POR QUE NA EUCARISTIA, APÓS A CONSAGRAÇÃO, NÃO PODE MAIS HAVER PÃO, NEM VINHO?

O sacramento do Altar, a Santíssima Ceia instituída por Cristo, cujo alimento sobrenatural é a sua própria carne (pão) e sangue (vinho), consiste especialmente num sinal visível e material da comunhão perfeita entre a nossa humanidade e a Dele.

Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. POIS NELA DEUS IMPRIMIU O SEU SINAL. (São João 6, 27)”

Toda união perfeita une plenamente, nada lhe escapando.

Sendo Cristo ESPÍRITO e MATÉRIA por ser o DEUS ENCARNADO HOMEM, convinha unir-se ao ser humano o qual é também  corpo e alma: “Assim, NÓS embora sejamos muitos, FORMANDO UM SÓ CORPO (uma só humanidade) em Cristo.” (Romanos 12.4, 5)

Numa união plena não pode haver supérfluos que a alterem, adulterem ou contaminem, desvirtuando-a daquilo que se pretende unir. A finalidade da Eucaristia é unir em comunhão a nossa humanidade com a humanidade que está em Deus, através do Filho, que é Deus feito homem gerado em carne e sangue.

Não existe comunhão entre nossa humanidade e comida comum.

Ensina a Igreja que no Altar não há lugar para simples comida, mas para o sacrossanto sinal da Nova Aliança, “[…] porque o reino de Deus NÃO é de COMIDA, NEM de BEBIDA”. (Romanos 14, 17)

Consagrados pelos sacerdotes da linha sucessória petrina, não mais permanecem as espécies primitivas do pão e do vinho, pois o que remanesce é um cálice de VINHO CELESTIAL da Taça de Deus, e um PÃO ETERNO que nunca finda, porque a carne de Cristo é verdadeira comida sem acréscimos, e seu sangue verdadeira bebida sem mistura:

“Há na MÃO do SENHOR uma taça de VINHO espumante e aromático. DELA DÁ DE BEBER. HÃO de SORVÊ-LA os ÍMPIOS TODOS da TERRA.” (Salmo 74. 9)

[…] SOBRE A MESA DOS PÃES1 DA PROPOSIÇÃO, O PÃO PERPÉTUO ESTARÁ SOBRE ELA. (Números 7. 4) 

Porque a minha carne É VERDADEIRAMENTE comida, e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida; (Sâo João 6, 55)

“Eu sou o PÃO VIVO que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a MINHA CARNE para a salvação do mundo. Em verdade vos digo: se não comerdes a CARNE do Filho do Homem, e não BEBERDES o seu SANGUE, não tereis a vida em vós mesmos.” (São João 6, 51 a 53)

Desejou Cristo unir-se ao ser humano, para que a humanidade de ambos, unida, possa ser a oferta sacrificial para redenção dos pecados. Não se unir a comida que apenas sacia o apetite natural.  Os profetas já tinham predito que o Altar não poderia ser maculado com uma adoração por meio de elementos estranhos à Divina Humanidade do Cordeiro de Deus, e qualquer coisa diferente disso seria repudiado: A MESA DO SENHOR ESTÁ MANCHADA; o que nela se oferece é ALIMENTO COMUM.” (Malaquias 1. 12 e 13)

Qualquer alimento natural, dentre os elementos da Ceia, seria inútil, e inutilidade é defeito, traço de imperfeição incompatível com a excelência e virtuosidade que se requer e se tem na comunhão sacramental.

Ao perfeito nada lhe FALTA, e nada lhe EXCEDE. Tudo que falta gera deficiência; assim como tudo que excede gera confusão, e Deus não é Deus de confusão. (I Coríntios 14, 33)

Por esse motivo, na consagração da Eucaristia, não há lugar para alimento comum. “Não é, entretanto, a COMIDA que nos torna agradáveis a Deus: COMENDO, NÃO GANHAMOS NADA; E NÃO COMENDO, NADA PERDEMOS. ” (I Coríntios 8, 8)

Pão e vinho, enquanto alimentos comuns, de nada servem a redenção humana.

Tudo em excesso é abusivo, dificultando o equilíbrio entre os harmônicos, e não raras vezes contamina  aqueles elementos que se alinham perfeitamente. A Eucaristia tem por fim ligar nossa humanidade pecadora à Humanidade incorrupta de Cristo, num mesmo CORPO, para que unidos ao seu sacrifício, possamos ser Nele, oferta santa, viva e justa a Deus para remissão dos pecados. Isso ocorre para que haja ressurreição do  corpo, até então regido pela “lei da morte”. Por isso, sobre o legítimo culto de adoração (latria) nos fora ensinado:

“Eu vos exorto, pois, irmãos, pela Misericórdia de Deus, a OFERTARDES VOSSOS CORPOS EM SACRIFÍCIO VIVO, santo e agradável a Deus: é esse o vosso CULTO racional. (Romanos 12.1)”

E como poderemos oferecer nossos corpos santos em sacrifício a Deus?

