O QUE É ADORAÇÃO?

Adorar é ato de latria (λατρεία)1 significando o culto de submissão a Deus mediante oferta de sacrifício pelos pecados.

É oferta, mas que não se realiza por qualquer ato sacrificial idealizado pelo pecador, vez que o destinatário da oferenda estabeleceu meios e formas próprias, solenes e exclusivas para se adorar.

É assim, um ato sobrenatural, que une o ser humano em Deus, e, portanto, só pode ocorrer por intermédio de Deus.

Ensina Santo Tomás de Aquino:

“[…] sem Deus, o homem não pode absolutamente nada, nem fazer bem nenhum: a Graça é necessária não só para lhes dar a conhecer o que praticar, mas para fazer o que fora informado; […] O homem não pode cumprir o preceito de amor a Deus só por suas faculdades naturais.(Q 109, art 4º Suma Teológica, ano 1.256, Livro Tratado da Graça)

Na antiga Aliança, adorava-se por meio da liturgia do propiciatório,2 com o sacrifício de primogênitos de cordeiros animais, cujo sangue se aspergia e a carne se queimava  (holocausto) para que a fumaça, subindo, representasse a ascensão ao Céu do verdadeiro Cordeiro de Deus, após sua ressurreição: 

“IMOLARÁS um NOVILHO em SACRIFÍCIO expiatório pelo pecado; por esse sacrifício TIRARÁS PECADO do altar.” (Êxodo 29. 36)

“Moisés tomou o sangue para aspergir com ele o povo: EIS O SANGUE DA ALIANÇA  que o Senhor fez conosco.” (Êxodo. 24. 8)

Tempos depois, a adoração veterotestamentária se transferiu para uma montanha  sagrada para o povo hebreus, o Monte Sião, que era uma prefiguração do monte Calvário: 

“[…] subiram à montanha de Sião; PROSTRARAM-SE COM O ROSTO POR TERRA;3 ofereceram um SACRIFÍCIO LEGAL sobre o novo ALTAR dos holocaustos que haviam construído. (I Macabeus 4. 37, 40 e 53) “

Portanto, é certo que qualquer mérito ou talento humano é totalmente inútil e dispensável na adoração, porque qualquer tentativa de ofertar algo a Deus que não seja equivalente à sua dignidade Divina, será objeto do seu repúdio. Por isso, o ato de adorar realizado por ABEL distinguiu-se da tentativa de adoração realizada por seu irmão CAIM.

Caim sendo agricultor, ofertou o melhor do seu trabalho, o melhor de si para Deus: 

Ofereceu Caim, os frutos da terra em oblação ao Senhor; mas o Senhor NÃO OLHOU PARA SUA OFERTA, NEM PARA OS SEUS DONS.”  (Gênesis 4. 3 e 5) DONS.”  (Gênesis 4. 3 e 5) 

Por outro lado, a oferta de Abel representou Cristo, pois no cordeiro animal sacrificado haviam alguns dos elementos que futuramente comporiam a cena da crucificação de Jesus, como dor, vida, morte, sangue e lágrima, dentre outros:

Abel, de seu lado, ofereceu dos PRIMOGÊNITOS do seu rebanho; e o SENHOR OLHOU COM AGRADO PARA ABEL E SUA OBLAÇÃO. (Gênesis 4. 4)

Abel ofertou assim, ainda que simbolicamente, o melhor  de Deus para Deus, ou seja, o inocente representado pelo animal, que morre em razão do pecado, notando desta maneira, que na natureza dos atos de latria, não há espaço para dons, maestria, habilidade e talento humano (Gênesis 4. 1 à 4), pois não é dado ofertar a Deus, aquilo que não seja próprio de Deus em sua Justiça de Amor.

Todavia, essa antiga Aliança já anunciava uma adoração vindoura, diferente da realizada pelos hebreus mediante a aspersão de sangue de cabritos e touros primogênitos, consoante a tradição recebida de Moisés.

