EXISTE CONTRADIÇÃO ENTRE PAULO (JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) E TIAGO (JUSTIFICAÇÃO PELAS OBRAS) COMO AFIRMOU LUTERO? O EQUÍVOCO DO PENSAMENTO REFORMADOR, À LUZ DA ESCOLÁSTICA E DAS ESCRITURAS.

Todo ato humano é uma exteriorização das disposições contidas na vontade e no intelecto.

Toda obra é o conjunto dos atos visíveis e invisíveis1 ordenados a consecução de um fim, atingindo um certo propósito, criando, alterando, extinguindo ou impedimento o nascedouro de uma realidade. É, portanto, esta realidade, que sustenta a ideia e o pensamento substancial, o qual se opõe a falsa retórica e ao sofisma.2

É certo que a fé consiste num dom Divino infuso nos indivíduos, que os move à unirem-se a Deus, tornando unas as vontades e ações dos fiéis, com a vontade e ação Divina.3 Neste compasso, entender a natureza da fé e dos atos humanos4 é de fundamental importância para compreensão da ação justificadora da graça de Deus sobre os indivíduos, bem como, a inexistência de contradição entre São Paulo e São Tiago quanto ao modus operandi da Justiça Divina sobre a humanidade.

Disse São Tiago: “Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21) Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé? (São Tiago 2, 24)”

Já São Paulo aparentemente pontua:

“Ora, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi “imputado em conta” de justiça. (Romanos 4. 3 e 4)”

Ante a promessa de Deus, não vacilou, não desconfiou, mas conservou-se forte na fé e deu glória a Deus. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera. Eis por que sua fé lhe “foi contada” como justiça. (Romanos 4. 20 a 23)”

“Quando ela (justiça) foi imputada? Antes ou depois da circuncisão? Depois é que recebeu o sinal da circuncisão, como selo5 da justiça que tinha obtido pela fé, antes de ser circuncidado. (Romanos 4.10)”

Martinho Lutero, pai do protestantismo, opinou sobre a aparente “contradição” no trato do tema entre os dois apóstolos:

“[…] exalto essa epístola de Tiago e a considerado boa […] mas vigorosamente, propugna a lei de Deus. Para fundamentar minha opinião, não a considerado escrito apostólico, pelas seguintes razões. Em primeiro lugar, contrariando frontalmente S. Paulo e toda escritura, ele imputa justiça às obras, dizendo que Abraão teria se tornado justo por suas obras ao sacrificar seu filho. Enquanto isso, S. Paulo, em romanos, ensina que Abraão teria se tornado justo sem obras, exclusivamente por sua fé, pois sua justificação ocorre antes dele sacrificar o filho. […] Esse Tiago não faz outra coisa, senão promover a lei e as obras. ” (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 153 e 154, tradução: Walter Schlupp)

E ainda:

“Daí sucede que somente a fé justifica. (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 131, tradução: Walter Schlupp)

No âmbito da sua incapacidade intelectual e falta de visão espiritual que lhe permitisse harmonizar o pensamento paulino com o escólio de Tiago, opta o reformador, por capricho, e puro arbítrio de opinião, descredenciar a autoridade deste último ao afirmar, segundo sua ótica particular sobre a carta de Paulo aos romanos, que “somente pela fé o homem seria justificado6, conforme “ocorrera” com Abraão.

Tal é matriz da teoria da sola fide,7 a qual defende que a fé seria a condição única e bastante para que o ser humano se tornasse justo diante de Deus, haja vista, que Abraão, ao que pareceu, fora justificado antes de sua circuncisão, e antes do sacrifício de Isaac.

Mas essa tese padece de irremediável defeito, e incurável incorreção, diante da não percepção de que a justiça da fé, outrora atribuída a Abraão, lhe fora num primeiro momento apenas conferida a título de fiança (em conta), pois haveria de ser confirmada (provada) posteriormente.

Afirmou São Paulo: “Mas aquele que sem obra alguma crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é IMPUTADA EM CONTA de justiça.” (Romanos 4.5) 

A expressão “em conta” no grego, logizomai (λογίζομαι)8, implica ser creditada, suposta ou confiada para ocasião oportuna, conforme ensinou São Paulo, completando na carta aos hebreus, aquilo que restou inicialmente dito aos romanos:

“Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac.” (Hebreus 11.17 e 18)

O termo “a prova” na língua grega, peirazó (πειράζω)9, denota a condição precária de uma situação, à mercê de ser testada para ser validada. Foi neste sentido que ensinou Tiago:

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras vã? Vês como A FÉ COOPERA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2.18)”

Ora, uma fé estéril, impossibilitada de ser exteriorizada na prática por efeitos úteis e justos, é vã, não disposta na vontade, nem no intelecto, posto que ainda não nascida na alma. Toda fé há de ser provada (confirmada) por seus atos para que se alcance um fim, e juntos, portanto, a fé, a obra da fé e o fim último que é a vontade Divina, concorram para realização da perfeita e eficiente ação justificatória de Deus sobre os indivíduos, como aconteceu com Abraão.

