDRA ANGULAR, no qual TODO EDIFÍCIO É AJUSTADO E CRESCE para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. É nele que todo edifício harmonicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor. É Nele também que vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna habitação de Deus.” (Efésios 2. 20, 21 e 22). ”

Achegai-vos a Ele, pedra viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus; E QUAIS OUTRAS PEDRAS VIVAS, VÓS TAMBÉM VOS TORNAIS OS MATERIAIS DESTE EDIFÍCIO ESPIRITUAL, um sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. ” (I São Pedro 2. 4 e 5) 

Sobre esta pedra, edificarei a minha Igreja” implica que nosso Senhor EDIFICARIA, ou seja, lançaria a si próprio enquanto pedra da fundação, sobre Simão, agora Pedro, o Primaz dos Apóstolos. Jesus sustenta a Igreja enquanto fundação, e sustenta Pedro enquanto fundamento sobre o qual a fundação escolheu se lançar.

CRISTO não dava testemunho próprio, conforme esclareceu: “Se eu testifico a respeito de mim mesmo, O MEU TESTEMUNHO NÃO É VERDADEIRO. OUTRO É O QUE TESTIFICA a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que ele dá de mim. ” (São João 5)

Ele instigou Pedro a lhe testemunhar em trocar do testemunho da missão de Pedro. Por isso, os Pais da Igreja dos três primeiros séculos já reconheciam o Primado Petrino:

Em linha sucessória direta, ininterrupta e legítima, o bispo é, através dos tempos, como os próprios apóstolos, vicário do Cristo; e como tal, o episcopado é instituição divina, não somente porque desejado por Deus, mas também porque instituído por ele. É isso, de fato, que faz o Cristo ao edificar sua Igreja sobre Pedro e conferir-lhe o poder das chaves. Como Pedro é único, único é o episcopado; e o poder das chaves dado a Pedro é dado igualmente a todos os apóstolos, isto é, a todos os bispos: Pedro é o único a recebê-lo para manifestar sua unicidade. Assim, embora o fundamento da Igreja seja o Cristo – dele ela parte, nele ela vive pelo Espírito, a ele ela remete, o episcopado faz parte da essência da Igreja: “O bispo está na Igreja e a Igreja no bispo, e se alguém não está com o bispo, não está na Igreja. ” Já nisso se manifesta o aspecto sincrônico do episcopado, que se desdobra em dupla perspectiva: da Igreja local e a da colegialidade dos bispos da Igreja una. ” (São Cipriano de Cartago)

Pedro, por sua vez – a quem o Senhor confia o pastoreio e a guarda de suas ovelhas, sobre quem firmou e fundou a Igreja –, afirma não possuir ouro nem prata, porém ser rico da graça do Cristo, opulento na fé e na força dele, pelas quais milagrosamente faria numerosos prodígios, pelas quais abundaria em bens espirituais para a graça da glória. Não pode possuir tais bens e riquezas aquela que prefere ser rica para o mundo a sê-lo para o Cristo. ” (São Cipriano de Cartago)

Sermões 295,2: Entre estes somente Pedro mereceu representar toda a Igreja. Por causa desta representação da Igreja, que somente ele conduziu, mereceu escutar “Eu te darei as chaves do reino dos Céus.” (Santo Agostinho, Sermões 295, 2) ”

Desta forma, se a linha sucessória dos apóstolos deve ser levada em consideração, com que maior certeza e benefício à Igreja devemos retornar até alcançar o próprio Pedro, a quem, como uma figura que comporta toda a Igreja, o Senhor disse “Sobre esta pedra edificarei e minha Igreja, e os portões do inferno não prevalecerão contra ela“. (Santo Agostinho. Carta 53, 2)

O PRIMADO DE SÃO PEDRO NA ENTREGA DAS CHAVES.


 

1 Jesus é identificado na figura da rocha ou pedra. Todavia, Ele não é o único, pois Deus conferiu a alguns esse adjetivo figurativo, no propósito do plano da salvação a ser realizado por Cristo. Assim como na Nova Aliança, São Pedro tem o nome mudado para pedra, também Abraão no Antigo Testamento, era indicado como sendo a rocha da fundação do povo hebreu: “Ouvi-me, vós que seguis a justiça, e que buscais o Senhor! OLHAI A ROCHA DE QUE FOSTES TALHADOS, A PEDREIRA DE ONDE VOS TIRARAM: considerai ABRÃO, VOSSO PAI, e Sara, que vos pôs no mundo. Ele estava só, quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei,” (Isaías 51. 1 e 2)

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