Num certo ponto da história abraâmica, PÃES e VINHOS passam à compor o Altar para serem ingeridos com parte da carne sacrificada que sobrava da queima em holocausto:

Amontoai holocaustos sobre os sacrifícios, e deles COMEI  A CARNE.”  (Jeremias 7. 21)

“[…] oferecereis ao Senhor em holocausto um cordeiro

[…] mais libação de VINHO; Ofereceis com PÃO em HOLOCAUSTO.” (Levítico 1. 12, 18 e 23)

“[…] sobem a ADORAR em Betel, levando um três cabritos, outro três fatias de PÃO, e o terceiro um odre de VINHO. (I Samuel 10. 3)

A carne da vítima de ação de Graças4oferecida em sacrifício pacífico, será COMIDA NO DIA DA OBLAÇÃO, com uma cesta de PÃES SEM FERMENTO, com a oblação e libações habituais.” (Levítico 7. 13 à 15)

Nos sacrifícios de hóstia, a vítima era devorada pelo ofertante, que assim, também se tornava oferta na comunhão com o sacrifício com o qual se alimentava:Eu vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a OFERTARDES VOSSOS CORPOS EM SACRIFÍCIO VIVO, SANTO E AGRADÁVEL A DEUS: ESSE É O VOSSO CULTO RACIONAL. (Romanos 12.1) “O CÁLICE de benção, que benzemos, NÃO É A COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO? E O PÃO QUE PARTIMOS NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM AS VÍTIMAS? ( I Corintios 10.16, 17 e 18)”

O prenúncio dessa nova adoração pode ainda ser notado nas representações do Cristo martirizado nos preparativos do povo hebreu para a fuga do cativeiro egípcio, e na Ceia instituída no sacerdócio de Melquesedeque.

Ora, a Ceia de remissão dos pecados, estabelecida na escapada do povo hebreu do Egito, decorreu dessa maneira: 

“[…] cada um tome um CORDEIRO por família, por casa […]; então toda assembleia5  de Israel o IMOLARÁ no crepúsculo. Tomarão do seu SANGUE, e pô-lo-ão sobre as duas ombreias e sobre a verga da porta das casas em que o comerem. Naquela noite, COMERÃO DA CARNE assada ao fogoCOM PÃES SEM FERMENTO.” (Êxodo 12. 2 à 20)

Ensinou novamente Santo Tomás de Aquino: 

O Cristo padecente contido no sacramento, figura dele foram os sacrifícios do testamento velho e sobretudo a expiação, que era soleníssima. […] O Cordeiro Pascal PREFIGURAVA Eucaristia, porque: — era comido com pães asmos;  porque: — era imolado por toda a multidão dos filhos de Israel na décima quarta lua que figura a Paixão de Cristo, chamado Cordeiro; porque: — pelo sangue do cordeiro pascal, os filhos de Israel foram protegidos contra o anjo devastador, e tirados da escravidão do Egito.6 Por isso, é figura precípua deste sacramento por lhe representar em tudo.” (Suma Teológica, art 4º – Questio nº 73 – Dos Sacramentos)

Conclui-se que o sacrifício do Cordeiro Pascoal, no êxodo do Egito, figurou por completo o sacramento da Eucaristia, unindo a antiga forma realizada na liturgia da imolação de cordeiros e cabritos, com os novos elementos que viriam integrar o sacrifício futuro na nova Aliança, tais como, a carne, o pão e o sangue.

Por figurar a Eucaristia, é que fora ordenado que esse sacrifício seria perpétuo, sendo no tempo futuro alterada a forma, com a supressão do abate de animais, sem desfigurar a essência que é a ceifa de uma vida inocente ofertada à morte em troca de outras inúmeras vidas transgressoras, estando o ato de latria, hodiernamente, presente tão somente na Eucaristia, porquanto em Cristo, tudo se fez novo:

Observareis esse costume como uma INSTITUIÇÃO PERPÉTUA para vós e vossos filhos. (Êxodo 12.24)

Noutro compasso, a ceia de Melquesedeque modelou a adoração Eucarística de forma mais clara, por ter sido composta apenas de pão e vinho:

Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Altíssimo, mandou trazer PÃO E VINHO, e o abençoou Abraão, dizendo: – Bendito seja Abraão, pelo Deus Altíssimo que criou o céu e a terra.” (Gênesis 14. 17 e 18)

Sendo rei e sacerdote, esse Melquesedeque, sem dúvida, era uma figura representativa do sacerdócio de Jesus Cristo no antigo testamento: 

“Tu És, Sacerdote Eternamente, segundo a Ordem de Melquisedec. (Hebreus 7, 11, 15 e 17)”

Ensinou Santo Agostinho:

Ofereceremos por toda parte, sob o grande Pontífice Jesus Cristo, aquilo que ofereceu Melquisedeque.(l`église et les sacrements, in revista  communicantes nº 35, octobre, 1990, p. 4)