Se o indivíduo peca em ato, só por ato poderá dar reparação desse pecado.

Para melhor ilustrar essa verdade, mister a análise pormenorizada dos acontecimentos que circundaram Abraão, levando-lhe à condição de justo diante de Deus.

De plano, havemos de identificar o objeto finalístico da justiça, conforme o propósito de Deus. O passo seguinte será identificar a realidade que conduziu Abraão ao propósito justo, e, por fim, identificar a causa (motora) que o moveria à essa realidade.

De modo algum, em sã consciência, alguém ouse afirmar que era desejo de Deus causar a morte de Isaac pelas mãos de seu pai, Abraão, para só assim, imputar-lhe justiça. O propósito do Criador era mostrar o sacrifício de Cristo através da pessoa de Isaac, e não o sacrifício de Isaac propriamente dito, conforme testemunhado pelo próprio Cristo: ABRAÃO VIU O MEU DIA e rejubilou. ” (São João 8. 56)

O fato mais importante da revelação de Deus à Abraão, portanto, era prefigurar, mostrar na pessoa de Isaac, o sacrifício do Cordeiro no qual somos salvos.

O nascimento do primogênito legal10 Isaac, fora em razão de apontar para o sacrifício de Jesus.

Mostrar na pessoa de Isaac, um filho único e primogênito, cujo nascimento fora anunciado por Deus11, e que por obediência a Abraão, seu pai, aceitou o madeiro sobre seus ombros,12 subiu ao cume de um monte, assentou-se sobre um altar de rocha, e colocou sua vida à disposição de Abraão para o sacrifício.13

Em nenhum momento, Deus condiciona a participação de Abraão em sua Justiça Divina, por meio da morte de Isaac, mas sim, pela participação da Justiça através da morte futura do próprio Cristo. Não se cogita, portanto, de qualquer inutilidade da obra abraâmica por não ter consumado a morte de Isaac, vez que só não se produziu tal óbito, exatamente, pela intervenção divina que a impediu, provando que não era desejo de Deus a consumação deste sacrifício:

“Abraão, eis me aqui! Não estendas a mão contra o menino, e não lhe faças mal. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu único filho. (Gênesis 22. 11 e 12) ”

Assim, pela obra da obediência, e não pela morte sacrificial de Isaac, Abraão confirmou-se na condição de justo em Deus, e por meio da subordinação desse patriarca, Deus revelou sua justiça aos povos, dando um ensaio do martírio vindouro de seu próprio Filho Divino.

Partido da obediência, analisemos o segundo ponto, que tange na realidade dentro da qual estava inserido Abraão.

É certo que para tornar esta obediência realidade, o patriarca inseriu-se num contexto de ações concretas pelas quais, após imputado (apontado), fora atestado (confirmado) por justo diante de Deus.

A confirmação da Justiça de Deus em Abraão, no entanto, não poderia decorrer por teoria, hipótese ou mera ficção não expressada no mundo real mediante atos, atitudes e decisões de vida. Do contrário, bastaria Deus lhe indagar:

 —  Abraão, você crê em mim?

E ele responderia:

—  Sim, meu Senhor, eu creio!

Então tudo se resolveria no imaginário e a justiça, nele, seria apenas imputada, mas nunca certificada.

Todavia, as virtudes internas de Abraão, provenientes de seu credo, exigiam-lhe manifestações explícitas e reais desta fé por meio de atos práticos que incluiriam condutas reais e vívidas.

Ora, não pode haver virtude diversa do seu ato, pois todo aquele que se diz fiel não pode agir pelas obras da infidelidade, nem o infiel pelas obras da fé, assim como o justo, que, ou se consolida na feitura dos atos da justiça, ou se perde na omissão deles.