“O CÁLICE de bênção, que benzemos, NÃO É A COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E O PÃO QUE PARTIMOS NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? (I Coríntios 10. 16, 17 e 18)  NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM AS VÍTIMAS? (II Coríntios 10, 16, 17 e 18)

Noutra profecia é reportado que só a carne e o sangue vertidos de um sacrifício ocorrido na montanha nos serviriam, e nos seriam dados como alimento sobrenatural, sem misturas ou composições: “[…] reuni-vos para UM GRANDE SACRIFÍCIO NAS MONTANHAS DE ISRAEL. Ireis COMER A CARNE dos heróis e BEBER O SANGUE dos príncipes da terra: carneiros, cordeiros, cabritos, touros robustos de Basã. Nesse SACRIFÍCIO ao qual vos convido, COMEREIS A GORDURA até vos fartardes, e BEBEREIS SANGUE ATÉ A EMBRIAGUEZ do SACRIFÍCIO QUE OFERECI POR VÓS.(Ezequiel 39. 17, 18 e 19)”

Aquilo que recebem os fiéis, após a consagração do pão e vinho, já não é mais pão, nem vinho, senão CORPO e SANGUE de CRISTO, como alimento espiritual sempiterno debaixo das aparências de pão e vinho:

Trabalhai, não pela COMIDA QUE PERECE, mas pela que DURA ATÉ A VIDA ETERNA, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu o seu SINAL. (São João 6, 27)

“Pois a MINHA CARNE é VERDADEIRAMENTE uma COMIDA e o MEU SANGUE, VERDADEIRAMENTE uma BEBIDA.(São João 6, 55)”

“De maneira que, quando vos reunis, já NÃO É a refeição do Senhor que celebrais. Porque cada um se antecipa a comer a sua ceia. E uns tem na verdade fome, enquanto outros estão excessivamente saciados. Não tendes O QUE COMER e BEBER? (I Coríntios 11. 21.22) “[…] aquele que comer do pão ou beber do Cálice do Senhor indignamente, SERÁ RÉU DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR; portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que COME E BEBE SEM DISCERNIR O CORPO, COME E BEBE A PRÓPRIA CONDENAÇÃO.” (I Coríntios 11, 27 à 29)

Ora, através das espécies do PÃO e VINHO que vemos e recebemos, honramos as REALIDADES INVISÍVEIS da carne e sangue. Percebemos pelos sentidos aquilo que é próprio e limitado aos sentidos, no caso, pão e vinho, e não a carne, e nem o sangue. Todavia, convém as coisas da fé se mostrarem invisíveis para a autenticidade, honra e mérito da própria fé.

Feliz aquele que não viu, e creu”, disse o Cristo para São Tomé. (São João 20, 14)

A fé é a certeza das realidades invisíveis. (Hebreus 11, 1) PARECIA-VOS que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um MANJAR INVISÍVEL, e minha bebida NÃO PODE SER VISTA pelos homens. (Tobias 12, 19)

Podendo agir soberanamente sobre todas as coisas, e sobre si próprio, Cristo agora se apresenta em sua Humanidade sob nova forma e aspecto, posto que  na Eucaristia, sua humanidade onipresente se apresenta de um modo e uma forma específica.

Só uma defesa de acréscimo ilícito de elemento inútil retirando a harmonia e perfeição da comunhão, é que se pode sustentar a permanência do pão e vinho, como alimentos naturais, após a consagração.

Outro ponto que  chama atenção, é que a existência de comida comum na oferenda sacrificial, a tornaria impura. O que celebramos na Eucaristia é o Corpo de Cristo em ato LATRIA ou adoração puríssima e santíssima. Devotamos aos elementos da Ceia Eucarística, a ADORAÇÃO só devotada a Pessoa Divina. Ora, não poderíamos adorar a Cristo Eucarístico sem dele distinguir o pão comum e o vinho natural, pois do contrário,  adoraríamos também a comida e a bebida.

Santo Tomás citando Santo Ambrósio (século III) ensina:

Embora vejamos imagem do pão e vinho, devemos crer que depois da consagração não são mais que a carne e o sangue de Cristo. Contrariaria a excelência desse sacramento, se nele existisse alguma substância criada que não pudesse ser ADORADA em LATRIA Deus tomou o pão e o vinho, não para que eles permanecessem assim neste sacramento, mas para torná-los no seu corpo e no seu sangue.” (Suma Teológica Q 75, art. 2, Livro III Pars – Da Eucaristia)

Não lhe ofertamos refeições, mas o sacrifício de efeito perpétuo, Divino e humano, cabendo somente esses dois elementos presentes na comunhão: SACRIFICAM a mim em TODO LUGAR e oferecem em MEU NOME uma OBLAÇÃO TODA PURA, pois grande é o Meu Nome em TODAS as nações. (Malaquias 1,11).” Este holocausto será PERPÉTUO; E OFERECIDO EM TODAS AS GERAÇÕES FUTURAS, À ENTRADA DA TENDA DE REUNIÃO, DIANTE DO SENHOR, ONDE VIREI A VÓS, PARA FALAR CONTIGO.3(Êxodo 29, 43)”

Por onde, tomou Cristo o pão e vinho, e disse: 

 ISTO É meu CORPO; e ISTO É meu SANGUE.”