Com a Ceia de Cristo, restava instituída a nova adoração, que  só pode ser celebrada em seu Corpo Santíssimo sacrificado, e por meio do seu Espírito Divino:

E tendo dado Graças, o partiu e disse: – Tomais e comei, isto é o meu Corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória7 de mim.” (I Coríntios 11. 24)

Abolia-se, destarte, toda adoração simbólica da tradição mosaica, a qual se fazia mediante o sangue dos cordeiros e touros dados em sacrifício de imolação e holocausto, substituindo-na pela autêntica latria mediada na realidade presencial da carne e do sangue sacrificial, do único e verdadeiro Cordeiro de Deus, dado para remissão dos pecados da humanidade:

EIS O SANGUE DA ALIANÇA que o Senhor fez convosco. (Êxodo 24. 8) ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA ALIANÇA. (São Mateus 26. 28).

Fundava-se a adoração ad perpetuam rei memoriam, o culto Missal como único, legítimo e possível culto Cristocêntrico de latria, realizado no memorial da comunhão viva, real e presente do sacrifício de Cristo.

Desse modo, cumpriam-se as profecias sobre a nova adoração que já não seria realizada apenas pelo povo hebreu, mas universalmente (katholikós) em todos os povos e em todas as nações da terra:

“SACRIFICAM a mim em TODO LUGAR e oferecem em meu nome uma OBLAÇÃO TODA PURA, pois grande é o Meu Nome em TODAS as nações.” (Malaquias 1,11)”

Há na MÃO do SENHOR uma taça de VINHO espumante e aromático. DELA DÁ DE BEBER. E até as fezes hão de esgotá-la; HÃO de SORVÊ-LA os ÍMPIOS TODOS da TERRA.” (Salmo 74, 9)

“[…] sobre a mesa dos pães da proposição, o PÃO PERPÉTUO estará sobre ela.” (Números 7. 4)

“[…] não faltarão jamais descendentes aos sacerdotes e aos levitas para oferecer os holocaustos, queimar as oferendas e celebrar o SACRIFÍCIO COTIDIANO. (Jeremias 33. 15 à 18)”

https://igrejamilitante.com.br/index.php/2019/07/30/o-que-distingue-…ia-e-a-idolatria/

“19. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar. 21. ENTÃO ACEITAREIS OS SACRIFÍCIOS PRESCRITOS, AS OFERENDAS E OS HOLOCAUSTOS; E SOBRE VOSSO ALTAR VÍTIMAS VOS SERÃO OFERECIDAS.”  (Salmo 50)

Só pode adorar no sacrifício de Cristo, e sendo este, o que nos une a oferta de redenção por nossos pecados, quem não adora, não se salva:

porque o PÃO DE DEUS é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo.” (São João 6, 33)

Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. (São João 6, 53)

 https://igrejamilitante.com.br/index.php/seria-a-ceia-do-…e-cristo-ausente/ 

O desprezo à latria do corpo e do sangue do Cordeiro de Deus, substituindo-na por cânticos, louvores devocionais ou outras manifestação externas de honrarias e reverências inferiores não exclusivamente destinada à Deus, mas meritórias em nossa própria humanidade, implica na negação do próprio ato de adorar, cuja forma e essência foram instituídas diretamente pelo próprio Deus de modo imutável.

“Ai, ai! Eu odeio e ignoro as vossas festas religiosas; também não suporto as vossas assembleias solenes. Ainda que me ofereçais holocaustos, vossos sacrifícios queimados, com vossas ofertas de cereais, não me agradarei disso tudo; tampouco olharei para as ofertas de paz e comunhão, mesmo que sejam de vossos melhores animais de engorda.(Amós 5. 21 e 22)

Longe de mim o ruído dos vossos cânticos, NÃO QUERO MAIS ouvir os RUÍDOS DE VOSSAS HARPAS .”  (Amós 5. 23) 

 

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1  – λατρεία

2  – Propiciatório: sangue aspergido para remissão dos pecados antes da Graça, desviando a Justiça condenatória de Deus sobre nós. (Pe. Le Brun – Explication  de la Messe” 1ª Ed. 1716, p.12)”

4  – No grego eucaristia significa “ação da Graça.”

5  – Ekklesia (igreja) em sentido de congregação.

6  – O pão nosso de cada dia, (COTIDIANO) nos dai hoje (Mt 6. 11)

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