Ensinou Santo Tomás, o mestre maior da Escolástica:

“A fé interna, mediante o amor, causa todos os atos virtuosos exteriores, mediante todas as outras virtudes, imperadas e não ilícitas. ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2)

Como fiel a Deus, Abraão evidenciou todo seu amor e obediência amando Deus sobre todas as coisas, ao ponto de se dispor em dar início ao sacrifício do próprio filho para que o mandamento Divino não fosse frustrado:

É nisso que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que NÃO PRATICA a justiça não é de Deus, (I São João 3, 10)

Ora, isso resultou numa série de decisões e de atos palpáveis, dentre eles, ter levado Isaac ao local do sacrifício almejando ceifar-lhe a vida,14 iniciando os atos necessários à execução da morte sacrificial de seu filho,15 preparando contra ele o golpe fatal com um punhal. Conclui-se que, se em Isaac, a finalidade de Deus era apenas realizar um ensaio do sacrifício de Cristo, os meios para esse fim foram os atos concretos, sólidos e materiais nos quais Abraão, pai de Isaac, confirmou-se na Justiça Divina, na qual, outrora, já havia sido imputado.

Só após Abraão ter se disposto em sacrificar seu filho, e, de fato, praticados atos que permitiriam levar a morte seu primogênito, é que Deus lhe abençoa, e lhe ratifica na condição de justo.

O que Deus considerou para completar a justificação do patriarca, é que este, por obediência, não se recusou-se em ofertar seu filho Isaac em sacrifício de morte, provando assim, a sua fé mediante ações concretas, atitudes ativas e práticas:

“[…] não me recusaste teu filho, TEU ÚNICO FILHO, eu te ABENÇOAREI.” (Gênesis 22.16)

São Tiago jamais afirmou, como acusou levianamente Lutero, que a justiça estava em Abraão por causa das obras da Lei, mas porque este demonstrou firmemente toda sua fé em Deus mediante sua obra de obediência a essa fé, amando-o mais que ao próprio filho:

Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21) ”

Mostra tua fé sem obras, e eu TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

Sua fé não era inoperante, porque no amor a Deus produziu os frutos da obediência, que conduziram-no à prática da Justiça Divina, como aliás, ensinou São Paulo quando escreveu: Estar circuncidado ou incircuncidado de nada vale em Cristo Jesus, mas a fé que OPERA PELO AMOR. (Gálatas 5.6)”

Consiste em grave erro supor ou defender a ideia de que,  por conta da fé antecedente, as boas obras consequentes, produzidas por esta fé, seriam inúteis à consolidar-nos como justos diante de Deus:

Se sabeis que ele é justo, sabei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele. (I São João 2, 29)”

Não tivesse havido o ensaio do sacrifício de Cristo, através dos atos que levaram Isaac até o local onde seria abatido, por certo Abraão não seria abençoado, nem confirmado na condição de justo. Por isso, para fins de justificá-lo, é que Deus lhe exigiu mais que uma mera manifestação intelectual, devocional e abstrata da fé:

Abraão OBEDECEU à minha voz e OBSERVOU os meus PRECEITOS, meus MANDAMENTOS e MINHAS LEIS. (Gênesis 26.5)

Filhinhos, ninguém vos seduzaaquele que pratica a justiça é justo, como também (Jesus) é justo. (I São João 3, 7)”

O próprio Deus revelou que a fé, na qual a Justiça Divina fora imputada à Abraão, haveria de ser provada no sacrifício de Isaac:

Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. (Hebreus 11.17 e 18).

Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

“Porventura, NÃO FOI NA PROVA que Abraão permaneceu fiel? E não lhe foi isso imputado em justiça? (I Macabeus 2. 52)”

Ora, de modo algum se ouse dizer que São Tiago negava que a fé de Abraão teria sido útil à lhe imputar a condição de justo diante de Deus:

Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)”

Mas o que confirmou, atestou, e ratificou a Justiça de Deus em Abraão, foram atos e as obras visíveis produzidos mediante a sua fé invisível, movendo esses atos e obras provenientes desta fé em direção à Justiça de Deus. 

Temos na fé, aquilo que moveu os atos de Abraão, nos quais fora confirmado na condição de justo.

Uma coisa não é a fé, e outra os frutos dela.

Acaso uma árvore pode dar frutos que não tirem dela a mesma essência e substância? Não está no fruto a semente que gerará outra árvore de idêntica natureza da qual proveio esse fruto? Sendo a fé dom Divino, não poderia produzir fruto algum que também não tivesse a mesma natureza divina. Toda obra que a fé produz, não é obra de homem, mas a própria ação de Deus concebida através das ações humanas. Nisto reside a distinção entre o que defende a teologia às avessas de Lutero, e a Escolástica Católica.

