POR QUE CONVÉM A DEUS QUE INTERCEDAMOS UNS PELOS OUTROS?

Interceder é uma característica da natureza racional.

Nenhum indivíduo se mantém inerte dentro de sua realidade, sendo que toda inércia, enquanto ato de omissão, se opõe a intercessão enquanto ato de ação. É próprio de todo ser racional buscar interagir com a realidade ao seu redor (e que de certa maneira lhe atinge), para tentar transformá-la.

Deus não retirou do ser humano a virtude de interceder em favor próprio ou de terceiros, antes, a elevou à perfeição por meio de sua Graça. Todavia, haveremos de distinguir entre a boa e a má intercessão, tanto quanto distinguimos entre o ato bom e o ato mau, posto que qualquer intervenção não se realiza, senão através de atos bons ou perversos.

Há intercessões malévolas apenas para fazer valer o amor-próprio, interesseiro e desordenado pela soberba, as quais podem até nos fazer desviar do caminho da salvação. A mulher de Jó intercedeu para que ele se corrompesse na fé, e renegasse o Amor de Deus: “Persistes ainda em tua integridade? AMALDIÇOA A DEUS E MORRE! (Jó 2, 9)” Mesmo os Apóstolos João e Tiago, que depois se tornariam grandes santos, quando ainda não haviam completado o processo ascético de aperfeiçoamento na fé, deixaram se nodoar pela ideia da má intercessão:  “Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém. Enviou diante de si mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para lhe arranjar pousada. Mas não o receberam, por ele dar mostras de que ia para Jerusalém. Vendo isso, Tiago e João disseram: “SENHOR, QUERES QUE MANDEMOS QUE DESÇA FOGO DO CÉU E OS CONSUMA?” Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. [“Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las.”] Foram então para outra povoação. (São Lucas 9. 51-56)”

Por isso é dito: “Nada tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleite. (São Tiago 4. 2 e 3)”

Ensinou a Igreja por Santo Tomás de Aquino:

“[…] o amor-próprio é lícito e natural, no sentido de queremos para nós o Bem que nos cabe, ao passo que o amor-próprio desordenado causa o desprezo de Deus, e é considerado, segundo Agostinho, causa do pecado. (Q 77. Art. 4 Da Causa do Pecado)”

Entretanto, há aqueles que foram tocados pela santidade, cuja semente, lançada na razão e na sensibilidade, germinou pelo poder da fé para que pudessem dar frutos abundantes na caridade. Estes intercedem sempre em Cristo, por causa de Cristo, e na Pessoa de Cristo.

Toda intercessão realizada pelos santos da terra ou do céu são ações que o próprio Deus realiza por meio de seus justos e fiéis, objetivando o amor ao próximo na cooperação universal entre todos os membros do Corpo de CristoTerá por propósito adquirir bens temporais numa graça ou milagre que conduza quem os recebe ao caminho da salvação, bem como, aquele que intercedeu ao fortalecimento na fé por meio da caridade:

Em tudo o que fiz, mostrei-lhes que mediante trabalho árduo DEVEMOS AJUDAR OS FRACOS, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER.” (Atos dos Apóstolos 20. 35)”

FORTALECE AS MÃOS FRACAS E CONFIRMA OS JOELHOS FRACOS. (Isaías 35, 3)”

Ascese é o dom que conduz o ser humano ao crescimento espiritual para que assim, ele possa se completar em Cristo, formando com Ele um só Corpo chamado Igreja. O objetivo final da obra de Deus no homem é o alcance do Bem Supremo por via da beatificação dos atos humanos, e estando esta beatitude incompleta em nossa natureza, é completada na unidade com o Corpo de Cristo que nos dá a condição de membros, tornando esse Corpo Extraordinário a nossa extensão. Logo, interceder só é lícito, válido e perfeito naqueles que estejam unidos com Jesus na mesma água do Batismo, e no mesmo sangue da Eucaristia, por meio da Igreja que é a continuação história do seu Corpo Glorioso e Misterioso ainda presente entre nós:

“O que falta as tribulações de Cristo, COMPLETO NA MINHA CARNE, POR SEU CORPO QUE É A IGREJA. (Colossenses 1. 24) “Em UM SÓ ESPÍRITO fomos BATIZADOS, todos nós, para formar UM SÓ CORPO, […] e todos fomos impregnados do mesmo Espírito.(I Coríntios 12, 13) “[…] uma vez que há UM ÚNICO PÃO, nós, embora muitos, FORMAMOS UM SÓ CORPO PORQUE todos nós COMUNGAMOS DO MESMO PÃO. (I Coríntios 10. 17)”

Toda divisão ou individualidade decompõe, e tudo que decompõe se degenera.

