O QUE DISTINGUE O CULTO DE SACRIFÍCIO (LATRIA), DE HONRA (DULIA) E A IDOLATRIA?

Tem-se por CULTO, a forma litúrgica1 pela qual o ser humano interage de modo relacional com a Divindade.

Interagir com a Divindade, implica relacionar-se com Deus, e com tudo o que é sagrado porque provém de Deus. Neste compasso, o próprio Deus revelou a sua Igreja duas espécies distintas de cultos, as quais não confundem, nem se anulam.

Temos então, a latria, que é o culto de sacrifício; e a dulia, que é culto de honra.

Ensinou São João Damasceno:

“Vamos entender que existem diferentes graus de culto. Primeiro de tudo, o culto de latria que mostra Deus, o único que, por natureza, é digno de adoração. Por causa de Deus, que é cultuado por natureza, honramos  (em culto de honra) os seus santos e servos, como Josué e Daniel cultuavam um anjo, e David os seus lugares sagrados, quando se diz na Escritura: “Vamos para o lugar onde seus pés têm resistido. ” (Sl 132, 7) José era cultuado por seus irmãos. (Gn 50, 18), e estou ciente de que o culto foi baseado em honra, como no caso de Abraão e os filhos de Emor (Gn 23, 7)2. Então, ou acabamos com o culto, ou o recebemos totalmente de acordo com a sua medida apropriada. ” (São João Damasceno, in Apologia Contra os que Condenam Imagens. Cap. I, p. 14, anos 676-749)

Pelo culto de latria, interagimos diretamente com Deus por meio do sacrifício vicário de Cristo, a segunda Pessoa Divina da Trindade.

Sua finalidade é reparatória, pois objetiva realizar a expiação dos pecados por atos de contrição e súplicas de misericórdia para que possamos ser partícipes, gratuitamente, do sacrifício de Jesus disposto no altar, nos sinais materiais do sangue derramado (vinho) e da carne (pão) flagelada em razão dos nossos delitos:

QUE SINAL, POIS, FAZES TU, PARA QUE O VEJAMOS, E CREIAMOS EM TI? QUE OPERAS TU? E Jesus lhes disse: EU SOU O PÃO DA VIDA” (Jo 6. 30 e 35) QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE TEM A VIDA ETERNA, E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA.” (Jo 6. 30, 35 e 54) “Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: – “Tomai e comei, isto é meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo:Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o SANGUE da nova ALIANÇA, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.” (Mt 26. 27 e 28)

Por isso, essa espécie de manifestação cultual só pode ser dada a Deus, e só pode ser realizada por meio do próprio Deus. Nela, o ser humano se apresenta como o devedor, que contraiu certa dívida por ofender a Deus através do pecado, e que solve seu débito mediante a fiança que o próprio Deus, ora credor, lhe confere para ressarcimento dessa obrigação através do sacrifício do seu Filho Divino.

Todo ritual3 latrêutico, desde o antigo pacto com os judeus, já apontava para Cristo como redentor de toda perversão humana através do sacrifício de animais (cordeiros e touros)4 que simbolizavam o seu martírio.

A adoração é necessária para expiação dos pecados, pois quem não adora, não se salva.

Levará ao sacerdote, em sacrifício de reparação, um carneiro sem defeito tomado do rebanho, segundo sua avaliação. O sacerdote fará por ele a expiação da falta cometida por inadvertência, inconscientemente; e ele será perdoado.” (Levítico 5, 18)  “Em expiação, o homem oferecerá ao Senhor, à entrada da tenda de reunião, um carneiro como sacrifício de reparação.” (Levítico 19, 21) “Não fareis trabalho algum naquele dia (sábado), porque é o dia em que deve ser feita a expiação por vós diante do Senhor, vosso Deus.” (Levítico 23, 28) 

Por que o domingo é o Memorial da Nova Aliança?