A única distinção entre fé e obra, é que esta é nítida, visível, concreta e material, em contrapartida daquela que é, por natureza invisível.

Mister assim, estabelecer a distinção escolástica entre obras humanas e obras da fé ou preceptivas da fé.

Obra humana é tudo aquilo que o homem, limitadamente, pode alcançar, e pelo qual realiza e progride por si mesmo, sendo sua espécie as obras da antiga lei mosaica, como a circuncisão. São atos da natureza moral ou legal.

Em momento algum, repito contra os que acusam São Tiago, fora dito por ele que a justificação ocorreria pelas “obras da lei” ou pelas “obras da natureza humana,” senão apenas pelas “obras da fé”.16 

Sobre os atos da fé, ensinou Santo Tomás de Aquino:

Crer depende, sem dúvida, da vontade do crente. Mas, é necessário seja a sua vontade preparada pela graça de Deus, para poder elevar-se ao que lhe excede à natureza, como já dissemos. ” (Suma Teológica. art 1. Da Causa da Fé, Q 6)

Ora, amar a Deus ao ponto de aceitar a possibilidade de vir a matar seu próprio filho por obediência, requer do indivíduo algo muito além das faculdades naturais. Esse algo, por óbvio, é a fé, e o santo apóstolo não nega esse fato: “Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (São Tiago 2. 23).”

Sendo dom de Deus,17 a fé não poderá produzir frutos que não tenham idêntica natureza. Afirmar como fez Lutero, que “somente a fé abstrata” teria operado a Justiça completa sobre Abraão, e que toda obra de obediência e servidão que o levou a erguer um punhal, e iniciar o golpe fatal contra seu filho Isaac seria inservível à justificar o patriarca diante de Deus é um gravíssimo impropério.

Ensinou Santo Tomás de Aquino:

O fim da fé, como das outras virtudes, deve referir-se à Caridade, que é o amor de Deus e do próximo. Quando a honra de Deus ou a utilidade do próximo exige, não devemos nos contentar, porque pela nossa fé, estamos unidos a verdade Divina, mas devemos confessá-la exteriormente. ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2)

E ainda:

Dentre as virtudes, a principal é a justiça que nos ordena. ” (Suma Teológica Q 181. Da Vida Ativa. Art. 1)

A fé invisível é causa motora dos atos visíveis da própria fé, os quais conduziram Abraão para ser confirmado por justo diante de Deus. Evidente que essa é a única verdade que a Igreja sempre ensinou. Quando Tiago falava das boas obras que justificam, delas não estava excluindo a fé enquanto causa motora dessas boas obras:

Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)”

De que aproveitará, irmãos, A ALGUÉM DIZER QUE TEM FÉ, SE NÃO TIVER OBRAS?  Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO? (São Tiago 2. 14) ”

“Assim, TAMBÉM A FÉ: SE NÃO TIVER OBRAS, É MORTA em si mesma. (São Tiago 2, 17) ”

Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

Noutro contexto, quando dizia da fé, São Paulo não estava excluindo desta as boas obras dela provenientes, mas  colocando essa fé como aquilo que nos moveria à prática das obras necessárias à nos justificar pelo cumprimento da Lei maior, amando a Deus sobre todas as coisas.

Nisto está claro, que nem Paulo, nem os santos profetas defendiam a justiça “somente pela fé,” mas a fé no âmbito das ações que dela se originam.

E assim é o testemunho não apenas de São Paulo, como de toda Escritura: Porque os que OUVEM A LEI NÃO SÃO JUSTOS DIANTE DE DEUS, MAS OS QUE PRATICAM A LEI HÃO DE SER JUSTIFICADOS. (Romanos 2, 13) ”

FELIZ O JUSTO, PARA ELE O BEM; ELE COMERÁ O FRUTO DE SUAS OBRAS. (Isaías 3.10)

O JUSTO VIVERÁ  PELA FÉ. (Romanos 1.17) ”

E, se UM JUSTO ABANDONAR A SUA JUSTIÇA, SE PRATICAR O MAL E IMITAR TODAS AS ABOMINAÇÕES COMETIDAS PELO MALVADO, VIVERÁ ELE? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.” (Ezequiel 18.24)

ANDANDO NOS MEUS ESTATUTOS, e GUARDANDO os meus juízos, e PROCEDENDO segundo a verdade, O JUSTO CERTAMENTE VIVERÁ, diz o Senhor DEUS. (Ezequiel 18. 9) ”