Deus sempre levantou intercessores beatíficos para que através deles, o seu povo pudesse receber curas, milagres, perdão e bençãos. E embora muitos tivessem surgidos antes do nascimento de Jesus, ainda assim eles intercediam por Cristo, com Cristo e em Cristo, na esperança de que no futuro o Verbo viria ao mundo Encarnado, para ofertar-se em sacrifício vivo para remissão dos pecados da humanidade.

ABRAÃO era o mediador de bençãos entre Deus e o seu povo no patriarcado da antiga aliança:

E disse Deus: “Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA SERÃO BENDITAS EM TI. (Gênesis, 12, 3)”

Abraão INTERCEDEU JUNTO DE DEUS, QUE CUROU ABIMELEC, sua mulher e suas servas, e deram novamente à luz. (Gênesis 20, 17)”

Depois de Abraão, MOISÉS fora escolhido para interceder em favor de seu povo por justiça, libertação dos pecados, curas físicas e espirituais durante o período da Lei:

[…] o povo veio a Moisés e disse-lhe: “Pecamos, murmurando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós essas serpentes.” MOISÉS INTERCEDEU PELO POVO, (Números 21, 7)”

Moisés respondeu-lhe: “Digna-te dizer-me quando é que devo INTERCEDER POR TI, por teus servos e por teu povo, para que o Senhor afaste as rãs de tua pessoa e de tuas casas, de sorte que fiquem somente no rio”. (Êxodo 8, 5)”

Moisés saiu da casa do faraó e INTERCEDEU junto ao Senhor. (Êxodo 10, 18)”

Aos membros fraternos da Igreja terrena, edificada por Cristo no fundamento dos Apóstolos (Efésios 2. 19-20), é dada a intercessão beatífica, uns pelos outros:

Como BONS DISPENSADORES DAS DIVERSAS GRAÇAS DE DEUS, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu: (I São Pedro 4, 10) Acima de tudo, recomendo que se FAÇAM PRECES, ORAÇÕES, SÚPLICAS, ações de graças por todos os homens, (I Timóteo 2. 1) […] tenham o mesmo CUIDADO UNS PARA COM OS OUTROS. (I Coríntios 25, 25) “MUTUAMENTE com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em HONRAR UNS AOS OUTROS. (Romanos 10,12)

É testemunhado nas Escrituras que até o Apóstolo Paulo pediu a intercessão dos justos da Igreja:

“E orai por mim, para que me seja dado anunciar corajosamente os mistérios do evangelho. (Efésios 6. 17 à 20)

E não apenas os justos da terra, como também aos anjos e aos santos do céu também restou partilhada a graça de serem chamados à participarem da santidade da Igreja enquanto intercessores. Pela intercessão já no céu, Onias e Jeremias, após excluídos da vida terrena, puderam interceder pelo povo hebreu:

“Narrou-lhes ainda uma visão digna de fé, uma espécie de visão que os cumulou de alegria. Eis o que tinha visto: ONIAS, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, ORAVA POR TODO POVO JUDEU. Em seguida, apareceu do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável e nimbado por uma admirável e magnífica majestade. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: “Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus”. E JEREMIAS estendendo a mão, entregou a Judas uma espada de ouro, dizendo estas palavras ao entregá-la: “Toma esta santa espada que Deus te concede e com a qual esmagarás os inimigos”.” (II Macabeus 15. 12-15)”

E a Jó fora aconselhado a buscar pela intercessão de um anjo, a paz de Deus para os seus dias de aflição e provação:

Se perto dele se encontrar UM ANJO, UM INTERCESSOR ENTRE MIL, para ensinar-lhe o que deve fazer; (Jó 33, 23)”

Mas de nada valeriam as bençãos de prosperidade, milagres, curas e todas as graças recebidas por meio dos intercessores, se não tivessem êxito em conduzir os que as receberam, e os que por elas intercederam, à consciência de que nada seríamos sem Deus, criando a partir disso, o desejo de conhecê-lo, e de estar com Ele eternamente.

Para os intercessores que estão na glória do céu, já confirmados nesta consciência, a intercessão é a manifestação do amor eterno de Deus a todos os homens, e o cumprimento perfeito do mandamento de amar a Deus e ao próximo, o que corresponde amar Deus no próximo. Sendo certo que só Jesus é o Caminho, é certo também que todo caminho possui começo, meio e fim, e a intercessão dos santos fora instituída por Deus como início dessa caminhada,  a qual inicia e se encerra no próprio Cristo.

Os santos não pedem em nome ou em mérito próprio, senão em nome e em mérito de Cristo, razão porque, todas as bençãos que alcançamos por meio deles só puderam se realizar por causa, e por intermédio de Jesus.

Os milagres recebidos pela intercessão dos santos não nos salvam, mais o seu exemplo de caridade nos ensina que Jesus não é “DEUS SOZINHO” mas Cabeça de um grandioso Corpo sobrenatural repleto de membros, onde os mais fortes, por amor, socorrem aos mais fracos e debilitados na fé.