Deus é pleno, perfeito e autossuficiente, não precisando da nossa adoração ou reconhecimento, pois Ele É por si só:

Eu sou o que sou. (Êxodo 3.14) 

Somos nós, entretanto, que necessitamos e urgimos em adorá-lo, posto ser esse, o ato mais sublime da relação virtuosa entre um indivíduo e Deus.

O rito da adoração inicia-se com a autoacusação, onde consternados, nos colocamos como errantes pecadores diante de Deus para reconhecê-lo como único e misericordioso Salvador, encerrando-se na comunhão vicária, onde o sacrifício de Cristo e nossas manifestações de arrependimento tornam-se, num só ato, o encontro entre Deus e o homem, no martírio do sangue derramado e da carne massacrada. Temos nisto, a vida humana unificada a Deus, na adoração ao único Mediador entre humanidade e Divindade.

Mas é indispensável à adoração, a participação ativa das três Pessoas da Trindade.5

O Filho participa dando a sua vida em sacrifício em troca da nossa morte eterna6; o Espírito Santo nos dá a consciência de que somos pecadores7, e consagrando as espécies do vinho como o sangue e o pão como a carne imolada do Cristo, nos permite comungar na mesma cruz, no mesmo pão, e no mesmo corpo sacrificado do Cordeiro Divino8, e por fim, o Pai, aquele que recebe o sacrifício que Jesus oferta em comunhão conosco para reparação9 do nosso débito para com o Criador:

Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.(I Coríntios 10.17) 

Ora, se não tivesse efeito atemporal e eterno, o sacrifício não se realizaria em cada um de nós que viemos depois dele, nem surtiria efeito aos vieram antes, e não poderia assim, ser objeto de comunhão ainda em nossos dias atuais.

A CRUZ REALMENTE ESTÁ VAZIA?

Por isso, o sacrifício simbólico de novilhos abatidos, e ofertados por Moisés no passado, fora substituído pelo sacrifício real e expiatório de Cristo, o qual está a nossa disposição, nos dias de hoje, nos sinais por Ele consagrados: “Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre o povo, e proclamou:

“Este é o SANGUE da ALIANÇA que DEUS fez convosco, por meio de todos esses mandamentos! ” (Êxodo 24. 8)

“[…] depois enviou alguns jovens dos filhos de Israel, e ofereceram holocaustos e imolaram a DEUS novilhos como sacrifícios de comunhão. Moisés colocou metade do sangue recolhido em tigelas e outra metade derramou sobre o altar. Em seguida, leu o Livro da Aliança e o leu para o povo; e eles responderam: Tudo o que DEUS ordenou, nós o faremos e obedeceremos! ” (Êxodo 24. 5, 6 e 7)

Como Moisés, que proclamou a antiga aliança com Deus, pondo o sangue dos animais numa tigela, Cristo coloca o seu sangue sob a espécie do vinho, em copos, dando de beber aos Apóstolos, proclamando assim a novel Aliança:

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: – “Tomai e comei, ISTO É MEU CORPO”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo:Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o SANGUE da nova ALIANÇA, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.” (São Mateus 26. 26, 27 e 28) ”

Expiação é o ato de reparar, purificar mediante penitência de castigo ou pena.

Diferente da adoração ofertada a Deus pelos anjos, pela Virgem e pelos santos no céu10 que não possuem pecado, a adoração do ser humano pecador só se alcança na expiação, pois se pela carne e sangue o ser humano ofendeu a Deus, pela carne e sangue a ofensa haveria de ser reparada:

Ele (Cristo) é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. (I São João 2, 2)”

Neste contexto, o culto de servidão sacrificial na Nova Aliança instituído pelo próprio Cristo, era não apenas ensinado, mas ministrado pela Tradição dos Apóstolos, conforme posteriormente registraram as Escrituras:

Eu vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a ofertardes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: é esse o vosso CULTO racional. (Romanos 12.1)”

Não há outra maneira de ofertamos nossos corpos santificados em sacrifício de latria a Deus, senão no sacramento santíssimo do Corpo de Cristo:

O CÁLICE de bênção, que benzemos, não é a COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E O PÃO QUE PARTIMOS, NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM AS VÍTIMAS? (I Coríntios 10. 16, 17 e 18) ”

Neste sentido, é que a Igreja Primitiva, perseverava “[…] na Doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações. (Atos dos Apóstolos 2, 42)”

Mas adorar não é qualquer ato corpóreo ou movimento humano no campo da intelectualidade ou operação.

