O ATO DE CASTIGAR CONFLITA COM UM DEUS QUE É PURO AMOR?

No final, Deus salvará a todos, indistintamente, porque Deus é Amor!

Essa frase poderia ilustrar a síntese da “teologia universalista” nascida do liberalismo protestante do século XX,[1] pela qual Deus, em seu grandioso Amor, salvará toda humanidade, indistintamente. Assim, Ele salvará o fiel e o infiel; a vítima e o seu algoz; o ladrão e o lesado; o culpado e o inocente; o pagão e o cristão, e dará o Paraíso tanto aos malvados, quanto aos beatos. Por essa teoria, todos somos rigorosamente iguais, e Deus não fará acepção de pessoas, elevando o princípio da igualdade, que é relativo, ao absoluto extremo.

Todavia, esse não é verdadeiro Evangelho.

Jamais haverá verdadeira paz, justiça e harmonia se tudo, e todos forem rigorosamente iguais, pois “[…] a renúncia a se reconhecer o que é distinto leva a confusão. (Cardeal Georges Cottier, em entrevista à Gianni in Trenta Giorni, ano 204)”

É verdade que Deus é AMOR, mas o Amor, enquanto virtude perfeita, não implica no desamor ou oposição à reta Justiça. A abolição das ações punitivas sobre os atos humanos, defendida pelo pensamento universalista liberal, dispõe a prática do mal sem consequências. Pela Justiça Divina, a humanidade é submetida a Deus que retribuirá a cada um, conforme suas obras boas ou más: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12)”

É certo que Deus não faz distinção de pessoas: “Porque, dian­te de Deus, não há distinção de pessoas.”  (Romanos 2. 11) Todavia, essa igualdade é relativa, nunca absoluta, pois apesar Dele não nos distinguir em nossa essência humana, Ele nos distingue por nossos atos e obras: “Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: VIDA ETERNA AOS QUE, PERSEVERANDO EM FAZER O BEM,  buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas IRA E INDIGNAÇÃO AOS aos contumazes, rebeldes à verdade e SEGUIDORES DO MAL. Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego; mas glória, honra e paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego. (Romanos 2. 5-10)”

Quem cometer injustiça pagará pelo que fez injustamente; e não haverá distinção de pessoas. (Colossenses 3, 25)”

“Ora, a igualdade da justiça distributiva consiste em fazer atribuições diversas a pessoas diversas, proporcionalmente à dignidade delas. (Suma Teológica. Q 63 Art. 1º  – SE É PECADO A ACEITAÇÃO DE PESSOAS. Livro IIa e IIae, Santo Tomás de Aquino)”

O mal há de ser punido para que a recompensa do Bem tenha serventia e seja justa, valorosa e honrosa.

Essa é uma lei eterna irrevogável, sobre a qual está assentado o Juízo de Deus em relação a toda criação: “Debaixo do sol, observei ainda o seguinte:” a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniquidade toma o lugar da justiça. (Eclesiastes 3, 16) “[…] aqueles, porém, que praticam a injustiça e o pecado são os seus próprios inimigos. (Tobias 12,10)

O conceito de Justiça é dar a cada um o que lhe é por direito, na proporção, e conforme seu trabalho.[2]

Só aquele que renunciou por amor a Cristo tem por direito à restituição, pois do contrário, sofreria dano. Já aquele cujo amor não foi capaz de nada renunciar, nada merece, pois se ganhasse  estaria obtendo lucro indevido, recebendo além do que lhe é meritório, louvável e de direito.[3]

A Justiça Divina, sendo perfeitíssima, não implica dano, nem  excesso:

[…] tudo o que ultrapassa a medida, em matéria de justiça, é chamado, por extensão, LUCRO, como tudo o que não a atinge chama-se DANO. (Suma Teológica Q 58. Art. 10, Livro IIIa. Santo Tomás de Aquino)”

Se não houvesse consequência para os atos maus, também não poderia haver para os atos bons. Logo, o Bem e o mal já não se distinguiriam, sendo apenas circunstâncias acidentais que poderíamos escolher livremente quando fosse conveniente. Não punir o ato mal, ou não recompensar o ato bom é um mal em si mesmo chamado INJUSTIÇA, que é o dano não ressarcido e o ganho não meritório: “Não cometereis injustiça nos juízos, nem na vara, nem no peso, nem na medida. (Levítico 19, 35)”

Porque o indivíduo há de compreender que pode vir à ser vítima do próprio mal que comete, é que o poder punitivo e o rigor da disciplina celestial estão inseridos não apenas em Deus, mas em toda sua criação, para conduzir o ser humano, sua imagem e semelhança, à formação da boa consciência e caráter:

O Bem não recompensado é desestimulado, e o mal não punido incentivado.

Julgar é reconhecer aquilo que convém por direito a cada um.

Aplicar a legítima Justiça, implica distribuir um Bem de modo equilibrado e proporcional.

É colher aquilo que se plantou.

Premiar o Bem e punir o mal, faz parte do perfeito equilíbrio.

A recompensa dos fiéis é a amizade eterna com Deus, enquanto dos infiéis será o esquecimento ao serem deixados à margem de sua própria sorte, que os conduzirá a ruína:

Que diremos, pois? Haverá injustiça em Deus? De modo algum! (Romanos 9, 14) (Onde, então, está a injustiça) em ter Deus, para mostrar a sua ira e manifestar o seu poder, suportado com muita paciência os objetos de ira preparados para a perdição, (Romanos 9, 22)”

Por isso, é que os castiguei pelos profetas, e os matei pelas palavras de minha boca, e meu juízo resplandece como o relâmpago, […] (Oséias 6, 5)”

É próprio do justo a amizade com a Justiça, assim como é próprio do injusto a inimizade.