Com efeito, diante de Deus, nosso Pai, pensamos CONTINUAMENTE NAS OBRAS DA VOSSA FÉ, nos sacrifícios da vossa caridade e na firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, sob o olhar de Deus, nosso Pai. (I Tessalonicenses 1.3) ”

Porque também nós outrora éramos insensatos, rebeldes, transviados, escravos de paixões de toda espécie, vivendo na malícia e na inveja, detestáveis, odiando-nos uns aos outros. Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens. E, NÃO POR CAUSA DE OBRAS DE JUSTIÇA (lei mosaica da circuncisão, guarda de sábados etc) que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, nosso Salvador, para que a justificação obtida por sua graça nos torne, em esperança, herdeiros da vida eterna. Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com constância e firmeza, PARA QUE OS QUE ABRAÇARAM A FÉ EM DEUS SE ESFORCEM POR SE APERFEIÇOAR A SI MESMOS, NA PRÁTICA DO BEM. Isto é bom e útil aos homens. (Efésios 3. 4, 5, 6, 7 e 8) ”

Caríssimo, FAZES OBRAS DE FÉ EM TUDO o que realizas para os teus irmãos. (III João 1,5) ”

Denota-se incólume a Autoridade da Carta de São Tiago, em sua harmonia com a Carta de São Paulo aos romanos, e todo conjunto escriturístico. Reafirma-se para que compreendam os desentendidos: Quando as Escrituras dizem “justificado pela fé” não se deve absolutamente, entender “justificado SOMENTE pela fé;” e da mesma forma, quando diz “justificado pelas obras” não se deve compreender “justificado SOMENTE pelas OBRAS,” ou por “obra humana” ou “obra da lei”.

É a obediência que formata os atos que procedem desta fé, os quais, exclusivamente, colaboram, e cooperam para justificar os santos dante de Deus.

Assim compreenderam, e ensinaram os antigos:

13,1. Pelas palavras do Senhor, mostra-se que ele não aboliu, mas ampliou e completou os preceitos da lei natural que justifica o homem. Preceitos que eram observados, mesmo antes do dom da lei, pelos que eram justificados pela fé e agradavam a Deus. “Foi dito aos antigos”, ele diz, “Não cometerás adultério. Mas eu vos digo que todo aquele que olhar uma mulher com desejo de possuí-la, já praticou adultério no seu coração”. E ainda: “Foi dito: ‘não matarás’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar com seu irmão, sem motivo, será réu de juízo”. (Santo Irineu de Lion, Contra as Heresias. Livro IV, p. 223, ano 130-202)

“11.1. O próprio Apóstolo afirma aos coríntios: Então não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos iludais, diz, nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o reino de Deus.” E alguns de vós, diz: Mas vós vos lavastes, e fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e do Espírito de Deus.” Com estas palavras, indicam de maneira evidente o que arruína o homem, se continua a viver segundo a carne e aquilo que o salva.” (Santo Irineu de Lion, Contra as Heresias. Livro V, p. 315, ano 130-202)

3. Quem já entendeu que há justificação pela fé, não pelas obras, note o sorvedouro de que falei: Vês, pois, que Abraão foi justificado, não pelas obras, mas pela fé. Então posso fazer o que quiser; apesar de não ter praticado boas obras, somente se acreditar em Deus, isso me será reputado em conta de justiça. Se alguém assim falar e decidir, cai e submerge; se ainda pondera e hesita, expõe-se a grande perigo.   A Escritura de Deus, porém, bem interpretada, não só livra o periclitante, mas ainda retira do abismo quem nele mergulhou. Respondo, por isso, numa espécie de réplica ao Apóstolo, dizendo acerca de Abraão o que se encontra também na epístola de outro apóstolo, o qual queria corrigir os que haviam entendido mal o apóstolo Paulo. Efetivamente Tiago, em sua epístola, impugnando os que presumiam da fé apenas, sem as boas obras, recomendou as obras do mesmo Abraão, cuja fé Paulo destaca. Mas, os apóstolos não estão se contradizendo. S. Tiago refere-se à obra notória a todos de Abraão, ao oferecer seu filho em sacrifício a Deus (Tg 2,21). Obra grandiosa, mas oriunda da fé. Aprovo o edifício em cima, mas vejo em baixo os alicerces da fé. Louvo o fruto da boa obra, mas reconheço como raiz a fé. Se Abraão agisse assim, deixando de lado a fé verdadeira, nada lhe adiantaria a obra, por melhor que fosse. Ainda mais. Se Abraão conservasse a fé, ao lhe ordenar Deus oferecesse seu filho em sacrifício, mas dissesse a si mesmo: Não faço, e, no entanto, acredito que Deus me livrará, mesmo enquanto desprezo suas ordens. A fé sem as obras estaria morta, e como raiz infrutífera ficaria estéril e seca. (Santo Agostinho. Comentário aos Salmos p. 215, Livro II – Sermão ao Povo – Enarrationes in Psalmos I à LX)