O ser humano desgraçou-se quando pecou, e agora sequer consegue adorar por meios próprios, razão pela qual, Deus desprezou a adoração de Caim, na oferta de sua colheita fruto de seus méritos, e aceitou a adoração de Abel através do cordeiro sacrificado, prefigurando os méritos do martírio de Cristo. (Gênesis 4, 1 a 5)

O pecado mortal da idolatria que é a perversão da adoração, consiste na oferta em favor de falsos deuses (ídolos), de sacrifícios para remissão de pecados na busca da recompensa de vida eterna.

Deuses esses, criados por imagens ou mesmo invisíveis, meras ideias erradas sobre as verdades divinamente reveladas, que acabam criando no imaginário coletivo e individual uma falsa identidade divina:

Elas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. (Número 24, 2) ”

Se um ídolo tem boca, mas não fala, tem olhos, mas não vê, tem ouvidos, mas não ouve, ele vê, ouve e fala através do idólatra que o criou na mente ou no objeto, razão porque, o idólatra quando fala em nome do seu falso deus, fala de si mesmo, atribuindo-se ilegítima autoridade nas inverdades que proclama. Por ter origem na falsidade e na mentira é que todas ofertas aos falsos deuses são ilícitas, porque conduzem o ofertante à condenação eterna, sendo, pois, consideradas ofertas aos demônios:

Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram hão pouco, aos quais não temeram vossos pais. (Deuteronômio 32, 17) 

O sacrifício humano é o aspecto mais agravado da idolatria, porque sacrifica a imagem de Deus que há no ser humano aos demônios: “Porém, agora os israelitas pecam ainda mais, fazem para si estátuas fundidas com sua prata, ídolos de sua invenção, meras obras de artistas. Falam-lhes, oferecem-lhes sacrifícios humanos e dão beijos nos bezerros. (Oseias 13, 2)”

Na idolatria, o ser humano cria seus deuses à sua imagem e semelhança, quando na verdade, Deus é quem o criou à sua imagem e semelhança. Logo, esse vício espiritual coloca ser humano como criador de “deus, ” invertendo-se os papéis.

A humanidade, na busca da satisfação de suas necessidades afetivas e sensíveis, inclina-se naturalmente ao desejo de ver, tocar, olhar, sentir, ouvir a Deus.  Mas a Encarnação do Verbo, por meio do qual Deus se torna ser humano completo e perfeito, nos outorgou os sinais de seu Corpo, contidos nos sacramentos (água, óleo, vinho e pão), suprindo toda carência humana de diálogo e comunicação com Deus de modo material e sensível.

Não por outra razão, agora em Cristo, Deus feito homem, decretou-se o fim de toda idolatria, sendo permitido ao ser humano se comunicar com Deus em espírito e matéria.