Cristo não é uma Cabeça sem membros, muito menos um conjunto de membros sem Cabeça ou acéfalos.

Seja na terra ou no céu, no Corpo de Cristo não há lugar para membros atrofiados e inúteis.

Os santos do céu não poderiam assistir indiferentes nossa luta diária pela salvação sem nos auxiliar. Se assim fosse, o amor Divino não estaria neles de modo perfeito, e por essa razão, são eles testemunhas da nossa luta contra o pecado e pela salvação: “Desse modo, CERCADOS CO­MO ESTAMOS DE UMA TAL NUVEM DE TESTEMUNHAS, desvencilhe­mo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus.” (Hebreus 12. 1-2)

E eles servem ao Senhor dia e noite, incessantemente:

“Porque nenhum de nós vive exclusivamente para si, e nenhum de nós morre apenas para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos; e, se morremos, é para o Senhor que morremos. Sendo assim, quer vivamos ou morramos, pertencemos ao Senhor. Porquanto foi por este motivo que Cristo morreu e voltou a viver, PARA SER SENHOR TANTO DE VIVOS QUANTO DE MORTOS. (Romanos 18. 7, 8 e 9)”

Por isso, que VIVOS OU MORTOS, nos ESFORÇAMOS EM AGRADAR-LHE. (II Coríntios 5.8)”

“Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm? Respondi-lhe: “Meu Senhor, tu o sabes”. E ele me disse: “Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro. Por isso, ESTÃO DIANTE DO TRONO DE DEUS E O SERVEM, DIA E NOITE, NO SEU TEMPLO. Aquele que está sentado no trono os abrigará em sua tenda. Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará,” (Apocalipse 7. 13-15)

Mortos fisicamente, porém, vivos pela salvação e graça que a eles fora concedida por Cristo.

Convinha Deus instituir a intercessão dos santos do céu em favor dos fiéis da terra para testemunhar que em Cristo, terra e céus estão agora definitivamente unidos, assim como a morte (sacrifício) está agora unida indelevelmente à vida (ressurreição).

“[…] por esta causa sobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência TODA FAMILIA NA TERRA E NO CÉU. (Efésios 3. 11) “[…] já declaramos que estais em nosso coração, CONOSCO UNIDOS DA MORTE E UNIDOS NA VIDA.” (II Coríntios 7. 2) “Tudo o que LIGARES NA TERRA, será LIGADO NO CÉU; (São Mateus 16. 19)”

Já a intercessão entre os justos na terra convinha a Deus, para testemunhar a caridade do forte para com o fraco.

SE UM MEMBRO SOFRE, TODOS OS MEMBROS PADECEM com ele; SE UM MEMBRO É TRATADO COM CARINHO, TODOS OS OUTROS SE CONGRATULAM por ele. (I Coríntios 12. 26)

“Sendo assim, FORTALECEI AS MÃOS ENFRAQUECIDAS e os joelhos vacilantes. (Hebreus 12. 12)” “Josué obedeceu Moisés e foi combater Amalec, enquanto Moisés, Aarão e Hur subiam ao alto da colina. E, quando Moisés tinha a mão levantada, Israel vencia, mas logo que a abaixava, Amalec triunfava. MAS COMO SE FATIGASSEM OS BRAÇOS DE MOISÉS, PUSERAM-LHE UMA PEDRA POR BAIXO E ELE ASSENTOU-SE NELA, ENQUANTO AARÃO E HUR LHE SUSTENTAVAM AS MÃOS DE CADA LADO: SUAS MÃOS PUDERAM ASSIM CONSERVAR-SE LEVANTADAS ATÉ O PÔR DO SOL, E JOSUÉ DERROTOU AMALEC e seu povo a fio da espada.” (Êxodo 17. 10-13)”

É ainda o testemunho da unidade fraterna e caridosa entre os membros de um mesmo Corpo, regido por uma única Cabeça. Corpo dividido é corpo sem vida, um cadáver, poisn toda divisão além de enfraquecer ou matar, se opõe à unidade na qual os céus e a terra se encontram num matrimônio indissociável entre o Digníssimo Esposo (Cristo) e a imaculada Esposa (Igreja) que nos conduz à nascermos novamente dessa união:

“[…] à Ele, seja dada Glória, NA IGREJA. (Efésios 3. 21)

“[…] e que não haja dissensões entre no Corpo, e que os membros tenham o mesmo cuidado, uns para com os outros. (I Coríntios 12, 25)”

A intercessão de uns pelos outros, convém para formar a consciência que ninguém no mundo basta em si mesmo, sendo este, o melhor antídoto contra o pecado do egoísmo.

CARIDADE: A VIRTUDE DO AMOR ETERNO QUE UNE OS SANTOS DO CÉU AOS FIÉIS DA TERRA.


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