Queda-se então, o argumento de que Abraão fora justificado “somente” pela fé, prevalecendo a Verdade da Igreja, recebida diretamente dos Apóstolos, e proclamada nas deliberações do Concílio de Trento ou Concílio da Contra-Reforma (Sessão VI, de 03/01/1.547), através do qual, essa doutrina espúria da sola fide, nascida da mente de Lutero, fora decretada como gravíssimo desvio doutrinário.

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1 – Exemplo, o pensamento. O ato de pensar é uma ação invisível, como é a essência de toda ação puramente intelectual.

2 – Marco Túlio Cícero, (106 AC a 65 DC), em sua obra “Oratória. ” Em síntese, o que respalda o argumento é o pensamento lógico; e o que respalda o pensamento lógico é a realidade. Tudo que não estiver nesta sintonia é sofisma, ou seja, argumento usado para enganar ou produzir algo distinto da realidade.

3 – Catecismo F4.8 – §150: A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Como adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade que ele revelou, a fé cristã é diferente da fé em uma pessoa humana. E justo e bom entregar-se totalmente a Deus e crer absolutamente no que ele diz.

4 A Escolástica é uma corrente ou método de pensamento crítico e filosófico que se desenvolveu no âmbito da Igreja, que buscou, e encontrou o equilibro perfeito entre Fé Católica e Razão, numa análise da natureza e dos atos humanos alinhados à ação Divina. Sua influência nas artes, cultura, educação e demais ciências é inegável.

5 – Selo é um símbolo antigo de autenticidade de quem firma a declaração escrita,  lacrado no presente, e para ser aberto em momento oportuno. (Eclesiástico 22.10 e Apocalipse 6.1). Tal qual é a metáfora da salvação, utilizada por São Paulo (II Cor 1.22)

6 – Justo é aquele diante de Deus, não há condenação para as suas obras: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12)”

7 – Confissão Protestante de Augusburg, ano 1.530, artigos 4º e 20º.

8 – 3049. logizomai

9 – 3985. peirazó

10 – Ismael é o filho mais velho de Abraão, porém, espúrio, provindo de um relacionamento ilegítimo de seu pai com uma escrava. Mas é Isaac que deteve o direito a primogenitora, porque é o primeiro filho legítimo, concebido na constância do matrimônio.

11 – O SENHOR APARECEU a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Ele disse-lhe: Voltarei à tua casa dentro de um ano, a esta época; e Sara, TUA MULHER, TERÁ UM FILHO” (Gn 18. 1 e 10) Deus preceituou a Abraão, que “tomasse seu filho primogênito, a quem tanto amava, Isaac, e partisse com ele à terra de Moriá, e o ofertasse em SACRIFÍCIO sobre os MONTES” (Gn 22, 2)

12 – “Abraão tomou a LENHA DO HOLOCAUSTO e pôs aos OMBROS de seu filho Isaac> (Gn 22, 6) ” “quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA” (Gn 22.9)

13 –  “quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA” (Gn 22.9)

14 – Eu e o MENINO vamos até lá adiante para adorar, mas LOGO VOLTAREMOS para junto de vocês. > (Gn 22.5)

15 – “estendendo a mão, TOMOU A FACA para imolar o seu filho> (Gn 22,10)”

16 – Nitidamente, o protestantismo faz severa confusão ente OBRAS DA LEI e as OBRAS DA FÉ, pois embora conceitualmente faça essa distinção, sua teologia não alcançar harmonizá-las dentro do correto contexto da realidade na qual estão inseridas: Sobre as obras da Lei é dito: “Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a fé que opera pela caridade. (Gálatas 5, 6) “Com efeito, não foi em virtude da Lei que a promessa de herdar o mundo foi feita a Abraão ou à sua posteridade, mas em virtude da justiça da fé. (Romanos 4, 13) Sobre as Obras da Fé é ensinado: “ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

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