Santo Tomás de Aquino explica:

“É da natureza humana o corpóreo e o sensível até atingir ao espiritual. A ligação espiritual final, atinge primeiro a sensibilidade e o intelecto. (I Cor 15. 44 a 46) por isso, convinha a Divina Sabedoria conferir auxílios à salvação, sob certos sinais corpóreos e sensíveis chamados sacramentos. […] pelo pecado, o homem tornou-se sensível e afeito às coisas corpóreas. […] e onde padece uma doença, aí se deve aplicar o remédio. Por meio de sinais corpóreos, Deus aplica ao homem uma medicina espiritual, como era a circuncisão. Pelos sacramentos, o homem é ensinado conforme sua natureza. (Suma Teológica Q 65, art. 1º Dos Sacramentos. Livro IIIa)

Diante disto, restou decretada a condenação dos ídolos, e também dos idólatras: “Portanto, caríssimos meus, fugi da idolatria. (I Coríntios 10, 14)

HERESIA, IDOLATRIA, CISMA E OUTROS PECADOS CONTRA A FÉ

Noutra mira, distinto da adoração e da idolatria, temos o culto de honra chamado veneração ou dulia.

O culto de honra é inferior ao culto de latria, posto que nele não há oferta sacrificial no fito de expiar e remir delitos espirituais para obtenção da vida eterna.

É atitude de respeitabilidade e reverência com a qual nos relacionamos com a memória do sagrado.

Como ensinou São João Damasceno: é o símbolo de respeitabilidade e honra.” (Apologia Contra os que Condenam Imagens. Cap. I p. 14, anos 676-749)

São os louvores de cânticos e honrarias litúrgicas destinadas aquilo que não é Deus, mas provém, lembra ou significa algo Dele, consistindo somente na atitude do reconhecimento da honra e respeitabilidade conferido aqueles que espelham Deus, seja na esfera civil, como pais e autoridade legalmente instituídas; ou religiosa como santos, mártires, sacerdotes, imagens e as relíquias sagradas.

A benção dada pelos pais e recebida pelos filhos, além das bençãos sacerdotais recebidas por um fiel, sem dúvida, consistem em atos de dulia. Como ensinou Santo Agostinho:

“[…] dulia é uma servidão devida aos homens em virtude da qual o Apóstolo manda os servos serem sujeitos aos seus senhores; outra servidão é a latria, pela qual somente cultuamos a Deus.” (Tratado Contra Fausto, ano 354-430)

O próprio Deus instituiu o culto de honra aos seus materiais sacros, razão pela qual, tanto puniu o rei babilônio, Baltazar, que os vilipendiou e se portou de modo imoral diante dos objetos consagrados, quanto determinou aos judeus que os venerassem:

Subindo ao altar santo, honrava os santos ornamentos. (Eclesiástico 50, 12)

Ungirás o altar dos holocaustos e todos os seus utensílios; em virtude de tua consagração, o altar se tornará um local santíssimo. (Êxodo 40, 10)” 

O rei Baltazar deu uma festa para seus mil nobres, em presença dos quais pôs-se a beber vinho. Excitado pela bebida, mandou trazer os vasos de ouro e de prata que seu pai Nabucodonosor tinha arrebatado ao templo de Jerusalém, a fim de que o rei, seus nobres, suas mulheres e suas concubinas deles se servissem para beber. Trouxeram então os vasos de ouro que tinham sido arrebatados ao Templo de Deus em Jerusalém. O rei, seus nobres, suas mulheres e suas concubinas beberam nele, e depois de terem bebido vinho, entoaram o louvor aos deuses de ouro e prata, bronze, ferro, madeira e pedra. 5.Ora, nesse momento, eis que surgiram dedos de mão humana a escrever, defronte do candelabro, no revestimento da parede do palácio real. O rei, à vista dessa mão que escrevia, mudou de cor; pensamentos tétricos assaltaram-no; os músculos de seus rins relaxaram-se e seus joelhos entrechocaram-se. Eis o significado dessas palavras: MENÊ – Deus contou os anos de teu reinado e nele põe um fim; TEQUÊL – foste pesado na balan­ça e considerado leve demais; PERÊS – teu reino vai ser dividido e entre­gue aos medos e persas” (Daniel 5. 1 a 28)

