O QUE É FELICIDADE?

A infelicidade do cristão é resultado de uma imperfeição da fé que negligencia a Caridade, tornando vã qualquer esperança. Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, só será possível se nos tornarmos imitadores de Cristo.

Imitar implica certo comportamento próximo ao modelo a ser copiado, que dissemina numa realidade de ações e atos práticos.

Cristo nos salvou num ato de CARIDADE, dando-se à morte em favor da vida eterna para aqueles que crêem. Por isso, permanecem a Fé, a Esperança e a Caridade (Amor Ágape). Mas dentre estas, a Caridade é a virtude maior. (I Coríntios 13,13)

Se há algo que a história atesta é que não é dado ao ser humano usufruir da plena felicidade no âmbito da vida natural.

Através da razão e do esforço da vontade, não alcançamos, senão, certos períodos de euforia e satisfações transitórias que não são plenas, nem irreversíveis, mas sujeitas à finitude por qualquer circunstância. Podemos definir a felicidade natural, como sendo o estado precário de contentamento da alma e do corpo suprindo perdas mediante qualquer ganho intenso, ainda que não proporcional, nem perpétuo, no qual podemos encontrar alguma satisfação momentânea, ainda que esta satisfação nos conduza para algo destrutivo.

Para gregos e romanos, a felicidade residia no domínio da sabedoria humana e honrarias de guerra.

Para judeus estava na ilusão de acreditar serem eles, o único povo e nação detentora do monopólio sobre Deus e tudo que é sagrado.

Já para a sociedade moderna, essa felicidade parece estar na aquisição de bens materiais e no culto à personalidade e à beleza física.

O conceito de felicidade, portanto, regrediu, encolheu-se a pequenez da humanidade pecadora que a busca.

Mas de algum modo, a felicidade natural do ser humano está mais na expectativa do ganho, que propriamente em ganhar. A expectação de adquirir um carro novo causa euforia maior que sua própria aquisição.

Tal se dá porque nenhum bem temporal pode suprir o vazio existencial que só se preenche pela felicidade virtuosa.

A real felicidade é a alegria que se funda na razão superior (cognição espiritual), e não nos afetos sensíveis e anímicos.

Todo ser busca aquilo que lhe convém, conforme sua própria natureza.

A natureza, tornada imperfeita pelo pecado, procura bens imperfeitos e perecíveis como ouro e prata.

Já a natureza restaurada pela comunhão com Deus eterno, procura por bens eternos como a caridade, a servidão, o perdão e a sabedoria Divina: Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa Lei, (Salmos 93, 12)”

FELIZ AQUELE CUJA INIQUIDADE FOI PERDOADA, de cujo pecado fora absolvido. (Salmos 31, 1)”

FELIZ O JUSTO, PARA ELE O BEM; ELE COMERÁFRUTO DE SUAS OBRAS. ” (Isaías 3.10)

Riqueza material, fama, prestígio, dinheiro, poder, ascensão profissional, ambição, saúde, prazeres, beleza física e paixões.

Nada disso nos trará a verdadeira felicidade.

A insignificância e inutilidade desses bens vemos na morte, pela deterioração repugnante do corpo corrompido pela putrefação, retornando ao pó aquilo que nunca deixou de ser pó.

a felicidade natural, para que possa ser plena, requer a certeza da ausência de dor e sofrimento, o que se mostra impossível neste mundo.

Conforme Heródoto:

“[…] felicidade não é um sentimento, nem um estado subjetivo; […] e só pode ser determinada com a morte. Considerar-se feliz antes disso é prematuro, e provavelmente, uma ilusão. (McMahon, 2.006.p. 23)

Como ensinou a Igreja através de São Paulo:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará. (II Timóteo 4. 7-8)”

A Felicidade enquanto virtude Divina (Felicidade do Céu) se opõe a felicidade natural enquanto puro sentimentalismo volúvel e passageiro (felicidade terrena) que esta é, e a qual se ergue apenas na busca por bens efêmeros, tornando-se bem menor ou até em certas circunstâncias, um mal maior pelos efeitos maléficos que poderá vir a causar.

