DO CASTIGO ETERNO AOS CONDENADOS: A PERPETUAÇÃO DO PECADO NÃO PERDOADO PERPETUA A JUSTIÇA SOBRE O PECADOR IMPENITENTE.

Pecado é toda ofensa contra a consciência, o Amor, a Ordem e as Leis Eternas de Deus, decorrente do apego perverso à desordem natural que coloca a vontade humana em desalinho com a Vontade Divina.1

Como ensina a Escolástica, o pecado, sendo o erro de foco (peccatum), é qualquer ato humano pensado, dito e feito contra Deus2 ou que não mire Deus como fim último de seu propósito.

Deus é alvo do pecado, atingido em sua Soberana Autoridade desafiada pela desobediência humana, que é matriz das transgressões espirituais que só Ele poderá perdoar.

Assim, é certo que nenhum pecado pode ser desfeito ou apagado, senão por intermédio único e exclusivo de Deus, pela via do arrependimento e da conversão do pecador, o que só ocorre por meio do sacrifício de Cristo:

SEMPRE SOU EU QUEM DEVE APAGAR TUAS FALTAS, e não mais me LEMBRAREI DE TEUS PECADOS. (Isaías 43, 25)”

Todo pecador impenitente que voluntariamente não se arrependeu em vida dos delitos cometidos contra o Amor de Deus, e assim permaneceu, será selado, e definitivamente confirmado neste estado por ocasião da sua morte. Desse modo, toda ofensa feita contra Deus, a qual não restou perdoada no tempo do arbítrio e da razão que é a vida terrena, tornar-se-á uma ofensa perpétua:

“[…] porque desprezou a palavra do Senhor e violou o seu preceito; SERÁ CORTADO E LEVARÁ O PESO DE SUA INIQUIDADE”. (Números 15, 31)

Todo aquele que amaldiçoar o seu Deus LEVARÁ O SEU PECADO. (Levítico 24, 15)”

Não cometeu Acã, filho de Zerá, transgressão no tocante ao anátema? Não veio ira sobre toda a congregação de Israel, DE MODO QUE AQUELE HOMEM NÃO MORREU SÓ, NA SUA INIQÜIDADE? (Josué 22.20) ”

A condenação diante da justiça temporal não impedirá a condenação e a pena eterna no Juízo Divino:

“Quem amaldiçoar o pai ou a mãe SERÁ PUNIDO DE MORTE. Amaldiçoou o seu pai ou a sua mãe: LEVARÁ A SUA CULPA. (Levítico 20, 9)”

Ora, se Deus não mais se lembrará dos pecados que foram perdoados (Isaías 43, 25), de certo que, em sentido contrário, sua lembrança dos pecados não perdoados permanecerá eternamente. Por consequência, a Justiça e o castigo sobre o pecador serão incessantes, porque o pecador sem perdão, estará eternamente preso ao mal que produziu em vida através dos pecados:

DIANTE DE MIM ESTÁ SEMPRE O MEU PECADO. (Salmo 50,5) ”

O HOMEM SERÁ PRESO POR SUAS PRÓPRIAS FALTAS, E LIGADO COM AS CADEIAS DE SEU PECADO. (Provérbios 5, 22) ”

A JUSTIÇA DE DEUS É IMORTAL. (Sabedoria 1, 9)

Pecar é ofender gravemente a Deus:

Pequei contra ti, CONTRA TI SOMENTE, E PRATIQUEI O MAL que tanto reprovas. Portanto, JUSTA É A TUA SENTENÇA, E INCONTESTÁVEL, AO JULGAR-ME CONDENADO. (Salmo 51,4) ”

O pecado coloca Deus e o ser humano em campos opostos, em inimizade capital, situação que permanecerá mesmo depois de cessado no tempo e na história o ato de pecar.

Por isso, é necessário um movimento racional da fé chamado arrependimento, para reconciliar, reparar e reconduzir o pecador de volta ao estado beatífico que o recoloca ao lado de Deus, o que lhe permitirá novamente acessar as glórias celestiais.

Se o ato de pecar cessa em sua prática, é certo que os seus efeitos não cessam.

Pelo contrário, perpetuam-se, não havendo arrependimento, e, consequentemente, o perdão. Pode se levar apenas alguns minutos para matar, mas a lesão e a desordem causada à Lei Eterna de Deus, se não reparada pelo perdão Divino, perdurará para sempre.

Ensina Santo Tomás de Aquino:

A mácula do pecado subsiste na alma, mesmo depois de cessado o ato. E a razão é que a mácula, como já dissemos (a. 1), implica a falta de luz, pela privação da luz da razão ou da lei Divina. Portanto, enquanto o homem ficar fora dessa luz, nele subsiste a mácula do pecado; mas, quando voltar à luz da razão Divina, o que se dá pela graça, então cessará a mácula. Embora, porém, cesse o ato do pecado pelo qual o homem se afastou da luz da razão ou da lei Divina, nem por isso volta imediatamente ao estado anterior; mas, para tal, é necessário um movimento da vontade contrário ao primeiro movimento. Assim como quem se distanciar de outrem, por um movimento, deste não fica próximo imediatamente com o cessar do movimento, mas é preciso que se aproxime, voltando, por um movimento contrário. (Suma Teológica. Q 86, DO PECADO E SUA MÁCULA, art. 2º)

Conclui-se que enquanto houver a ofensa não perdoada, haverá o castigo não cessado.

Enquanto houver a ofensa a Deus causada pelos efeitos contínuos e não encerrados do pecado, outrora obrado, haverá justa causa para o juízo condenatório de Deus ser aplicado de modo contínuo e incessante sobre o pecador.