O menorá era um castiçal, candelabro de sete braços que representava as duas naturezas de Cristo, sendo a natureza divina, simbolizada pelo número três, em referência a Santíssima Trindade; e a humana representada pelo número quatro, numa ilação aos elementos da terra (terra, água, fogo e ar) contidos no barro do qual fora formado o primeiro homem. Sua confecção e ornamentação no altar da adoração foram prescrições diretas do próprio Deus:

O Senhor disse a Moisés: 

“Eis que chamei por seu nome Beseleel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. Eu o enchi do espírito divino para lhe dar sabedoria, inteligência e habilidade para toda sorte de obras: invenções, trabalho de ouro, de prata, de bronze, gravuras em pedras de engastes, trabalho em madeira e para executar toda sorte de obras. Associei-lhe Ooliab, filho de Aquisamec, da tribo de Dã. E dou a sabedoria ao coração de todos os homens inteligentes, a fim de que executem tudo o que te ordenei; a tenda de reunião, a arca da aliança, a tampa que a recobre e todos os móveis da tenda; a mesa e todos os seus acessórios, o candelabro de ouro puro e todos os seus acessórios, o altar dos perfumes, o altar dos holocaustos, e todos os seus utensílios, a bacia com seu pedestal; as vestes litúrgicas, os ornamentos sagrados para o sacerdote aarão, as vestes de seus filhos para as funções sacerdotais; o óleo de unção e o incenso perfumado para o santuário. Eles se conformarão em tudo às ordens que te dei. ” (Êxodo 31. 1 a 11)

EXPLICANDO A SANTÍSSIMA TRINDADE

Ora, se a redenção humana aconteceu numa cruz aonde o próprio Deus sucumbiu voluntariamente por amor para nos dar a vida eterna, é certo que seu Corpo sacrificado deverá ser adorado, tanto quanto o objeto onde ocorreu o sacrifício deverá ser honrado, admirado e respeitado em razão da memória do próprio Deus martirizado.

Obviamente  que o objeto (Cruz) participou da obra Divina da redenção, razão porque, ele não pode ser desprezado, pervertido ou desonrado:

Leciona Santo Tomás de Aquino:

A cruz de Cristo, embora não fosse unida ao Verbo de Deus, em Pessoa, lhe fora, contudo, unida de certo modo (na memória), isto é, pela representação e pelo contato físico. E só por essa razão nós lhe prestamos reverência, de onde vem, que veneramos a imagem da cruz de Cristo em qualquer matéria. ” (Suma Teológica. Livro IIIa Pars. Q 25, art. 4 Tratado do Verbo Encarnado)

Também mui digna de honra, vênia, saudação e do nosso recato quando a recebemos em nossa presença, são as sagradas Escrituras, em razão daquilo que elas nos tramitem, que é a revelação das verdades que Deus produziu na história humana para levar toda humanidade a salvação, conhecendo-o e amando-o.

Não damos deferência em veneração a cruz por causa da madeira ou gesso na qual fora esculpida, nem saudamos com honra as Escrituras em razão da tinta e do papel na qual fora impressa.

Conforme ensina a Tradição Apostólica:

Ou se deve suprimir o caráter sagrado de tudo isso, ou se deve conceder à tradição da Igreja a veneração das imagens de Deus e a dos amigos de Deus que são santificados pelo nome que levam, e que por esta razão estão habitados pela graça do espírito santo. Admiro seu amor para com os capítulos sobre a oração e muita inveja sobre seus propósitos nobres, porque você não simplesmente ama esses escritos feitos com tinta e papel. ” (São Nilo, o asceta, ano 500 DC in Logos Ascéticos)

No culto de dulia, honrados aquilo que o próprio Deus honrou, e santificamos o que Ele santificou, e consagrou como símbolo.