Santo Tomás de Aquino lecionava em nome da Igreja:

“[…] a alegria é causada pela posse do Bem que amamos, tanto quanto porque o Bem que amamos nos é conservado. ” (Suma Teológica Q 28, art. 1° – Da Alegria)

Toda tristeza humana tem como causa a perda ou busca por algum bem que se precisa ou deseja, o qual não nos é dado conseguir por mérito próprio.

A felicidade natural é sempre imperfeita, posto que é sempre finita e temperada com dores, inquietações, contratempos, incertezas e tristeza, vez que o Bem que nos é de maior valia não podemos conservá-lo por vontade e meios próprios.

Esse Bem mais precioso é a vida.

Não há como negar que a expectativa da limitação da vida, onde se desfaz todos os laços com quem amamos e na qual nossa história é interrompida no âmbito temporal, é fator de enorme tristeza e angústia para o homem natural.

É também sabido que tristeza e angústia se opõem à felicidade.

Deus nos criou para vivermos felizes eternamente com Ele, e junto com aqueles que amamos.

Sendo Deus a vida eterna, temos que essa vida eterna, enquanto o Bem mais valioso do ser humano, é o próprio Deus, já que não há vida sem Deus, nem Deus sem vida. Por isso, existe na humanidade, uma busca frenética pela felicidade perdida outrora, quando nossos primeiros pais repudiaram ao Deus Criador, escolhendo proclamarem-se livres e independentes.

Ocorre que essa busca sem a orientação Divina é totalmente inútil, vez que desordenada.

Os males gerados da nossa excomunhão com Deus desde o Éden (morte, doença, pobreza, ignorância, incapacidade, fome, guerras, crimes etc.), ofuscam em parte a felicidade de estar vivo, razão pela qual, todo ser humano se lança em buscar algo que espera compensar por todas essas mazelas.

Mas conforme ensinou Sólon:

É impossível ao ser humano reunir as condições necessárias à felicidade da mesma maneira que nenhuma pátria possui todos os bens que necessita. Se conta com uns, está sempre privado de outros. Assim acontece ao homem. Não há um que baste em si mesmo. ” (A História de Heródoto. Livro II, XXXII)

Feliz, portanto, é aquele que se permitiu compreender que o bem mais precioso que podemos ter é o Bem que podemos adquirir e conservá-lo eternamente, que é a vida plena, sem dores, fome, morte, tristeza e nem pecado.

Mas para a procura certeira desse Bem, ensinou a Igreja por Santo Agostinho: Felicidade é a alegria que não pertence aos impuros, mas aqueles que servem por puro Amor. Alegrar-se em ti, de ti e por ti: isso é felicidade. E não há outra. Os que imaginam outra felicidade, apegam-se a uma alegria que não é verdadeira. (Confissões de Santo Agostinho, Livro I. p. 198)

Não por outra razão, disse o salmista: Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito. Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo Espírito! DÁ-ME DE NOVO A ALEGRIA DA TUA SALVAÇÃO e sustenta-me com um espírito generoso. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão de voltar para ti. ” (Salmo 51 – Miserere Nobis)

Usufruir da Bondade de Deus, e participá-la com quem amamos é nossa maior felicidade:

“Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos. (Apocalipse 20, 6)”

“[…] pois aquele que sabe fazer e não faz, comete pecado. (São Tiago 4.17)”

“DÁ-ME DE NOVO A ALEGRIA DA TUA SALVAÇÃO e sustenta-me com um espírito generoso. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão de voltar para ti. ” (Salmo 51 – Miserere Nobis)

“[…] aquele que não cuida dos seus, e principalmente dos da própria casa, NEGOU A FÉ, e é pior do que um INCRÉDULO.” (I Timóteo 5,8).

Feliz daquele que se sentar à mesa no Reino de Deus! (São Lucas 14, 15)”

A Igreja chama por bem-aventurados os felizes.