As revoluções mais severas da história, as quais tiveram sempre a Igreja Católica como principal alvo (protestantismo, revolução francesa, marxismo, marcusianismo etc), sempre tiveram como matriz a subversão da ordem criada em favor da ideia utópica de uma fictícia igualdade, num mundo “igualitário.”  O problema dessa igualdade absoluta é que o falso não se distingue do verdadeiro; o certo  não se distingue do errado;  o sagrado não diferencia do profano e, por fim, o Bem e o mal serão equiparados, e se equivalerão ainda que involuntariamente.

A justiça punitiva não conflita com o Amor, pelo contrário, com o Amor faz um par harmônico.

Igualar o fiel com o infiel seria menosprezar a obediência. Nivelar o santificado com o pervertido implicaria desprezo à santidade. Equiparar o devasso com o recatado, modesto e pudico implicaria zombar da castidade ou da sexualidade reta e moderada. Igualar o egoísta com o caridoso é ridicularizar a caridade, assim como honrar o covarde como se honraria o mártir significaria escárnio e desmotivação ao sacrifício valioso. Desprezo e menosprezo, mais que injustiças, são manifestações de desamor ao Bem que é incompatível com o esmero e a justeza Divina: “[…] que Deus me pese na balança da justiça e reconhecerá a minha integridade. (Jó 31, 6)” Assim, o igualitarismo revolucionário absoluto solidifica o mal na história humana, pois o infiel recompensado jamais buscará a caridade; o rico ganancioso que está seguro do céu jamais buscará a caridade; o pervertido que escapará da condenação jamais buscará a castidade e o profano jamais buscará a santidade, porque o caminho da maldade é sempre mais sedutor, prazeroso e fácil que o caminho da Bondade.

O Bem, sendo a virtude mais preciosa, terá sempre o custo mais elevado.

Tão equivocado quanto os universalistas são os gnósticos modernos que defendem que na Justiça Divina não existe punição por parte de Deus, e que temos aquilo que é o resultado do que plantamos. Isso é uma meia verdade, mas é certo que todas as grandes heresias são constituídas a partir de meias verdades. A punição de Deus aos maus está na permissão que eles experimentem o resultado maléfico do mal que produziram por seus atos voluntários, porque Deus, sendo o Sumo Bem, castiga os maus através da maldades que eles mesmos deram causa.

O mal não é juiz de si mesmo.

Só Deus é Juiz de todas as coisas, e afirmar que Deus não punirá a maldade, posto que a punição aos maus seria uma “regra do acaso” implicaria dizer que Deus é um juiz tolerante e condescendente com os perversos. 

Todo juiz que tolera a perversidade por incapacidade ou fraqueza sentimental em punir os perversos, é um juiz inapto, o que é incompatível com o caráter e a onipotência Divina: “Vós sois justo, Senhor! Vossos juízos são cheios de equidade e vossa conduta é toda misericórdia, verdade e justiça. (Tobias 3, 2) Convertei-vos, pecadores, e praticai a justiça diante de Deus, na confiança que vos fará misericórdia. (Tobias 13, 8) “O Senhor é o juiz dos povos. Fazei-me justiça, Senhor, segundo o meu justo direito, conforme minha integridade. (Salmos 7, 9) Ponde fim à malícia dos ímpios e sustentai o direito, ó Deus de justiça, que sondais os corações e os rins. (Salmos 7, 10)”

Por isso, ainda restou dito:

CONSIDERA POIS, A BONDADE E A SEVERIDADE DE DEUS: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade. ” (Romanos 11, 22)

“[…] mas uma coisa faço, e é que, ESQUECENDO-ME DAS COISAS QUE ATRÁS FICARAM, E AVANÇANDO PARA AS QUE ESTÃO DIANTE DE MIM, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. (Felipenses 3. 13 e 14)

Deus opera o castigo na permissão para que o pecador experimente do próprio mal que comete, para fins de dar-lhe a consciência do valor do Bem que isso, possa conduzi-lo então a eternidade com o Sumo Bem.

Por fim, é certo que devemos sempre confiar na misericórdia de Deus, porque Ele tem mais prazer no perdão ao verdadeiramente arrependido, e na misericórdia ao desafortunado que na aplicação da Justiça condenatória, pois como disse o Apóstolo: […] DEUS É RICO EM MISERICÓRDIA. (Efésios 2. 4)


[1] O universalismo defendido a princípio, pelo pastor, filósofo e teólogo protestante RUDOLF BULLTMAN (1.884-1.976), ensina que “a salvação abrangerá todas as pessoas, sem exceção, vez que o amor de Deus não deixará que ninguém se perca.” (PECOTA in HORTON, p. 358) Também KARL BARTH (1.886-1.968), outro teólogo protestante, defendeu esse ponto de vista, embora não de maneira explícita.

[2]  Conforme o jurista romano ULPIANO (ano 228). Fazer justiça é dar a cada um aquilo que lhe é por direito, conforme também o princípio geral contido na antiguíssima Lei das XII Tábuas. (cuun suique tribuere)

[3] Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.  (São Mateus) 16. 25

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2 opiniões sobre “O ATO DE CASTIGAR CONFLITA COM UM DEUS QUE É PURO AMOR?

  • 25 de janeiro de 2020 em 22:42
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    Obrigado Professor… Deus te abençoe!

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    • 27 de janeiro de 2020 em 14:44
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      Olá amigão. Estou publicando hoje, outra postagem sob o título: Porque Deus permite que uns tenham comida e outros passem fome? Se puder, dê uma olhadinha. Feliz ANO NOVO. Em breve, estarei novamente nas redes sociais. Aguarde.

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