Os santos e as suas relíquias, igualmente, são destinatário das nossas honrarias, não por mérito próprio, mas em razão das virtudes de Deus, infusas neles, pelas quais eles se tornam modelos admiráveis de fé:

“Mas os santos do Altíssimo receberão a realeza e a conservarão por toda a eternidade. ” (Daniel 7.18)

Ensina novamente Damasceno:

«Antes de tudo (veneramos) aqueles entre quem Deus descansou, como a santa Mãe de Deus e todos os santos. Ele, o único santo que mora entre os santos. (cf. Is 57, 15) ” (São João Damasceno, in Apologia Contra os que Condenam Imagens. Cap. I p. 6, anos 676-749)

“Não tenha medo ou ansiedade, pois existem diversas formas de demonstrar respeito, admiração e veneração. Abraão inclinou-se aos filhos de Het, homens ímpios na ignorância de Deus, quando ele comprou uma gruta para lhe servir de túmulo. (Gn 23, 7; Atos 7, 16) Jacó prostrou-se diante de seu irmão Esaú e do Faraó do Egito, mas neste caso apoiando-se em seu cajado.4 (Gn 33, 3) Ele se prostrou e venerou, mas não os adorou. Josué e Daniel reverenciaram um anjo de Deus; (Js 5, 14) MAS NÃO O ADORARAM. O culto de latria é uma coisa, e a veneração que é dada devido ao mérito é outra. (São João Damasceno, in Apologia Contra os que Condenam Imagens. Cap. I p. 12, anos 676-749)

Ainda assim, mesmo diante da consistência da sã Doutrina da Santa Igreja sobre essa questão, por que nós, Católicos, continuamos até hoje sendo caluniados com a falsa acusação de idólatras?

A resposta está no erro doutrinário dos não católicos, ao revisitarem uma antiga heresia chamada iconoclasmo.11

Os iconoclastas desconhecem o conceito, natureza e fim do culto de latria porque não creem que o sacrifício de Cristo tenha efeito eterno, e que ainda esteja disposto ao nosso alcance de modo real e verdadeiro, nos sinais materiais do sangue e da carne (pão) do Cordeiro de Deus.

O problema desse pensamento é que se não houver comunhão com o sacrifício de Cristo, numa realidade  de fato, num mesmo corpo sobrenatural unindo o sacrificado com os fiéis, não haverá expiação dos pecados.

Sem expiação não há adoração, nem salvação. Portanto, a pretexto de suposta idolatria, praticam os que negam a Eucaristia e o sacrifício de Jesus ainda presente na história de modo sensível e visível, o gravíssimo pecado do iconoclasmo.

Grosso modo, os que negam a presença real do Corpo de Cristo na Eucaristia, ofertam a Deus apenas um culto de honra comum com músicas, danças, palestras, artes cênicas e outras manifestações humanas. Daí não entenderem que o culto que ofertam a Deus é o mesmo que ofertamos aos santos e as coisas sagradas, e que somente o culto de honra a Deus, sem a oferta do sacrifício Eucarístico em LATRIA, não possui valia salvífica, nem redentora, não lhes servindo para nada.

Como ensina a santa Escritura:

“Naquele dia, declara o Senhor Deus, os cânticos do templo se transformarão em lamento. Muitos serão os cadáveres, espalhados em silêncio por toda parte! ” (Amós 8.3)

 


1 – Liturgia é a combinação de vários atos e posturas cerimoniais relativas ao Ofício Divino, tendo por fim instruir a relação entre o ser humano e Deus, por meio dos sinais e manifestações nos quais Deus mesmo proclamou que estaria presente, enquanto realidade. O Catecismo  dispõe sobre os fins da Liturgia Cristã: §1068 E este mistério de Cristo que a Igreja anuncia e celebra em sua liturgia, a fim de que os fiéis vivam e dêem testemunho dele no mundo: Com efeito, a liturgia, pela qual, principalmente no divino sacrifício da Eucaristia, “se exerce a obra de nossa redenção”, contribui do modo mais excelente para que os fiéis, em sua vida, exprimam e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja.