Feliz é todo aquele que no curso de sua existência terrena pôde alcançar o privilégio de obter a autêntica alegria que provém da esperança; a paz que se arrima na fé; e por fim, a riqueza que frutifica na CARIDADE.

A alegria do bem-aventurado repousa no fato de nunca haver traído a fé necessária à sua salvação.

Felicidade perfeita exige adesão da fé a realidade que Cristo nos revela, e não a aquiescência de uma ilusão ou “verdades” convenientemente inventadas por doutrinas de homens.

Cristo é a Verdade, mas essa única Verdade não é apenas1 uma ideia, e sim uma realidade a ser colocada em prática, conforme a sã Doutrina que Ele nos descortinou, e ensinou por meio de sua verdadeira Igreja: 

Por Ele sereis salvos, SE O CONSERVARDES COMO VO-LO PREGUEI. De outra forma, em vão teríeis abraçado a fé. (I Coríntios 15, 2)”1

Na Doutrina que nos traz a vida eterna podemos nos alegrar, ainda que haja tristeza no tormento e na amargura cotidiana.

Toda alegria provém da esperança da nossa salvação, e salvação para todos aqueles que amamos. Assim, esperamos alegremente suportar todas adversidades da vida pacientemente até chegada a hora da recompensa da vida eterna e plenamente feliz ao lado do Criador:

“Feliz aquele cuja alma não está triste, e que não está privado de esperança! (Eclesiástico 14, 2)”

O alcance do Bem maior que é a vida eterna, contemplando a beleza de Deus, compensa e atenua toda dor, desgosto, angústia, melancolia, saudosismo e sofrimento da espera:

Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam. (São Tiago 1, 12)

O bem-aventurado pode dizer-se livre, pois sua esperança não permitiu que o desespero pela finitude da sua existência humana o tornasse escravo de si mesmo. Mas adquirindo a liberdade perfeita, tornou-se detentor da justa esperança que é a base para a legítima felicidade.

Feliz é aquele que não se condena a si mesmo no ato a que se decide. (Romanos 14, 22) O Senhor do céu te encha de alegria pelos males que tens sofrido. (Tobias 7, 20)”

Mas é certo que todo desespero se opõe a esperança, e cresce na medida em que caminhamos para a finitude de nossos dias sem confiança ou expectativa de uma vida sobrenatural e verdadeiramente mais feliz.

Todo aquele que não encontrou a verdadeira Doutrina que salva, não pode ter a verdadeira felicidade:

EM VÃO, pois, me CULTUAM, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos. (São Marcos 7, 7) ”

Há um texto de Dante Alighieri, na “Divina Comédia” narrando que ao abrirem os portões do inferno para recepção dos incrédulos, apóstatas, hereges e perversos para purgarem eternamente por suas dívidas, era visto por eles um letreiro que dizia:

Vós que entrais, deixais do lado de fora toda esperança.”

Por isso, a esperança que nos alegra em Deus pela vida eterna, e que nasce da adesão à Verdade única, imutável e necessária à salvação, só pode ser alcançada e compreendida por meio da fé. Ora, sendo Deus misericordioso para nos devolver aquilo que por culpa própria perdemos que é a vida eterna contemplativa e feliz, Ele é também misericordioso para nos proporcionar meios para esse alcance.

Sem fé autêntica não há esperança de salvação, e sem esperança toda alegria é triste, e todo sofrimento apenas fardo sem perspectiva alguma de proveito útil daquele que o experimenta. Mas havendo fé, toda adversidade servirá de instrumento para nos mover à Deus:

“Porque vós, Deus, não vos comprazeis em nossa perda: após a tempestade, mandais a bonança; depois das lágrimas e dos gemidos, derramais a alegria. (Tobias 3, 22) “

O encontro com a genuína fé cristã (Católica, Apostólica e Romana), onde se descortinará a única Verdade que é Cristo, e a maneira pela qual colocamos essa Verdade Encarnada em prática na nossa realidade devocional, faz cessar a nossa frenética busca existencial, dando-nos a paz necessária a seguirmos o caminho que leva cada vez mais a Verdade e a Vida. (São João 14.6)

Na fé encontramos a esperança.