Ora, se é carne e sangue já não é o que era antes, ou seja, pão e vinho comuns.

Cristo não disse que, “nisto ESTÁ o meu corpo, e nisto ESTÁ o meu sangue,” mas sim“ isto É meu corpo e sangue.” (São Mateus 26.26 -29)

Conhecendo a natureza humana, e sabendo que repugnava a decência e sensibilidade ingerir em antropofagia a carne e o sangue in natura, é que Cristo, por sua Divindade, nos dá sua verdadeira carne e seu verdadeiro sangue nas aparências e sabores do vinho e pão, sem que o vinho e o pão ali estejam.

Ensinou Santo Tomás de Aquino:

“[…] não são os homens acostumados, antes, tem eles horror a comer carne e beber o sangue humano. Por isso, nos é proposto que tomemos sua carne e seu sangue sob as espécies do pão e do vinho.” (Suma Teológica, Q 75, art 5 Livro III Pars – Da Eucaristia)

Por não compreenderem que a sua NATUREZA DIVINA atuaria na NATUREZA HUMANA, colocando a substância do sangue na forma do vinho, e a substância da carne na forma do pão, os cafarnaistas rotularam por loucas as palavras de Jesus:

“POIS A MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE UMA COMIDA E O MEU SANGUE, VERDADEIRAMENTE UMA BEBIDA; ‘Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ISTO É MUITO DURO! QUEM O PODE ADMITIR? Essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: COMO PODE ESTE HOMEM DAR-NOS DE COMER A SUA CARNE? (São João 6. 52, 55, 60 a 63)

A humanidade de Cristo, sendo ONIPRESENTE,4 pode estar no Céu, e, simultaneamente, nos Altares do mundo todo.

Existisse comida comum na Eucaristia, na qual a natureza humana de Cristo repousa, implicaria ferir a latria da comunhão.  Nem por hipótese poderia a Igreja  admitir a teoria da “união sacramental” de Lutero5 (1.530), que diz que os elementos de comida natural permanecem; e nem a consubstanciação de Berengário de Tours (1.036), que diz que Cristo está contido localmente dentro do pão e do vinho ou ainda a teoria memorialista de Zuínglio (1.529) que diz que a “ceia do senhor” não seria nada mais que um teatro de memória póstuma de Jesus, sem presença real nos elementos da ceia. Todas essas teorias, que de alguma maneira negam a transubstanciação, decorrem da tentativa de restringir a fé apenas ao âmbito da limitada razão humana.

Sendo a razão natural, refém dos sentidos, sem a fé não conseguiríamos entender as palavras de Jesus: “MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE COMIDA, E MEU SANGUE VERDADEIRAMENTE BEBIDA.

Se Deus se fez homem, sua humanidade pôde se fazer pão.

Duvidar de um, é ter de duvidar do outro.


1 A palavra MESA, TRAPEZA no grego, é empregada no sentido de Altar, local mais elevado, monte sagrado. (MESA DOS TEMPLOS, MESA DOS ÍDOLOS e MESA DO SENHOR. I Cor 8, 10 e I Cor 10, 21)

2Pois não seguimos fábulas engenhosas, quando vos fizemos conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; mas nós fomos testemunhas oculares da sua majestade. (II Pe I, 16).

3 Onde virei para falar contigo.” Anuncio da PRESENÇA REAL na Eucaristia.

4 Estarei com vocês até o fim dos tempos (Mt 28, 20); Isto é meu corpo. (Mt 26.26)

5 Formula of Concord Solid Declaration VII.36-38: “em adição às expressões de Cristo e São Paulo (o pão na Ceia é o corpo de Cristo ou a comunhão do corpo de Cristo) também as formas: sob o pão, com o pão e no pão [o corpo de Cristo está presente e é ofertado], são empregadas; é por meio delas que a transubstanciação papista pode ser rejeitada e a união sacramental da essência inalterada do pão e do corpo de Cristo, [pode ser] indicada. Quanto a teoria puramente “memorialista” adotada pelos dissidentes do luteranismo, será objeto de outra postagem.

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2 opiniões sobre “POR QUE NA EUCARISTIA, APÓS A CONSAGRAÇÃO, NÃO PODE MAIS HAVER PÃO, NEM VINHO?

  • 10 de maio de 2020 em 21:14
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    Parabéns. Muito bom o texto. Jesus Eucaristico, nosso sustento e força. Que o Espirito Santo te ilumine.

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    • 11 de maio de 2020 em 15:04
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      Obrigado amiga Elida. Sua presença muito me honra. Espero que tenha gostado do site. Está ainda em fase de ajustes, e correção redacional, mas em breve estará completo. Obrigado por sua preciosa atenção. Paz, saúde e alegria a todos da família. Visite-nos sempre, e caso necessite, disponha de todo material, que sendo tesouro da Igreja, é nosso por direito.

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