O pecado pode ser instantâneo na conduta que lhe vem a existência. Todavia, será  PERMANENTE EM SEUS EFEITOS.3

Pecado é um ultraje a Deus, que sem a Graça de Cristo, privará o indivíduo da remissão e do perdão, tornando-o eternamente um pecador. 

Portanto, é certa a ciência de que todo pecado finito na prática, é infinito em seus efeitos.

Finito na Prática: Na ação humana que se realiza no tempo, e não raras vezes se concebe em instantes;

Infinito nos Efeitos: Na intensidade e no resultado eterno que provoca, pois todo atentado que é cometido contra Deus, se não for perdoado, existirá para sempre na história entre o pecador e a Divindade. Logo, a Justiça Divina seria apenas uma vingança mesquinha se houvesse apenas a destruição do pecador, deixando permanente os efeitos concretos da conduta má e ilícita que ele cometeu, e por consequência, insatisfeita para sempre a cólera do próprio ofendido, no caso, Deus.

Nada justifica uma pena finita e instantânea (morte ou destruição) para uma ofensa contínua e permanente, e, portanto, eterna.

Justiçar é retribuir o mal com um castigo que lhe seja proporcional ao dano causado. (suum cuique tribuere).

Acaso o dano causado pelo homicida, finda no momento em que ele consuma o ato de assassinar?

Os efeitos vinculados ao pecado, não deixarão de existir pelo fato do pecador ter morrido ou aniquilado por Deus.

Caso o pecado e seus efeitos extinguissem no curso da história, pelo tempo decorrido da cessação do ato prático de pecar independente da reparação, da confissão e do perdão alcançado nos méritos do sacrifício vicário de Cristo, este sacrifício teria sido inútil:

Esses são os sobreviventes da grande tribulação; LAVARAM AS SUAS VESTES E AS ALVEJARAM NO SANGUE DO CORDEIRO. (Apocalipse 7, 14)”

Mas, SE NÃO LAVAR AS VESTES E O CORPO, LEVARÁ SOBRE SI A SUA INIQUIDADE”. (Levítico 17, 16)”

A morte corporal do ímpio consumará neste os efeitos de uma malícia infinita por conta dos pecados cometidos em vida:

E se alguma coisa da carne do sacrifício de suas ofertas pacíficas for comida no terceiro dia, ela não será aceita, nem será imputada ao que a oferece: será uma abominação; A ALMA QUE DELA COMER LEVARÁ A SUA INIQUIDADE. (Levítico 7. 18)  

Ensina Monsenhor Gastón de Ségur:

A santidade infinita de Deus não deve repelir eternamente um ser que jaez no estado eterno de pecado? Ora, tal é o réprobo no inferno.” […] “Escolheste loucamente a morte e o mal; então estareis permanentemente na morte e no mal que livremente escolheste; […] O MAL E ELE SÃO INSEPARÁVEIS. “Pergunto-vos: não será rigorosamente justo que se aplique um castigo imutável para uma perversidade imutável? No inferno, os condenados já não têm tempo, nem a Graça de se arrepender, e não podem ser perdoados, e por isso, devem necessariamente sofrer um castigo imutável e eterno. (O Inferno? Liv. Catholica Portuense, p. 57, ano 1.905) ”

O castigo do pecador será eterno e irrevogável, porque o juízo e o julgamento condenatório de Deus, são também eternos e irreversíveis: Mas os céus e a terra que agora existem são guardados e reservados para o fogo no dia do juízo e da perdição dos ímpios. (II São Pedro 3, 7)

[…] eles sofrerão como castigo A PERDIÇÃO ETERNA, LONGE DA FACE DO SENHOR, e da sua suprema glória. (II Tessalonicenses 1, 9) ”

[…] SERÁ ATORMENTADO PELO FOGO E ENXOFRE diante dos seus santos anjos e do Cordeiro; (Apocalipse 14, 10) ”

“Ali será PRANTO E RANGER DE DENTES, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, enquanto que vós estareis sendo lançados fora” (São Lucas 13,28)

E o Diabo, seu sedutor, foi atirado no lago de fogo e enxofre, onde estão também a besta e o falso profeta; e serão atormentados dia e noite PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS” (Apocalipse 20,10)

E estes (condenados) irão para o CASTIGO ETERNO, e os justos, para a vida eterna. (São Mateus 25. 46)

Neste sentido, foi, e será sempre a orientação do Magistério da Verdadeira e Única Igreja.


1 Um dos pensamentos escatológicos mais bizarros e grotescos surgidos da cisão protestante é o “aniquilacionismo” defendido nas seitas adventistas do sétimo dia. Estes tentam sustentar a herética ideia que Deus não castigará eternamente o condenado no inferno, porque a ação de pecar no pecador não foi eterna, mas finita no tempo, e assim, haverá um castigo proporcional a duração do pecado, e só depois desse castigo Deus destruirá totalmente o pecador. Eles negam, portanto, a existência do inferno.

2 Suma Teológica de Santo Tomás. https://sumateologica.wordpress.com/category/pecado-2/

3 A morte física cessa a fase do arbítrio. Não poderá após isto, escolher o amor ou ódio, se arrepender, pecar ou ser fiel. (Ecle 9. 6 e 10). Mas os efeitos desse ódio pecaminoso ou do amor, obrados quando encarnados, serão a razão do seu juízo final, traçando seu destino, acompanhando o homem no mundo porvir, tanto quanto o efeito da obediência da fé que confirma o fiel desencarnado na glória e na beatitude eterna.

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