2 – Então se levantou Abraão, E PROSTROU-SE diante do povo da terra, diante dos filhos de Hete.(Gn 23, 7)

3 – Não podemos confundir ATOS DE ADORAÇÃO (Jo 9. 37 e 38) com RITUAL DE ADORAÇÃO. O ato é apenas a manifestação de reconhecimento de Deus como única Divindade, sendo só Ele Digno de toda oferta sacrificial. Mas adorar de modo perfeito, completo e útil, só pode ocorreu no ritual de adoração, observando a FORMA e a INTENÇÃO com que se adora. Uma das formas do ato de adorar, entretanto, é se prostrando de joelhos ou com o rosto ao chão. Mas ajoelhar também poder ser simples honraria Civil ou Eclesiástica: “Pela tarde chegaram OS DOIS ANJOS A SODOMA. Lote, que estava assentado à porta da cidade, ao vê-los, levantou-se e FOI-LHES AO ENCONTRO E PROSTROU-SE COM O ROSTO POR TERRA. (Gn. 19, 1)” “Então o carcereiro pediu luz, entrou e LANÇOU-SE TRÊMULO AOS PÉS DE PAULO E SILAS. (Atos 4. 27, 28 e 29)”Pode também ser manifestação de ZOMBARIA, como quando os romanos, humilhando Cristo, se ajoelham diante dele: Em seguida tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lhe na cabeça, e uma cana na mão direita; e ajoelhando-se diante dele, escarneciam-no, dizendo: Salve, Rei dos Judeus!” (Mt 27, 29)

4 – O cordeiro ou novilho, primogênito do rebanho, e sem máculas ou defeitos, representava o Cristo, o Primogênito e Unigênito de Deus. O touro, também usado no sacrifício de modo não usual, representava o povo hebreus, o povo que abriu o caminho ao Verbo Encarnado em sua missão terrena. Boi é o animal que abre, com arado, os caminhos necessários (I Reis 19.19). Jesus é o Caminho. Na ausência desses animais, realizava-se com o sacrifício de pombos, que simbolizava Cristo na revelação, no anúncio do Evangelho ao mundo: “Se não houver meio de se obter uma ovelha ou uma cabra, oferecerá ao Senhor em expiação pelo seu pecado duas rolas ou dois pombinhos, um em sacrifício pelo pecado e o outro em holocausto. (Levítico 5, 7) “Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. (Cântico dos Cânticos 2, 14)”  A Virgem Maria e São José adoraram no Templo com a oferta de uma ave. (São Lucas 2.22)

5 – “Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, FERIDO por Deus e humilhado.” (Isaías 53.4)

6 – “[…] ele vos reconciliou pela morte de seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. (Colossenses 1, 22)” 

7 – Eu o enviarei o Paráclito, e quando ele vier, convencerá o homem do pecado, da justiça e do juízo. (Jo 16. 7 e 8)

8 – Quando explicada a Eucaristia aos incrédulos cafarnaístas, Jesus esclarece que sua carne humana não é comum, porque o Espírito Divino está Nela: – “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida.” (Jo 6, 63)

9 – “Cristo remiu-nos (LIBEROU DA DÍVIDA) da maldição da Lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21,23). (Gálatas 3, 13)” “Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. (Romanos 8, 12)”

10 – A adoração dos puros se realiza apenas na atitude de honrar a Deus, como maneira de manifestar gratidão e amor. (Apocalipse 7, 11)

11 – O movimento iconoclasta islâmico, cujos adeptos  recém aceitos na fé cristã, mas ainda apegados à fé originária, ligavam o Alcorão à alguns versículos Bíblicos descontextualizados, e ao desprezarem o Magistério da Igreja, confundiram Dulia com Latria, e assim, objetos e imagens sacras com ídolos pagãos.O imperador bizantino, Leão III, o Isáurico (717-741), “convertendo-se” ao iconoclasmo,  mandou que destruíssem todas as imagens sacras, e matassem todos os sacerdotes da época.

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