Na esperança a alegria, e da alegria produzida pela fé e pela esperança temos a paz que nos ordena e fortifica suportar o mundo caótico no qual vivemos.

“[…] na tua paz encontrarão sua alegria. (Tobias 13, 18)”

Nenhum ser pode ser completamente feliz quando não compartilha a felicidade com aqueles a quem ama. Felicidade não é uma virtude que Deus nos concede apenas para morrer em nós, egoisticamente.

Quem ama verdadeiramente, quer, e trabalha diuturnamente pela felicidade do ser amado, no usufruto da vida eterna e do Bem comum. A felicidade autentica está na partilha, e não no ganho.

QUANDO FORES FELIZ, LEMBRA-TE DE MIM, e rogo-te que uses comigo de compaixão, e que faças menção de mim a Faraó, e faze-me sair desta casa; (Gênesis 40, 14)

Esse versículo é uma prefiguração profética do ladrão que se arrependeria por ocasião da crucificação de Jesus, trazendo José do Egito na figura representativa de Cristo, o Faraó na figura de Deus Pai e o malfeitor encarcerado, mas arrependido, na figura de São Dimas, que futuramente diria:

“[…] LEMBRA-TE DE MIM, QUANDO TIVERES ENTRADO NO TEU REINO! 

Cristo sendo a Felicidade Encarnada, partilha o Paraíso, a Felicidade real com aqueles que se arrependem:

“Jesus respondeu-lhe: EM VERDADE TE DIGO: HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO.” (São Lucas 23, 42, 43 e 46)

Noutra mira, é fato que a felicidade natural do ganancioso é sua riqueza, e, portanto, uma felicidade perecível, como são também todos os seus bens materiais.

Tornou-se escravo do que lhe apraz e lhe faz “feliz.”

O ganancioso passa toda vida preocupado em não perder sua riqueza, pois desta maneira perderia a própria felicidade. Por isso, ele nada partilha, nem a comida que sobra de sua mesa, nem amor que ele recebe, nem a salvação que lhe é dada acesso:

Quem despreza seu próximo comete um pecado; feliz aquele que tem compaixão dos desafortunados. ” (Provérbios 14, 21)

Mas não existe felicidade sem liberdade justa, santa e perfeita.

A bem-aventurança do cristão está na pobreza de um espírito pobre, pois um espírito ganancioso se apoia em ser feliz por causa da matéria que se deteriora e finda.

O pobre de espírito não é escravo da vaidade, nem da ambição por fortunas e riquezas, mas livre obrar em favor de todos aqueles que tem fome do pão da terra, mas principalmente, do Pão do Céu:

“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus! (São Mateus 5.3)

“Feliz aquele que encontrou um amigo verdadeiro, e que fala da justiça a um ouvido atento. ” (Eclesiástico 25, 12)”

“O sinal de um coração feliz é um rosto alegre, tu o acharás dificilmente e com esforço. ” (Eclesiástico 13, 32)

Não por outra razão, entre a Fé, a Esperança e a Caridade (Amor Ágape), esta última é a maior. (Coríntios 13.13)

Por isso, ainda, disse Cristo sobre a legítima e autêntica Felicidade:

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. ” (São Mateus 5.3-10)

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1 Povos, escutai bem! Nações, prestai-me atenção! Pois é de mim que emanará a doutrina e a verdadeira religião que será a luz dos povos. (Isaías 51, 4) ” “Quem VOS OUVE, A MIM OUVE; e quem vos rejeita a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou. ” (São Lucas 10, 16) Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, COLUNA E SUSTENTÁCULO DA VERDADE. ” (I Timóteo 3, 15) ” “E se RECUSAR OUVIR TAMBÉM A IGREJA, seja ele para ti como um pagão e um publicano. ” (São Mateus 18. 17 e 18) ”

Beethoven: Hino à Alegria:

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